A História

da Igreja Ortodoxa

Por Reverendo Constantine Callinikos.

Tradução: Rev. Pedro Oliveira Junior.

 

 

Introdução

Parte I

Tempos Antigos (A.D. 33-700)

1. Os Primeiros Pregadores do Evangelho

A Comunidade Cristã em Jerusalém. Estevão, o Primeiro Mártir. A Conversão de Saulo. As Jornadas do Apóstolo Paulo. A Prisão e Martírio de Paulo. O Apóstolo Pedro. Os Outros Apóstolos. O Apóstolo João.

2. O Conflito entre Cristianismo e Paganismo.

Progresso com Impecilhos. Perseguição Sob Nero e Domiciano. Perseguição Sob Trajano. A Perseguição Sob Adriano. A Perseguição Sob Marco Aurélio. As Perseguições Sob Sétimo Severo e Maximiano. A Perseguição Deciana. A Perseguição Sob Valeriano. A Perseguição Sob Deoclecian.

3. O Triunfo do Cristianismo sobre o Paganismo.

Constantino o Grande. A Visão da Cruz. Constantino como Campeão do Cristianismo. Os Filhos de Constantino o Grande. Juliano o Apóstata. Os Sucessores de Juliano Abolem o Paganismo. Cristianismo na Armênia e Ibéria. Cristianismo na Pérsia, Arábia e Abissínia. Cristianismo e os Novos Povos do Ocidente.

4. Os Perigos da Heresia.

A Atitude da Igreja com os Heréticos. Judeus Heréticos: Ebionitas, Nazarenos, Elkesaitas. Judeus Heréticos: Ceríntios. Gnósticos. Maniqueus Antitrinitários.

5. Os Primeiros Seis Concílios Ecumênicos.

Arianismo. O Primeiro Sínodo Ecumênico. O Segundo Sínodo da Igreja. O Terceiro Sínodo Ecumênico. O Quarto Sínodo Ecumênico. O Quinto Sínodo Ecumênico. O Sexto Sínodo Ecumênico. Pelagianismo e Agostianismo.

6. Os Padres Mais Eminentes.

Os Padres Apostólicos. Apologistas. Representantes das Escolas da Ásia Menor e África. Orígenes. Atanásio. Os Três Capadócios. Um Representante da Escola de Antióquia: Crisóstomo. Outros Padres.

7. Vida Cristã e Louvação.

A Reforma Moral Trazida à Luz pelo Evangelho. O Joio no Meio do Trigo. O Tratamento da Igreja para com os Pecadores. O Primeiro Eremita. O Espalhamento da Vida Monástica. Lugares de Louvação Pública. Os Dias de Festas Mais Importantes.

Parte II

Tempos Medievais

(A.D. 700-1453)

8. O Espalhamento do Cristianismo Entre os Eslavos.

Sérvios, Croatas, Dálmatas e Eslavos na Grécia. Os Moravos. Os Búlgaros. A Conversão dos Búlgaros. Os Russos. A Conversão dos Russos. O Batismo de Vladimir e Seu Povo. Vicissitudes da Igreja Russa.

9. Iconoclasmo e Outras Disputas.

Léo o Isauriano e Seu Programa de Reformas. A Guerra Contra as Imagens. O Sétimo Concílio Ecumênico. Domingo da Ortodoxia. Os Heréticos Paulicianos. Os Heréticos Bogomilos.

10. O Começo do Grande Cisma.

Governo da Igreja. Govêrno da Igreja Durante os Três Primeiros Séculos. Govêrno da Igreja Depois de Constantino o Grande. Os Cincos Patriarcas. A Ambição dos Papas de Roma. A Pretensão do Papa Nicolau em Se Tornar o Árbitro do Oriente. Photius como Defensor da Independência de Seu Trono. O Assim Chamado Oitavo Concílio Ecumênico e Suas Denúncias.

11. O Completamento do Grande Cisma.

Miguel Cerulário e Leão IX. As Cruzadas. Imperadores Levados pela Necessidade de Favorecer a Reunião. João VII Paleólogo em Ferrara. A Falsa União de Florença. As Consequências da Falsa União.

12. A Escravização da Igreja do Oriente pelo Mohamedanismo.

O Fundador do Mohamedanismo. A Hégira. Os Sistemas Dogmático e Ético do Mohamedanismo. O Islã como Poder Conquistador. A Sujeição dos Patriarcados de Jerusalém, Antióquia e Alexandria. O Cêrco de Constantinopla por Mohamed II. As Últimas Horas de Constantinopla. O Significado da Queda de Constantinopla.

13. Cartas Medievais.

Características da Teologia Medieval. Teologia Durante as Disputas Iconoclásticas. Teologia Sob os Imperadores Macedônios: Photius. Teologia Sob os Imperadores Macedônios Depois de Photius. Teologia Sob a Dinastia Comnena. Teologia Sob a Dinastia Paleóloga.

14. Vida Cristã e Louvação.

As Condições Morais. O Reverso da Medalha. O Progresso do Monasticismo. A Degeneração da Vida Monástica. Igrejas e Ícones. Cerimônias e Sacramentos. Hinologia Sagrada.

Parte III

(A.D. 1453 — 1930)

Tempos Modernos

15. A Noite de Opressão e o Raiar da Liberdade.

As Promessas do Conquistador para Scholarius. A Violação pelo Conquistador de Suas Promessas. A Pia Questão Perguntada por Selim I. Pesquesi, Haratsi, Rapto de Crianças e Conversão Forçada ao Islã. As Primeiras Luzes na Melhoria da Raça Subjugada. A Revolução Grega. Hatti Serif e Hatti Houmayoun.

16. Os Quatro Mais Antigos Patriarcados e Chipre.

O Patriarcado de Constantinopla. O Sistema de Govêrno. A Área de Jurisdição. A Luta do Patriarcado pela Manutenção dos Seus Previlégios. O Patriarca de Alexandria. O Patriarcado de Antióquia O Patriarcado de Jerusalém. A Igreja de Chipre.

17. Rússia, Grécia, Sérvia, Romênia, Bulgária e Síria.

Outras Igrejas Ortodoxas. A Igreja da Rússia nos Tempos Modernos. A Igreja da Grécia nos Tempos Modernos. A Igreja da Sérvia nos Tempos Modernos. A Igreja da Romênia nos Tempos Modernos. A Igreja da Bulgária nos Tempos Modernos. A Igreja da Síria.

18. Ortodoxia na América.

Igreja Albanesa. Igreja Búlgara. Igreja Grega. Igreja Romena. Igreja Russa. Igreja Sérvia. Igreja Síria. Igreja Ucraniana.

19. As Relações da Ortodoxia com o Catolicismo Romano e Protestanismo.

Ataques Papistas à Igreja do Oriente. Papismo em Constantinopla: Cirilo Lucar. Papismo na Palestina e na Síria. Papismo na Rússia e em Países Menos Distantes. A Unia Papal na Grécia de Hoje. A Primeira Carta Protestante. Os Teólogos de Tubingen, os Protestantes da Polônia e a Confissão de Cirilo Lucar. Missionários Protestantes. Anglicanos e Ortodoxos.

20. Literatura Teológica.

Literatura Teológica Após a Queda de Constantinopla. Eruditos dos Décimo Quinto e Décimo Sexto Séculos. Eruditos do Décimo Sétimo Século. Eruditos do Século Dezoito. O Século Dezenove. Eruditos do Século Dezenove e Vinte.

21. Vida Cristã e Louvação.

Os Pecados dos Cristãos Escravizados. As Virtudes dos Cristãos Escravizados. Missionários e Mártires Ortodoxos nos Tempos Modernos. A Montanha Santa. Outros Centros Monásticos. Arte Eclesiástica. A Palavra de Deus. Problemas Prementes a Serem Resolvidos num Futuro Próximo.

 

 

Introdução.

Este livro é um da série que foi iniciada pela Santa Metrópole de Thyateira com a publicação do Catecismo Ortodoxo Grego. Este breve esboço da História da Igreja Ortodoxa pretende dirigir-se assim como a série mencionada, principalmente para Cristãos Ortodoxos, que tendo nascido em países onde sua língua mãe não é falada, ter mais facilidade em compreender na linguagem do país de sua adoção. Este livro não pretende ser de uso exclusivo para crianças aprenderem o catecismo, mas sim pretende ser do interesse de cristãos ortodoxos, que desejam ter um breve mas confiável relato da evolução da Igreja Ortodoxa através dos séculos da Era Cristã. Além disso, acreditamos que, apesar de existirem algumas obras em Inglês que tratam de maneira geral da Igreja Ortodoxa, este livro é o primeiro que contém uma breve história da Igreja Ortodoxa, o trabalho de um Erudito Ortodoxo, cai em mãos de leitores da língua Inglesa. É um livro que toca em todos os períodos da sua história e, acima de tudo, no último período, que, em sua maior parte, não foi estudado pelos não-Ortodoxos. As relações próximas que especialmente no passado recente, se desenvolveram entre as duas Igrejas, a Ortodoxa e a Anglicana, e os recentes contatos estabelecidos entre elas na Conferência de Lambeth, tornam o contexto desse livro, em tratando das projeções futuras da Igreja Ortodoxa interessante e atual.

A Compilação nesse trabalho foi confiado pela Santa Metrópole de Thyateira ao Vigário da Igreja Grega em Manchester, o Reverendo Constantino Callinicos, autor de muitos escritos religiosos e teológicos notáveis. Na recente publicação de um importante "Comentário sobre os Salmos," ele recebeu um sinal de honra das mãos do Patriarcado Ecumênico que lhe outorgou o título, de rara distinção na Igreja Ortodoxa, "Grande Economo da Grande Igreja." O Reverendo Callinicos cumpriu a tarefa que lhe foi confiada com grande perícia. Não só ele se absteve de insistir em questões que ainda que incluídas na vida e história da Igreja, não tem relação imediata com sua natureza essencial; ele também se recusou a meramente recolher material que é facilmente obtenível nos escritos históricos de outras Igrejas. Seu profundo amor pela, e devoção à Igreja Ortodoxa, sua insistência na verdade histórica e acuracia, e, finalmente seu estilo polido de escrever, são características do presente trabalho do autor, assim como de todos os seus trabalhos.

A tradução para o Inglês foi conduzida zelosamente por Miss Natzio. O fato de que essa Senhora nasceu e foi criada na Inglaterra, e tem uma carreira de sucesso na Universidade da Inglaterra (B.A. e B.Utt. Oxford), tem, em si, a garantia de uma tradução acurada e perfeita. A ambos, autor e tradutora, portanto, expressamos nossos calorosos aagradecimentos e damos nossa benção.

É nossa esperança, que esse livro, preenchendo o propósito para o qual foi escrito, possa ajudar a tornar a Igreja Ortodoxa mais amplamente conhecida; — uma Igreja que, no passado, aguou a árvore do Cristianismo quando ela primeiro foi plantada nessa terra com o sangue de seus mártires, e ainda hoje tem mártires para mostrar sua luta contra os poderes que se colocam contra sua existência verdadeira.

+ O Metropolita de Thyateira, Germanos

Londres, Domingo de Ramos, 1931

Parte I

Tempos Antigos (A.D. 33-700)

1. Os Primeiros Pregadores do Evangelho

A Comunidade Cristã em Jerusalém.

A história da Igreja começa no dia de Pentecostes, que por essa razão tem sido chamado de aniversário da Igreja. Naquele dia, a presença de cento e vinte pessoas, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos, e eles começaram a falar em diversas línguas, de modo que Judeus de longe que estavam morando em Jerusalém, ficaram espantados com a súbita transformação de homens que ainda ontem eram simples pescadores. Mas o apóstolo Pedro, levantando-se no meio deles, explicou que essa transformação era devida a Jesus o Nazareno, que apesar de crucificado pelos judeus, tinha ressuscitado pelo poder de Deus. E naquele mesmo dia tres mil almas se juntaram à nova fé. Alguns dias depois, quando Pedro e João estavam a caminho do templo para rezar, um pedinte aleijado que estava deitado no templo pediu esmola a eles: "Prata ou ouro não tenho nenhum," disse Pedro; "mas posso dar tal a ti: em nome de Jesus Cristo de Nazareth, levanta-te e anda." O homem aleijado foi curado e Pedro, segurando-o pela mão, mostrou-o para a multidão atônita que amontoou-se para ver o milagre, como um testemunho do poder de Cristo. E os tres mil fiéis de antes tornaram-se cinco mil.

Estevão, o Primeiro Mártir.

Assim, os primeiros seguidores do Cristo crucificado cresceram aos saltos, e formaram a primeira comunidade Cristã em Jerusalém. Unidos por laços de amor mútuo, como nunca havia sido visto antes, eles comiam em mesas comunitárias e sob a supervisão geral dos apóstolos e tinham todas as suas posses em comum. Mas logo, no entanto, os Apóstolos não eram mas capazes de atender as necessidades materiais e espirituais de tantos milhares de almas; então, mantendo para si o ministério espiritual, indicaram sete diáconos para organizar o aprovisionamento da comunidade. Destacava-se entre os sete por sabedoria e santidade Estevão. Cheio de santo zêlo, ele renunciou os judeus por sua surdez para a voz do Senhor, que ficaram enraivecidos, e acusaram-no de blasfêmia, condenando-o à morte por apedramento. "Senhor Jesus, recebe meu espírito!" foram suas palavras antes da morte.

A Conversão de Saulo.

A morte de Estevão o Mártir foi o sinal de partida para uma grande perseguição contra a recém estabelecida Igreja, que era intolerável para as autoridades judias como uma apostasia da lei de Moisés. Mas essa perseguição local tornou-se vantajosa para a nova fé, porque seu efeito for espalhar os irmãos de Jerusalem, onde até então eles estavam confinados, enviando-os para carregar as sementes do evangelho não só para outras cidades da Judéia, mas tambem para a Samaria, Fenícia e Chipre, e até para Antioquia, onde pela primeira vez os fiéis ao Cristo foram chamados de Cristãos. Foi também a morte de Estevão, que primeiro pôs em evidência Saulo, então ainda um fanático fariseu, que atacava selvagemente a Igreja Cristã, mas que estava divinamente indicado para tornar-se o mais ardoroso e frutificante dos Apóstolos do Senhor. Sua conversão para o Cristianismo ocorreu no ano 35 D.C. fora de Damasco. Uma grande luz brilhou subitamente cercando-o, e a voz do Salvador soou em seus ouvidos: "Saulo, Saulo, porque me persegues. É duro para ti recalcitrar contra os aguilhões. "Então ele foi batizado, mudando seu nome de Saulo para Paulo; os Apóstolos o receberam em sua fraternidade, e, cercado por perigos e perseguições, ele embarcou naquelas grandes e missionárias jornadas que fariam do Cristianismo uma fé universal.

As Jornadas do Apóstolo Paulo.

Em sua primeira jornada missionária (45-51), Paulo saiu de Antióquia na Síria e após visitar em um turno Seleucia, Chipre, Perga em Panfilia, Antioquia em Pisidia, Iconio, Lysdra e Derbe, ele então, retornou para seu ponto-de-partida para logo depois atender o Sinodo Apostólico em Jerusalém, onde ele defendeu a independência do Cristianismo das formas e cerimônias prescritas pela lei Mosaica, Sua segunda jornada missionária (53-55) foi feita com o intuito de visitar e reforçar na fé as comunidades estabelecidas recentemente, mas seu zêlo dirigiu-o para Troas, no lado mais distante da Asia Menor, onde ele tomou um barco para a Europa e fundou as Igrejas de Filipo, Amfipolis, Apolônia, Tessalônica, Berea, Atenas e Corinto. E na sua terceira jornada missionária (56-59), Paulo adotou por algum tempo como seu quartel general a grande cidade de Efeso na Asia Menor, para desgôsto dos devotos de de Diana. De lá, prosseguiu para visitar as comunidades recem-fundadas na Macedônia e na Grécia, e no seu caminho de volta pregou o Evangelho em Metilene, Chios, Samos, Mileto, Cos, Rhodes e Tiro na Tenícia, retornando à Jerusalém pelo caminho da Cesaréia.

A Prisão e Martírio de Paulo.

Mas os judeus, que nunca cessaram de perseguir Paulo como um traidor e corruptor de sua religião, agarraram-no e o puseram na prisão, primeiro em Jerusalém depois em Cesaréia. Por dois anos o Apóstolo esperou em vão por sua absolvição pelo procurador romano; sob a influência dos judeus, o procurador adiou o julgamento dia por dia. Finalmente Paulo, como cidadão romano, apelou para seu direito de apelar diretamente ao César, e assim ele foi mandado acorrentado para Roma, aonde depois de uma viagem tempestuosa ele chegou em A.D. 62. Lá, apesar de estar sempre sob guarda militar, ele viveu em uma casa própria onde ele esteve autorizado a receber livremente e pregar o Evangelho para todos na grande capital do Império Romano. Nesse ponto, a narrativa dos Atos dos Apóstolos chega ao fim. De acordo com certos escritores antigos, o martírio de Paulo teve lugar sob Nero em A.D. 64, imediatamente depois do período na prisão. Outros, no entanto, afirmam que nessa ocasião ele foi libertado, e depois de ter feito ainda uma quarta jornada "para o mais longinquo ocidente" (isto é, Espanha), ele voltou à Roma, onde ele foi decapitado em A.D. 66 ou 67.

O Apóstolo Pedro.

Paulo que devotou quase toda sua energia à conversão dos pagãos, tem sido chamado o " Apóstolo dos Gentios"; Pedro, por outro lado, colocou toda sua atenção nos judeus, e por isso é conhecido como o "Apóstolo da Circuncisão." Seu batizado do meio-Pagão centurião Cornelius, depois de receber em uma visão a divina ordem de não chamar de comum aqueles a quem o Senhor havia puruficado, foi um mero episódio na carreira de um homem cuja vida foi dedicada exclusivamente a seus companheiros judeus. Primeiro Pedro ficou em Jerusalém com os outros Apóstolos, e desempenhou um papel importante nos primeiros estágios do Cristianismo. Sua vida foi ameaçada por Herodes Agripa, para grande satisfação dos judeus, mas após sua escapada milagrosa da prisão, ele logo deixou Jerusalém e viajou por Pontus, Galatia, Bitinia e outras partes da Asia Menor. Por muitos anos ele cuidou dos Cristãos de Antioquia como seu primeiro Bispo. Mas, como Paulo, ele finalmente chegou a Roma, onde, de acordo com a tradição, foi crucificado no reinado de Nero, de cabeça para baixo, já que ele se considerava mesmo na morte, indigno de ser colocado no mesmo nível que seu Salvador. A história do martírio de Pedro deve ser encarada como fato estabelecido, sendo sustentada tanto pela previsão de Nosso Senhor (conforme João 21:18) e pela evidência de escritores antigos; que ele floresceu como Bispo de Roma por vinte e cinco anos é, no entanto, somente um mito. No A.D. 51 ele estava presente no Sinodo Apostólico em Jerusalém. Em A.D. 58, Paulo escrevendo sua Epístola aos Romanos, não menciona seu nome, apesar de mandar saudações para muitos fiéis de Roma. Em A.D. 62 quando Paulo chegou a Roma como prisioneiro, Pedro não veio cumprimentá-lo, e apesar de Pedro escrever várias de suas Epístolas durante sua estadia em Roma, não o menciona nenhuma vez. O historiador Eusébio, alem disso, fala de Lino como primeiro Bispo de Roma.

Os Outros Apóstolos.

Como Pedro e Paulo, os outros apóstolos também selaram suas mensagens com seu sangue. Tiago, o mais velho, o irmão de João, foi decapitado em Jerusalém sob Herodes Agripa, de acordo com o indisputável testemunho dos Atos dos Apóstolos. Tiago o mais novo, ou "Adelphotheos," que tornou-se o primeiro Bispo de Jerusalém depois da partida dos outros apóstolos, foi jogado do pináculo do templo, de acordo com Hegisippus, e apedrejado pelos judeus quando confessou Jesus Cristo o Filho de Deus. André, que viajou por Scythia e fundou a primeira Igreja Cristã em Bizâncio foi crucificado em Patras, assim diz a tradição, numa cruz em X que desde então leva seu nome; enquanto Tomé teve seu lado furado por uma lança depois de uma frutífera carreira na Pérsia, Etiópia e India. Na verdade, praticamente todos os Apóstolos coroaram o trabalho da vida com morte por martírio, apesar de em muitos pontos suas histórias serem obscuras e confusas, tendo sido passadas para nós não por histórias autenticadas mas sim por tradição popular.

O Apóstolo João.

Uma única exceção, foi João, o discípulo Amado, o mais jovem de todos, que morreu pacificamente no ano de encerramento do primeiro século da era Cristã. Depois da dispersão de seus companheiros discípulos, João fez de Efeso o centro de suas atividades, e dali dirigiu todo o trabalho missionário na Asia Menor, especialmente depois da morte dos outros Apóstolos. Durante o reinado do Imperador Domiciano ele foi banido por um tempo para a ilha de Patmos, onde, segundo a maneira dos antigos profetas, ele escreveu o Livro da Revelação. Mas foi devolvido para seu rebanho, e viveu entre eles até tal idade avançada que no final de sua vida tinha que ser carregado para o local de celebração, onde, muito fraco para fazer um longo discurso, limitou todo seu ensinamento a essas simples palavras: "Crianças, amem-se umas as outras." Pois para João a síntese de toda moralidade Cristã é o amor. É delatado que esse Apóstolo foi fortemente atraido por um excelente e dotado jovem e o adotou como filho. Mas o jovem, durante a ausência do Apóstolo, foi desviado por companhias perniciosas e tornou-se um chefe de bandoleiros. O velho Apóstolo subiu para as montanhas e procurou até que encontrou sua ovelha desgarrada, quando colocando-o nos ombros trouxe-o de volta, arrependido, para o rebanho Cristão.

2. O Conflito entre Cristianismo e Paganismo.

Progresso com Impecilhos.

Sob os sucessores dos Apóstolos durante o segundo e terceiro século, o Cristianismo ainda continuou a ganhar terreno dia a dia. O filósofo e mártir Justino, que morreu em A.D. 166, foi já capaz de afirmar que em seu tempo existiam pouquissimas raças de homens na terra, bárbaros ou civilizados, nomades ou morando em tendas, entre os quais não eram oferecidas orações para o verdadeiro Deus, revelado através de Jesus Cristo. E os fatos provaram que a afirmação de Justino não era uma simples retórica bombástica. Na Asia Menor, na Bitinia, o jovem Plínio viu com alarme o rápido espalhamento da nova religião. Na Síria, a luz do Evangelho brilhou de Antioquia como uma terra luminosa. Em Atenas os Bispos apostólicos, Diniz o Aeropagita e Quadratus, continuaram a pregação de Paulo para o Deus desconhecido. Na Itália as comunidades Cristãs estavam se multiplicando, como Roma sendo sua metrópole espiritual; enquanto que no sul da França, Lyons e Vienne eram proeminentes centros Cristãos. Na África, grandes homens da Igreja cobriram Cartago de glória, e disseminaram a fé nas cidades vizinhas; enquanto que a Igreja de Alexandria fundada por Marcos o Evangelista, era como outro faraó para o Egito. Mas esse progresso não foi obtido sem encontrar sérios obstáculos. O Império Romano, que detinha a chefia do mundo, era um império pagão, e naturalmente olhou para a minação do paganismo como o equivalente a ameaça sobre suas próprias bases. Levantou-se então, a onda de perseguições dos tres primeiros séculos, que se interrompia às vêzes em intervalos mas voltava com renovada violência, com o objetivo de exterminar a fé Cristã, até que após trezentos anos de luta o Império depôs sua espada aos pés de Cristo.

Perseguição Sob Nero e Domiciano.

A primeira perseguição teve lugar no reinado de Nero, em A.D. 64. Esse monarca endemoninhado e demente que havia matado seu tutor, seu irmão e sua mãe com tanto gosto como se estivesse lendo poemas de Homero, pos em sua cabeça por fogo em Roma, para ter uma impressão realista da queima de Tróia pelos Gregos. Mas seu povo descobriu a origem da conflagração, e para se salvar da raiva do povo ele jogou a responsabilidade sob a seita recém criada dos Cristãos, de quem os pagãos já tinham ódio por considerá-los pessoas atéias e anti-sociais. Alguns dos Cristãos foram crucificados, alguns serrados em dois; outros eram costurados pela pele e jogados aos cães, ou arremessados sem defesa, como presas para as feras. E outros lambuzados com alcatrão, eram empacados em estacas e acendidos como tochas para iluminar os jardins imperiais. Durante essa perseguição, como vimos, Pedro e Paulo foram martirizados. Em A.D. 95 Domiciano por sua vez perseguiu a nova fé, considerando que a crença em Jesus Cristo era incompatível com a crença na divindade do César Romano. A essa perseguição, deve-se a morte do sobrinho de Domiciano, Flávio Clemente, o banimento do Apóstolo João para Patmos, o martírio de Dinis, o aeropagita, e a execução, exílio ou aprisionamento de muitos outros Cristãos. Esse desconfiado Imperador, interpretando literalmente as palavras de Cristo sobre o Reino de Deus, chegou a enviar pessoas à Palestina para procurar os parentes de Nosso Senhor, para condená-los como revolucionários; mas quando ele viu seu ar de pobreza e suas mãos calosas, ele os dispensou como loucos.

Perseguição Sob Trajano.

Sob o Imperador Trajano (98-117A.D.) Plínio o Jovem, então governador da Bitinia e Pontus, observou o crescimento diário das comunidades Cristãs em sua província; e em dúvida de como checar o progresso dessa "supertição maligna e malévola," como ele a chamava, escreveu para o Imperador pedindo instruções. Trajano respondeu que nenhuma medida deveria ser tomada deliberadamente para caçar os Cristãos; mas, no entanto, se eles fossem levados para diante de magistrados, deveriam ser forçados a escolher entre sacrifícios aos deuses pagãos ou a morte. Assim, o Cristianismo, cujo destino tinha até então dependido do capricho de sucessivos imperadores, tornou-se daí em diante, pelas explícitas provisões da lei romana, uma ofensa punível. A vítima mais notável dessa perseguição foi o Bispo de Antióquia, Inácio Teóforo, por razões tanto de sua própria posição distinguida, quanto pela eminência de seu juiz; pois o próprio Imperador Trajano, durante uma campanha contra os Partas, aconteceu de passar por Antióquia, e Inácio apareceu diante dele para interceder a favor de seu rebanho. — "Quem és tú, espírito maligno, que despreza meus decretos?" perguntou Trajano. — "Um portador de Deus não pode ser chamado de espírito maligno" replicou Inácio. — "E que homem é um portador de Deus?" — "Aquele que carrega Cristo em seu peito." — "Quem é esse Cristo? Aquele que foi crucificado sob Pilatos?" — "Eu quero dizer Ele que crucificou o pecado, ó meu Senhor adorado!" — "E pensas tú que aqueles que adoramos não são deuses?" -"Ó rei, o que vos chamas deuses, são demônios, pois há um só Deus, aquele que criou o céu e a terra." — "Muito bem," disse Trajano; "eu ordeno que esse homem, que diz que ele carrega dentro dele o Cristo crucificado, seja mandado acorrentado para Roma, e que seja feito em pedaços pelas feras selvagens para o entretenimento do povo de Roma." Quando ouviu a decisão do Imperador, Inácio deu graças a Deus porque seria glorificado pelo fim que teve o Apóstolo Paulo; e, seguindo seus guardas, fez uma longa viagem para Roma, onde diante de milhares de espectadores ele foi jogado no Coliseu e devorado por feras.

A Perseguição Sob Adriano.

O sucessor de Trajano foi Adriano (117-138), a quem dois Cristãos ilustrados, Quadratus, Bispo de Atenas, e o filósofo ateniense, Aristides, endereçaram apologias sobre seus irmãos na fé. Adriano que era imperador justo, ficou impressionado pelos argumentos, e deu ordem para que dai em diante os Cristãos não deveriam ser molestados para satisfazer o calmor popular, e só quando eles fossem condenados por crimes comuns, poderiam ser punidos com a morte. Mas, desafortunadamente mesmo sob Adriano foi derramado sangue Cristão na Palestina, devido a um certo rebelde judeu, Bar-cochba, que agitou seus patrícios para se revoltarem contra o domínio de Roma. Bar-cochba foi morto, e a rebelião foi lavada com sangue judeu; no entanto, muitos Cristãos inocentes pereceram, porque popularmente o Cristianismo ainda era identificado com o judaismo. Adriano obliterou o nome de Jerusalem, que ele nomeou "Aelia Capitolina," e erigiu um templo para Venus no Golgota, e uma estátua de Júpiter no Santo Sepulcro.

A Perseguição Sob Marco Aurélio.

Uma nova série de perseguições contra os Cristãos foi iniciada por Marco Aurélio (161-180). Em parte porque ele ficou ressentido com a atitutde Cristã, calma e corajosa face à morte, e considerou isso um insulto à sua própria virtude estoica (porque Marco Aurélio era tanto o César quanto o filósofo); em parte porque seu povo atribuia pragas e outros desastres similares à ira dos deuses por sua tolerância com o ateismo Cristão, rescindindo então o Imperador as leis moderadas de Adriano. A perseguição dos Cristãos somente por seu cristianismo mais uma vez chegou a ordem do dia e até tortura foi posta em serviço para que eles fossem forçados a se retratar. Foi nesse tempo que Policarpo, que junto com Inácio tinha sido um discípulo de São João, foi queimado vivo na arena de Esmirna. — "Queres amaldiçoar Cristo?" o proconsul o ameaçou. — "Por oitenta e seis anos eu servi o Senhor, e ele nunca me fez mal," respondeu Santo, "como poderei eu então falar mal nele agora, meu Senhor e Salvador?" Os pagãos trataram de apressá-lo, para a estaca com pregos, mas Policarpo protestou. — "Suas precauções são desnecessárias, pois Deus me dará forças para permanecer solto nas chamas." Esse e outros eventos similares tiveram lugar na Ásia Menor em 166. Em 177 a perseguição explodiu de novo mais violentamente do que nunca, epecialmente na Gália do Sul. Em Lyons, entre outras vítimas, o nonagenario Bispo da cidade, Pothinus, sucumbiu a cruéis torturas; enquanto a menina escrava Blandina era ferida com arma branca até a morte na arena de touros. Em Autun, Simphorian foi decapitado por se recusar a ajoelhar-se e adorar a imagem de Cibele quando sua frenética procissão estava passando ridicularizando o dogma Cristão da ressureição dos mortos, os pagãos queimavam os corpos dos mártires e espalhavam suas cinzas nas águas do rio Rhone, dizendo: — "Agora vamos ver se eles ressuscitarão dos mortos, e se seu Deus tem poder suficiente para salvá-los de nossas mãos!"

As Perseguições Sob Sétimo Severo e Maximiano.

É dito que Sétimo Severo (192-211) foi o primeiro a se dispor favoravelmente aos Cristãos, porque foi curado de uma doença crônica pelas orações de um certo escravo Cristão chamado Proculus; mas em 202 ele subitamente mudou de idéia e emitiu um decreto proibindo a confissão do Cristianismo sob pena de morte. Essa perseguição, no entanto, não se tornou geral, e suas vítimas foram poucas e distantes umas das outras. No Egito São Leônidas foi decapitado, depois de receber, enquanto na prisão, uma notável carta de seu filho de quinze anos, que veio a ser mais tarde o famoso Origenes, exortando-o a não enfraquecer em face do martírio. Uma jovem, Potamiaena, com sua mãe Marcela, foram jogadas em breu fervente; e tão grande foi sua sorte que seu executor, Basilides, foi movido a confessar Cristo e a seguiu no martírio. Perpetua, uma nobre matrona de Cártago, foi exposta a um touro ferido enfurecido com seu bebê nos braços, enquanto seu pai já velho inutilmente suplicava pela pouca idade de sua filha e seu bebê. O Cristianismo foi novamente perseguido por Maximiano (235-238) que sucedeu ao trono assassinando Alexandre Severo. Este último tinha sido bem disposto para com o Cristianismo, e tinha colocado um busto de Cristo em sua capela, ao lado de suas estátuas de Apolônio e Orfeu; e foi por que o eclético Alexandre Severo havia cultivado relações com os Bispos Cristãos, que Maximiano descarregou seu ódio mais particularmente sobre eles.

A Perseguição Deciana.

Até então, todas perseguições tinham sido mais ou menos locais, dependendo principalmente da disposição dos governadores provinciais, dos quais os mais fanáticos forçavam estritamente os decretos imperiais, enquanto os mais tolerantes procuravam meios de escapar dos decretos. Mas no reinado de Décio (249-251), as perseguições tornaram-se não só generalizadas mas também severamente sistemáticas. Daí em diante, um limite de tempo foi imposto para todos os Cristãos em todos os lugares, para que eles se apresentassem diante das autoridades, fizessem sacrifícios para os deuses pagãos, e assim obtivessem um certificado de retratação. Muitos Cristãos, cedendo à torturas, eram forçados a sacrificar aos ídolos contara sua consciência; outros manobravam para comprar seus certificados, para grande tristeza da Igreja, que considerava tais expedientes como equivalentes a apostasia. Mas muitos outros, como Alexandre, Bispo de Jerusalém, Babilas de Antióquia e Fabiano de Roma, preferiram o martírio à hipocrisia; e, de fato, o exército daqueles que confessaram sua fé superou de muito o de pobres-de-espírito e apóstatas. A "odiosa superstição," à qual Décio, um verdadeiro ainda que desorientado patriota, atribuia a decadência do Império Romano, provou ser ela mais forte que a fraqueza humana.

A Perseguição Sob Valeriano.

De 257 para frente, Valeriano (253-260) por sua vez, renovou a política anti-Cristã de Décio. Ele tentou, exilando seus Bispos, tornar as comunidades Cristãs sem liderança, e assim mais facilmente dissolível. Mas os Bispos, dos seus exílios distantes, não só se comunicavam por cartas com seus rebanhos e os dirigiam com se estivessem presentes, mas também espalharam o Evangelho nos lugares onde estavam exilados. O martírio de Cipriano, Bispo de Cartago, e o de Sixto de Roma, tiveram lugar no reinado de Valeriano; em Roma também, o diácono Lourenço foi assado de acordo com a tradição, numa grelha levada a vermelho de quente, porque quando o governador exigiu a entrega do tesouro da Igreja, ele apontava para as viúvas e orfãos, dizendo: "tomem conta do tesouro da Igreja."

A Perseguição Sob Deoclecian.

O último e mais forte golpe contra o Cristianismo foi dado por Deocleciano (284-305). Submetendo-se de um lado a insistência de seu fanático genro Galerius e de certos filósofos neo-platônicos, que imaginavam que deveriam ainda sustentar os vacilantes deuses do paganismo, o Imperador ainda esperava restaurar a uniformidade da religião para juntar os fragmentos do seu império em fase de desintegração. Em A.D. 303 ele publicou em Nicéia seu primeiro édito contra o Cristianismo, que foi seguido imediatamente por outros três. As Igrejas Cristãs que haviam sido construidas durante os anos prévios de paz, foram aprazadas até o chão; as Sagradas Escrituras eram queimadas, e bispos e padres condenados à morte. Cristãos que mantinham cargos públicos foram expelidos de seus postos. As prisões gemiam com os prisioneiros e o sangue dos mártires fluía como um rio. Mas essa grande prova finalmente passou sem conseguir obstruir o progresso do Evangelho, pois nessa época o Cristianismo mantinha controle sobre pelo menos um décimo dos assuntos do Império Romano, e contava em seu número com pessoas eminentes como a própria mulher de Deocleciano, Prisca e sua filha, Valéria. Em 305, Deocleciano tornou-se insano e abdicou. Em 311, Galerius foi tomado por uma doença fatal,e, atribuindo isso ao seu injusto tratamento para com os Cristãos, emitiu um édito de tolerância, assinado juntamente com seus colegas Constantino e Licínio, inclusive convidando os Cristãos a rezar por ele. O Cristianismo estava triunfante.

 

3. O Triunfo do Cristianismo sobre o Paganismo.

Constantino o Grande.

A perseguição dos Cristãos não foi levada inenterruptamente do começo ao fim. Existiram intervalos pacíficos que capacitaram as vítimas a se reorganizarem e aumentarem seus números; pois certos imperadores, apoderados, como Heliogabalus (218-222), por uma vida de luxúria, ou que manifestavam, como Alexandre Severo (222-235), uma filosofia eclética, ou em simpatia com o Cristianismo, como Philipe o Árabe (244-249), deixaram os Cristãos não incomodados. Mas a perseguição foi posta a fim por Constantino o Grande, que foi destinado pela Providência a entronar o Cristianismo como religião oficial do estado, e a quem pelos grandes serviços prestados ao Cristianismo nossa Igreja ainda comemora-o como um "Isapóstolo," isso é, igual aos Apóstolos.

A Visão da Cruz.

Constantino erao filho de Constâncio Cloro, César sobre a Gália, Britânia e Espanha, a quem ele, Constantino, sucedeu em A.D. 306. Afortunado por ter um pai eclético, e uma mãe Cristã devota, Helena, ele seguiu de perto a ineficaz luta do paganismo expirante contra o Cristianismo, e não demorou em constatar que a religião do futuro seria essa nova fé, que parecia a ele ter um caráter sobrenatural. Ele foi ainda mais reforçado nessa fé por um episódio que teve lugar em A.D. 312, enquanto ele estava marchando para Roma numa campanha contra seu colega Maxentius, Augusto do ocidente. Cerca do meio-dia, ele viu o sinal da cruz misteriosamente traçado no céu com as palavras "com esse sinal vencerás" e quando ele estava dormindo nessa noite, Cristo apareceu e exortou-o a usar esse símbolo como seu estandarte imperial. Ele fez como lhe foi comandado e sua vitória subsequente sobre o pagão Maxentius foi a vitória da verdade Cristã sobre o erro pagão.

Constantino como Campeão do Cristianismo.

Assim Constantino tornou-se o único mandatario do ocidente e em conjunto com seu colega no oriente Licinius, editou um ato de tolerância em Milão, que foi projetado para favorecer a propagação do Evangelho de maneira sem precedente. Em 323 ele rompeu também com Licinius, e depois de derrotá-lo e ser proclamado único mandatário, logo procedeu a manifestar seu interesse no Cristianismo por medidas mais vigorosas. Ele restituiu as comunidades Cristãs, propriedades que lhes haviam sido confiscadas pelas autoridades civis e conferiu a elas o direito de receberem doações e legados. Introduziu no exército, pela primeira vez, uma forma de oração monoteista; supriu as igrejas com cópias das Sagradas Escrituras, apontou os domingos como feriado, e proibiu a crucificação como método de execução para criminosos. Ajudou sua piedosa mãe a encontrar a verdadeira cruz no Gólgota e a construir o Santo Sepulcro, e quando, em A.D. 330, ele construiu Constantinopla, no lugar da antiga Bizâncio no mar Bósforo, e adornou com igrejas e outros monumentos admiráveis, a chamou de "Nova Roma," para marcá-la como ponto-de-partida dessa nova vida, e para cortar para sempre as abominações da antiga Roma. Mas Constantino era esperto suficiente para evitar fazer mudanças súbitas que poderiam levantar ressentimentos e embaraçar seu trabalho de reforma; assim ele instigou não haver perseguições aos pagãos, e reteve o título de "Pontífice Máximo" como um inseparável adjunto a seu status imperial. Sua vida privada, igual aquela de todos os monarcas que viveram em um ambiente suspeito, não esteve livre de feias manchas; antes de ser batizado, Constantino foi responsável pela morte de sua mulher Fausta e de seu filho Crispus. Mas o arrependimento sincero com o qual ele recebeu o batismo no fim de sua vida, purificou sua alma de culpa, e muito lhe será perdoado pelo grande amor que dedicou a Igreja de Cristo. Davi, também era um pecador; no entanto ele mantém seu merecido lugar na galeria dos Santos em virtude do seu arrependimento, que lavou seu pecado dobrado, e levou para a posteridade seu grande trabalho para o Senhor puro e imaculado.

Os Filhos de Constantino o Grande.

Constantino o Grande morreu em A.D. 337, deixando três filhos, Constantino II, Constâncius e Constans, que, infelizmente, não seguiram a política prudente de seu pai. Ao invés de deixar o paganismo, que estava decaindo dia a dia, expirar por conta própria, como Constantino havia feito, fizeram uso da violência. Fecharam templos pagãos à força, e exigiram das pessoas da corte uma profissão de fé no Cristianismo, que só serviu para tornar muitas das pessoas da corte hipócritas. Essa política encontrou seu próprio fim, pois levantou o fanatismo dos pagãos perseguidos, e conduziu-os a se reunirem em maquinações secretas até que uma oportunidade adequada se apresentou para o surgimento público da feroz oposição. Essa oportunidade ocorreu na ascenção de Juliano para o trono imperial. Apesar de sobrinho de Constantino o Grande esse poeta sonhador era um amante dos deuses pagãos, para quem foi levado tanto pela sua natural disposição para a poesia como em razão dos muitos atos de violência e assassinatos cometidos contra sua família pelos filhos de Constantino o Grande.

Juliano o Apóstata.

Juliano imaginava que tivesse sido designado pelo destino a reviver a religião do paganismo, e essa crença era encobertamente cultivada pelos filósofos desses tempos. Primeiro ele pretendeu ser um Cristão, e até mesmo leu as escrituras em igreja. Mas em 361 Constâncius, que em consequência da morte de seus irmãos, estava sendo o único governante desde 353, morreu subitamente; e Juliano, ascendendo ao trono pela aclamação de seus soldados que o adoravam em vista de suas virtudes militares, mostrou-se em suas verdadeiras cores como alguém que odiava violentamente o Cristianismo. Ele proibiu o atendimento de Cristãos nas escolas gregas ironicamente delegando-os aos Galileus, Mateus e Lucas. Intimou Bispos turbulentos a voltar do exílio para fomentar disputas e perturbações nas comunidades Cristãs. Impos taxas ao clero, e aboliu o direito da Igreja de receber doações. Enviou construtores para Jerusalem para reconstruirem o templo judeu, que tinha sido destruido no reinado de Titus (A.D.70), para desmentir a profecia do Senhor a respeito de sua destruição. Tentou reviver os oráculos que por muitos anos tinham permanecido em silêncio; presidiu cerimônias públicas pagãs sacrificando ele mesmo frequentemente elaboradas hecatombes. Ele introduziu no paganismo canto-coral, a pregação de sermões e recolhimento de dinheiro e bens para os pobres, todos esses itens emprestados do Cristianismo. Mas todos os seus esforços foram em vão, e após um reinado de vinte meses somente o Apóstata e Transgressor — assim a história estigmatizou — morreu de um ferimento no fígado que recebeu em batalha contra os persas. É dito que ele quando estava deitado morrendo, encheu sua mão com sangue de seu ferimento, e, jogando as gotas de sangue no ar como se Cristo estivesse diante dele, clamou com sua voz moribunda: "Tu conquistaste, Galileu!"

Os Sucessores de Juliano Abolem o Paganismo.

Os Imperadores que sucederam Juliano continuaram a política de Constantino o Grande, mas com o progressivo aumento da severidade contra o paganismo. Foi durante o reinado de Valentiniano I (A.D. 375), que a idolatria foi primeiramente caracterizada como "paganismus," isto é, a religião das aldeias, e desde então foi praticamente erradicada dos grandes centros.Graciano (A.D.383), considerou que havia chegado o tempo de despir a si próprio do título de Grande Alto Sacerdote, que Constantino o Grande havia retido, como tem sido dito, para não ofender as suscetibilidades da maioria de seus súditos; também foi Graciano, que ordenou a remoção do altar da Vitória que permanecia desde os velhos tempos no Senado Romano. No reinado de Teodósio I o Grande (A.D.395), a colossal estátua de Serapis em Alexandria foi derrubada e queimada, para o espanto dos seus adoradores que esperavam que a destruição da estátua fosse a precursora do fim do mundo; e ao mesmo tempo foram promulgadas leis que proibiam severamente a idolatria, o que forneceu a desculpa para Cristãos desorientiados, para bater com paus e machados em ídolos e idólatras. Sob Theodosius II (A.D. 450), certos Cristãos fanáticos em Alexandria, atacaram a filósofa Neoplatônica Hypatia, que era renomada por sua sabedoria, beleza e virtude, e a mataram, desfigurando assim, com mancha indelével as páginas da história Cristã, pois Hypatia era reverenciada até mesmo pelos Bispos Cristãos. A lista de violências contra o paganismo deve ser também acrescentada a supressão da Escola Filosófica de Atenas, sob Justiniano em A.D. 529. Esse era o último refúgio do paganismo e era frequentado até mesmo por grandes padres da Igreja, que reconheciam seu valor escolástico.

Cristianismo na Armênia e Ibéria.

Enquanto o cristianismo estava se espalhando dentro do Império Romano, viu ao mesmo tempo novos campos para conquista fora do Império; — na Ásia entre os Armênios, Iberos, Persas, Arabes e Hindus; na África entre os Abissínios e na Europa reconstruida entre tribos que tinham justamente aparecido pela primeira vez. Os Armênios receberam o Cristianismo principalmente de Gregório, que floresceu no século quatro e foi justamente chamado de o "Iluminador." Gregório, fugindo da ira do Rei Tiridates, que havia trucidado todo o seu lar, refugiou-se em Cesaréia na Capadócia, aonde ele foi levado para a fé Cristã. Retornando a sua terra natal, pregou Jesus com tal fervor que até mesmo o selvagem Tiridates se batizou com toda sua corte, e arrastou todos seus súditos atrás de si para o Cristianismo.O trabalho do iluminador foi continuado por Narses, Sahak e especialmente por Mesrop, que inventou o alfabeto armênio em A.D. 400 e traduziu a Sagrada Escritura, dando assim um primeiro impulso para a criação de uma admirável literatura armênia. Os Iberos e ou Georgianos , vizinhos dos armênios, foram evangelizados no século quatro A.D. por uma devota escrava armênia, por nome Nonna, a quem os Iberos ainda homenageiam como um apóstolo. É dito que uma certa criança ficou doente, e de acordo com o costume local, os pais a carregaram de casa em casa, na esperança de encontrar alguem com capacidade de cura que pudesse curá-la. Quando chegaram a casa de Nonna, ela orou a Cristo e curou a criança. Essa história espalhou-se e chegou ao palácio, onde a rainha também estava doente; e Nonna, chamada para lá, curou a rainha também, ganhando assim o povo por seus dirigentes.

Cristianismo na Pérsia, Arábia e Abissínia.

Parece ter havido um considerável número de Cristãos na Pérsia durante o século quatro com o Bispo de Seleucia e Ctesiphon como seus cabeças; pois como poderiamos de outra maneira contar com os vastos números que sofreram martírio pela fé durante as perseguições instigadas pelos dois Reis, Shapoor e Bahram? Infelizmente, porém, o Cristianismo não sobreviveu na Pérsia. A religião nacional da Pérsia era o Zoroastrianismo que admite dois deuses e tenta explicar através deles todos os fenômenos, tanto do bem quanto do mal; e eles naturalmente odiavam qualquer outra religião que lhes proporcionasse uma explicação diferente. Eram, alem disso, engajados constantemente em guerras com os Bizantinos, o que por um lado dava-lhes outra razão ainda para perseguir a religião dos seus inimigos mortais, e por outro lado fazia-os receberem de braços abertos vários heréticos Cristãos, que fossem adversários da religião oficial do Império Bizantino. Na Arábia também, o Cristianismo fez uma rápida aparição. Durante o período dos filhos de Constantino, o Grande era o Cristianismo pregado lá por monges e eremitas, mas foi finalmente extinto no século sete pelo advento do Mohamedismo, do qual trataremos mas completamente mais adiante. Cerca do ano 535, Cosmas Indicopleustes encontrou Cristãos na Índia que chamavam a si próprios de "Cristãos de Tomé," pleiteando terem primeiro recebido o Evangelho de tal Apóstolo. Na Abissínia, o Evangelho foi pregado pelo nobre Frumentius, que caiu na mão dos dos abissínios em A.D. 327. Depois, foi para Alexandria, onde foi ordenado Bispo por Atanásio o Grande, e retornou para continuar seu trabalho missionário na Abssínia.

Cristianismo e os Novos Povos do Ocidente.

No século quarto o Ocidente foi invadido por povos bárbaros do norte, conhecidos pelo termo comum de "germanos', cujas incursões devastaram a Europa. Os Ostrogoros foram os primeiros dentre eles a abraçar o Cristianismo graças, principalmente, aos esforços de Ulfilas o Capadócio (A.D. 388), que foi Bispo deles durante quarenta anos, durante os quais inventou o alfabeto gótico e traduziu as Escrituras. Dos ostrogoros o Cristianismo se espalhou para Visigôdos, que saquearam Roma em 410; para os vândalos, que em 439 estabeleceram um grande império no norte da África; e para os Lombardos que afloraram na Itália no século sexto; e para muitas outras tribos. Mas todas essas tribos receberam o Cristianismo na forma de Arianismo. Só os francos que se tornaram Cristãos em 496 sob Clóvis e sua mulher Cristã Clotilda, receberam a fé ortodoxa; e pouco a pouco, através da influência dos francos, as outras tribos abjuraram o erro ariano. Os Irlandeses, cuja religião era de natureza druídica, foram ganhos para o Cristianismo por São Patrick (A.D. 493), que ao morrer deixou uma grande quantidade de Igrejas e discípulos para continuar sua obra. Dois de seus discípulos, Columba e Columbanus, pregaram o Evangelho para os escoceses e para os suiços respectivamente. Uma grande progressão para o espalhamento do Cristianismo no Ocidente foi feito pelo Papa Gregório o Grande, que fez do monasticismo um orgão missionário, e em 597 mandou o monge Agostinho com seus quarenta companheiros para a Inglaterra, para evangelizar os anglo-saxões. Gregório o Grande é a mais vivida encarnação do Papado — daquele papado que levou ao zenith de sua glória por explorar toda anomalia política, e baseada na corrupção da Idade Média, somente para surgir novamente depois como um sistema mais compacto, despótico e militante do que antes.

 

 

4. Os Perigos da Heresia.

 

A Atitude da Igreja com os Heréticos.

Assim como a vida da Igreja de Cristo foi ameaçada de fora por fogo e espada, também foi ameaçada por dentro pelas heresias. A palavra "heresia" significa "escolha"; assim, os heréticos, não satisfeitos com a plena e impoluta verdade dos Evangelhos e desejando combinar a ideologia Cristã com outras estranhas a ela, escolheram aqui e ali o que lhes agradava e assim compuseram uma miscelânia de idéias conflitantes, com as quais subsistuiram a fé pura. A Igreja, como depositária da verdadeira fé Cristã apostólica, tomou nota desses erros; e reunindo seus representantes canônicos para concílios locais ou gerais, examinou escrupulosamente os assuntos em questão com base nas Sagradas Escrituras e na tradição apostólica, e declarou qual era a verdadeira fé e quais eram as heresias distorcidas. Devido ao fato de que muitos heréticos forjaram assim chamados "documentos sagrados" para suporte de seus erros e os incluiram na Sagrada Escritura, enquanto outros se referiram a tradições de sua própria invenção, a Igreja foi logo obrigada a acertar e definir o Canon das Sagradas Escrituras e a verdadeira tradição apostólica, que não eram transientes ou sectários, mas tem sido preservados "sempre, em todo lugar, por todos" que acreditam em Cristo. A igreja colheu outros benefícios, advindos de seus conflitos com as heresias, sendo forçada de um lado a melhorar seu sistema de governo de modo a conter mais efetivamente os heréticos; e do outro lado a aperfeiçoar sua pregação de sermões e sua salmodia, de modo a popularizar suas doutrinas ortodoxas, como os heréticos haviam feito para disseminar seus falsos ensinamentos.

Judeus Heréticos: Ebionitas, Nazarenos, Elkesaitas.

As primeiras heresias contra as quais a Igreja teve que lutar eram Judaicas como era natural pois o Cristianismo primeiro se espalhou em solo Judeu, e alguns dos prosélitos Judeus acharam difícil renunciar a seus velhos modos de pensar. Existiram três seitas principais de Judeus heréticos. Primeiramente os Ebonitas que insistiram no rito Judeu da circuncisão assim como contra o batismo Cristão, e rejeitaram toda Santa Escritura exceto o Pentateuco do Velho Testamento e o Evagelho de São Mateus no Novo, mas esse mesmo sendo mutilado para ser adptado ao gosto deles. Eles colocaram Cristo quase no nível de Moisés; e eram chamados Ebionitas — isto é, pobres, — porque tinham somente um pobre e baixo conceito de Jesus Cristo. Em segundo lugar, os Nazarenos, cujo credo era um pouco mais elevado que o dos Ebionitas; pois eles aceitavam a Biblia em sua totalidade, e ensinavam que Cristo havia nascido sobrenaturalmente, e era portanto maior do que os profetas, mas instiam na circuncisão à qual atribuiam validade eterna. Eles eram conhecidos como Nazarenos porque eles se consideravam os verdadeiros e originais seguidores do Nazareno; pois no início todos os Cristãos eram chamados de Nazarenos. E em terceiro lugar, os Elkesaitas assim chamados por ser seu lider Elkesai, que de um lado misturou Judaismo com Cristianismo, honrando os comandos da Lei como se eles fossem dogmas eternos e rejeitando da Biblia todos os livros que não combinassem com sua doutrina; e de outro lado mergulhados nas artes ocultas, jactavam-se de suas próprias Escrituras Sagradas, que, eles alegavam ter sido comunicadas a eles exclusivamente por Deus.

Judeus Heréticos: Ceríntios.

Outra seita de Judeus Heréticos foi a dos Ceríntios, cujo lider foi Ceríntio, um contemporâneo dos Apóstolos. É dito que São João Evangelista encontrou uma vez Ceríntio num banho público, para o qual ele havia ido para se lavar e imediatamente apressou-se em sair, clamando: "Voemos para fora desse lugar, antes que esse banho se despedace; pois Ceríntio está ai, o inimigo da verdade." Como todos os Judeus Heréticos, Ceríntio denunciou São Paulo como um inimigo da circuncisão, e rejeitou suas Epístolas. Seu ensinamento sobre o Salvador era curioso; pois ele afirmava que originalmente Jesus era um mero homem, o filho de José e Maria, mas quando ele foi batizado no Jordão, Cristo desceu sobre ele na forma de pomba e deu ao homem Jesus o poder de realizar of milagres de seu ministério público. Na Crucificação, Cristo e Jesus foram separados; Cristo ascendeu de novo ao Ceu, enquanto Jesus, abandonado à sua fragilidade humana, sofreu a morte na Cruz. Ceríntio é também tido por alguns como sendo o autor da heresia do Chiliasmo ou Milenarismo, uma falsa doutrina baseada num escrito do Salmista dizendo que mil anos à vista do Senhor não é mais do que um único dia. Dai ele (Ceríntio) deduziu que já que o mundo foi criado em seis dias, seguido pelo Sábado, ele então continuara a existir seis mil anos, após os quais vira um milênio de festa e delícias sensuais, que será a era Messiânica. Um tipo de milênio espiritual foi pregado por certos Padres Cristãos durante as perseguições, inspirados pela crença que Cristo regressaria logo, trazendo a salvação para eles. Mas a grande ilusão das imaginações fervilhou pelos sonhos materialísticos Judeus.

Gnósticos.

Enquanto as heresias Judaicas tentaram enxertar Cristianismo no Judaismo, os Gnósticos tentaram com uma estranha falta de julgamento e uma desenfreada imaginação, adulterar a Revelação divina com invenções na filosofia humana. As doutrinas desses heréticos, também, foram muitas e variadas, algumas delas (a dos Alexandrinos) sendo influenciada pela filosofia platônica, enquanto outras (a dos Sírios), foram baseadas no dualismo persa; mas certas características foram comuns a todos os Gnósticos. Acreditavam serem os receptores privilegiados de uma revelação especial repentina, que chamaram de "gnosis," ou conhecimento, e por meio da qual eram capazes de resolver o problema da vida. Desde que o mais difícil problema de todos é a existência do mal, imaginaram ter resolvido esse problema atribuindo-o à matéria, na qual as almas recaidas do mundo da luz são mantidas, cativas. Mas porque Deus, como é descrito nos Evangelhos, é um Deus de bondade, e não é possível que uma matéria maligna proceda de um Deus bom, eles foram levados à suposição da existência de dois Deuses, — o Deus do Novo Testamento, Que comandou o reino da luz, e o Deus do Velho Testamento, que criou a matéria e seria o "Demiurgo, ou o criador do universo. De acordo com os Gnósticos, portanto, matéria e a carne devem ser abominadas como criação do Deus do mal; e muitos deles submetem seus corpos a inauditas privações e tormentos, enquanto outros, ao contrário, degradam seu corpo com toda forma de vício para mostrar seu desprêzo pela carne. Cristo, na opinião da maioria dos Gnósticos, foi simplesmente uma emanação divina — um espírito mandado no mundo da luz para libertar as almas que estavam gemendo nas amarras da carne. Mas se Cristo foi um espírito, e pertenceu inteiramente ao reino da luz (assim argumentam os Gnósticos), sua conexão com a matéria teria sido totalmente impossível e incongruente. Cristo, então, não assumiu formal carnal; Deus e o homem não se uniram na pessoa do Salvador, e a alegada encarnação foi só uma "aparência," uma ilusão, uma ficção da imaginação dos observadores.

Maniqueus

Outra heresia baseada no dualismo persa foi o Maniqueísmo, que foi iniciado no terceiro século pelo persa Mani. Ele também acreditava na existência dos princípios, incriados e eternos, guerreando perpetuamente um ao outro; Deus, Senhor do reino da luz, e Satan, Senhor do reino das trevas. Satan, tentado pelo reino da luz, uma vez tentou entrar nele, e por isso Deus trouxe o homem pela Mãe da Vida e enviou-o a lutar contra os poderes das trevas. Mas os poderes das trevas, em sua luta com o homem, atacaram sua alma, e teriam destruido completamente o homem, se Deus não tivesse se apressado em resgatá-lo revestindo Cristo que habitava no sol, com um corpo imaginário e enviando-o para baixo, para a terra, onde por Seus ensinamentos conseguiu a redenção do homem. Mas, infelizmente, de acordo com os Maniqueus, os Galileus (isto é, os Apóstolos), interpretaram mal o ensinamento de Cristo, Que então mandou Mani, maior que os Apóstolos (pois ele era o confortador predito por Cristo), para desembaraçar a verdade do erro. Assim os Maniqueus rejeitaram todos os livros canônicos do Novo Testamento, substituindo-os por evangelhos e epístolas de sua própria invenção. Consideraram Mani e seus sucessores como representantes de Cristo, e apontaram dentre eles 12 professores e 72 bispos correspondentes aos 12 Apóstolos e 72 Discípulos do Senhor. Além disso, se dividiram em duas classes — os Ouvintes ou círculo externo, e os Iniciados ou círculo interno. Sobre esses últimos era imposta não só estrito celibato, mas também abstenção de comida de origem animal, e respeito escrupuloso pela vida de insetos e flores.

Antitrinitários.

Entre os heréticos que apareceram nos primeiros séculos do Cristianismo devem ser considerados os Antitrinitários dos segundo e terceiro séculos, que tentaram elucidar a sobrenatural doutrina da Santíssima Trindade por meio de raciocínio humano. O problema que eles colocaram para si próprios era tentar conciliar a doutrina da Trindade com o Monoteísmo Cristão. Alguns, como Teodotus o Curtidor e Paulo de Samosata, atribuiram divindade somente para o Pai, e delegaram o filho para o status de profeta, grandioso em verdade e único, mas um simples mortal que havia recebido inspiração e iluminação do alto. Outros, como Noetus de Esmirna e Sabelius, o Líbio, reconheceram uma única pessoa divina que se manifestava em diferentes formas de acordo com as diferentes necessidades do mundo, adotando durante a Criação a figura do Pai, na Redenção a do Filho, e durante a sua direção da Igreja, a figura do Espírito Santo. Essas opiniões individuais, que não tiveram nada em comum com a fé Cristã, foram condenadas esporadicamente pelos primeiros Padres, até que discussões mais violentas sobre a pessoa do Salvador impeliram a Igreja a interpretar claramente seu ensinamento em sucessivos Concílios Ecumênicos.

5. Os Primeiros Seis Concílios Ecumênicos.

Arianismo.

No início do século quarto, um certo presbítero de Alexandria, por nome Arius, um homem de estrita moralidade, mas mais ligado ao aprendizado profano que à verdade dos Evangelhos, pregou que Cristo foi criado por Deus como na ferramenta com a qual Ele poderia criar o universo; que Ele foi a primeira de todas as coisas criadas mas não havia existido eternamente; que houve um tempo em que Ele não era, e Ele então era inferior a Deus o Pai. Essas teorias platônicas chegaram ao conhecimento de seu Bispo, Alexandre, que reuniu um Sínodo local em Alexandria em A.D. 321, e condenou essas teorias como contrarias aos Evangelhos. Mas Arius, que acreditava que somente sua teoria sendo adotada, seria possível preservar o monoteismo o Cristianismo, não só continuou a manter suas opiniões pessoais, mas — por meio de hinos e outros métodos de popularização — disseminou suas idéias num círculo sempre crescente. Outros homens de igreja se juntaram a ele, e como a unidade da Igreja estava em perigo, para acalmar a mente dos homens e restaurar a paz entre eles, Constantino o Grande convocou em A.D. 325 em Nicéia, um grande Sínodo que teve a participação de representantes de todas as partes do mundo, e foi dessa maneira conhecido como Sínodo (ou Concílio) Ecumênico, ou Universal.

O Primeiro Sínodo Ecumênico.

Estiveram presentes nesse Sínodo muitos homens destacados, alguns famosos por seu conhecimento e virtude, alguns por sua vida ascética, e outros pelas marcas dos martírios que as perseguições deoclecianas haviam lhes infringido. Mas sob preparo teológico foram todos superados por Atanásio, o Grande, que era ainda somente um diácono do Bispo de Alexandria. Na base das Escrituras e Tradições Sagradas, ele demonstrou que o Filho de Deus, longe de ter sido criado pelo Pai, havia nascido Dele, de sua própria substância, antes de todos os tempos, e que consequentemente o Filho não difere em Sua natureza do Pai, mas forma com Ele uma única divindade. Praticamente todos os presentes aprovaram a tese de Atanásio, e a seguinte fórmula foi inserida no Credo: "Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho único de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos; Luz da Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro; gerado não criado, coessencial ao Pai; por Quem todas as coisas foram feitas." Esse Credo foi assinado por todos os Padres presentes, mais de trezentos em número, e foi determinado como a exata expressão da doutrina da Igreja sobre seu divino Fundador. Arius e dois de seus apoiadores que se recusaram a assinar o Credo foram mandados para o exílio.

O Segundo Sínodo da Igreja.

Infelizmente essa condenação oficial não impediu o Arianismo de continuar a perturbar a paz da Igreja. Depois de curto período, Arius conseguiu com o auxílio de poderosos amigos na côrte, obter sua chamada de volta do exílio, e até mesmo tramou o banimento de Atanásio, o líder do partido Ortodoxo, que tinha sido feito Bispo de Alexandria com a morte de Alexandre. Arius, a causa de toda perturbação, morreu em A.D. 336. Um novo partido foi então formado, cujos membros chamaram a si próprios de "Semi-Arianos" e procuraram reconciliar Arianos e Ortodoxos substituindo no Credo a palavra "homoousios"(isto é, de essência similar) pela palavra "homoiousios" (isto é, mesma essência ou coessencial). Mas outro partido levantou-se em oposição a esses mediadores, mantendo que Cristo, tendo nascido do Pai, não é nem "homoousios" nem "homoiousios," mas "anomoios," ou "diferente." Assim a Igreja esteve mais e mais partida por dissensões devidas parcialmente à teimosia de certos Bispos que desconsideraram suas assinaturas no Credo de Nicéia, mas particularmente devido à forte interferência da côrte imperial em disputas teológicas, pelos tirânicos imperadores Constantius (353-361) e Valens (364-378), que apoiaram os Arianos perseguindo o partido Ortodoxo impiedosamente. No final, no entanto, o Credo como feito em Nicéia durante o Sínodo, emergiu triunfante como e única doutrina que incorporava o espírito do Evangelho, e selado pela aprovação dos mais eminentes Padres da época, inclusos os três famosos Capadócios, Basílio o Grande, Gregório de Nyssa e Gregório de Nazianzo. Quando, portanto, o imperador Ortodoxo, Teodosius o Grande, ascendeu ao trono, imediatamente convocou um segundo Sínodo Ecumênico que se reuniu em Constantinopla em A.D. 381, e, confirmando as decisões do primeiro Sínodo Ortodoxo, pronunciou-as como sendo a visão Ortodoxa da Igreja Universal. Daí em diante, o Arianismo desapareceu, apesar de ter encontrado um refúgio temporário com os Gôdos, com já vimos, e com aas tribos bárbaras. O segundo Sínodo Ecumênico condenou também Macedônio, que ensinava que o Espírito Santo havia sido criado pelo Filho, do mesmo modo que, de acordo com os Arianos, o Filho havia sido criado pelo Pai. Foi, portanto, formalmente estabelecido no Credo que o Espírito Santo "procede do Pai e com o Pai e o Filho recebe a mesma adoração e a mesma glória," partilhando da mesma divina essência e natureza.

O Terceiro Sínodo Ecumênico.

O segundo Sínodo Ecumênico afirmou não só a perfeita divindade de Cristo, mas também Sua perfeita humanidade, condenando a heresia do Apolinarianismo, que começou a se espalhar em A.D. 362. Essa heresia consistia na negação de uma alma "racional" no Logos encarnado, assegurando que o Deus-Homem tomou só a alma irracional e corpo material, tendo sua divindade em lugar da alma racional. Os Padres, protestaram contra isso, mantendo que o Logos encarnado, se não tivesse assumido completa humanidade, com sua alma racional, teria deixado sem cura nossa parte mais nobre; "Pois o que Ele não assumiu, Ele não curou." Esses foram os argumentos que os Padres no segundo Sínodo opuseram ao Apolinarianismo; mas eles não tinham ainda definido e cristalizado a idéia da maneira pela qual a completa divindade e a completa humanidade de Cristo foram unidas em Sua pessoa. Alguns mantinham que a relação fora extremamente próxima; outros que fora extremamente despreendida. Nestorius, o Arceobispo de Constantinopla, era dessa última opinião, e imaginou uma distinção tão aguda entre as duas naturezas em Cristo, que chegou eventualmente a reconhecer duas pessoas Nele, mantendo que Cristo, o Filho de Maria, era um, e Cristo, o Filho de Deus era outro; assim Maria deveria corretamente (na opinião de Nestorius) ser chamada de "Cristotokos" (isto é, Mãe de Cristo) e não "Teotokos" (isto é, Mãe de Deus). Para combater essa heresia, Theodosius II convocou para Êfeso em A.D. 431 o terceiro Sínodo Ecumênico, que afirmou que a Igreja confessa um Cristo, um Filho, um Senhor, que é ao mesmo tempo tanto Deus quanto Homem, que nasceu do Pai antes de todos os tempos, e encarnou na Virgem Maria no tempo determinado. Em seu orgulho Nestorius recusou-se a ceder à decisão unânime da Igreja, e preferiu se retirar em exílio, onde morreu em A.D. 440. Sorte similar aconteceu com seus apoiadores; perseguidos pelos ortodoxos, se refugiaram como os persas, que os receberam de braços abertos, com um gesto hostil para com o Império Bizantino.

O Quarto Sínodo Ecumênico.

Nestorius havia considerado as duas naturezas de Cristo tão distintas que ele considerou nelas duas pessoas separadas, unidas somente por uma ligação moral como é a criada, por exemplo, entre o homem e esposa, pelo casamento. No outro extremo, Eutychius e Dioscorus mantiveram que a união era tão próxima, que eles ensinavam que, depois da encarnação do Filho e Logos, não duas mas somente uma única natureza deveria ser mencionada; isto é, a divina, que teria ou absorvido em si a natureza humana, ou havia misturado e se fundido com ela. Foi para condenar este outro extremo de opinião, conhecido como Monofisismo, que o Quarto Sínodo Ecumênico reuniu-se em Calcedônia em A.D. 451, no reino da Imperatriz Pulcheria. Esse Sínodo emitiu um decreto que tanto reafirmou os pronunciamentos do Terceiro Sínodo, que o Senhor é um e o mesmo, perfeito em divindade, assim como em humanidade, e que duas naturezas existiram no Deus-Homem, como também estabeleceu que essas duas naturezas estiveram unidas na única pessoa do Logos, não só "sem distinção e sem separação," mas também "sem confusão nem mudança," uma natureza não sofrendo nem aniquilamento nem alteração pela outra.

O Quinto Sínodo Ecumênico.

As decisões do Sínodo de Calcedônia, não foram no entanto, aceitas universalmente. Os Armênios, considerando que o Decreto de Calcedônia versava sobre Nestorianismo, rejeitou-o em um Sínodo local que se reuniu em Etchmiadzin em 491. Os Coptas do Egito, seus vizinhos os Abissínios, e da mesma forma os Sírio-Jacobitas preferiram romper com a Igreja Católica e fundar comunidades cismáticas Monofisitas a admitir duas naturezas separadas em Cristo, — um doutrina que eles consideravam que chegaria a cortar em duas a pessoa do Deus-Homem e retornaram aos ensinamentos de Nestorius. De modo a enfatizar a diferença entre o reconhecimento de duas pessoas em Cristo, que era a opinião herética mantida por Nestorius, e o reconhecimento de duas naturezas em uma pessoa, que era o ensinamento Ortodoxo da Igreja Santa Católica Apostólica, o Imperador, Justiniano o Grande, seguindo o costume então estabelecido, convocou o Quinto Sínodo Ecumênico em Constantinopla em 553. Esse Sínodo condenou certos trabalhos de sabor Nestoriano, esperando com isso, conciliar os Monofisitas e persuadi-los a retornar à Igreja Católica.

O Sexto Sínodo Ecumênico.

Outro método foi seguido pelo Imperador Heraclius (611-641), que foi movido principalmente por considerações políticas e estava se empenhando por todos os meios em manter a ameaçada unidade de seu Império. Ele tentou reconciliar Monofisitas e Ortodoxos na base de "duas naturezas em Cristo, mas uma só atividade," ou, como depois segundo uma frase editada "duas naturezas em Cristo, mas uma só vontade." Essa solução de controversia, conhecida sob o nome de Monotelismo, não foi todavia aceita pelos teólogos Ortodoxos, que a pronunciaram como sendo contrária ao Evangelho e não parecia razoável. Se Cristo tinha duas naturezas, era inevitável que Ele tivesse também duas atividades — como Deus executando milagres, ressuscitando dos mortos, e subindo ao Céu; como homem, executando os atos comuns da vida diária. Similarmente, se Ele tinha duas naturezas, cada uma deveria ter sua vontade individual. Em 680, portanto, sob Constantino Pogonatus, o Sexto Sínodo Ecumênico se reuniu em Constantinopla. Seus membros condenaram o Monotelismo como heresia e definiram que como em Jesus Cristo existiram duas naturezas, não confundidas, não modificadas, inseparáveis e indivisíveis, assim também existiram Nele duas atividades naturais e duas vontades, que não disputaram uma com a outra, já que a humana subordinou-se para a poderosíssima vontade divina. Desse dia em diante somente uma pequena comunidade ainda adere ao Monotelismo: é a dos Maronitas do Líbano.

Pelagianismo e Agostianismo.

Controvérsias Cristológicas não foram os únicos assuntos tratados pelos Sínodos Ecumênicos citados até agora. Tocaram em outros assuntos, também, a respeito ou da fé ou da conduta e disciplina da Igreja. Digna de nota entre as questões de fé é o Pelagianismo, uma heresia que afetou mais o Ocidente, mas que foi condenada pelo Terceiro Sínodo Ecumênico em Éfeso, como inconsistente com os fatos existentes. Pelagius, um monge da Bretanha, que achou seu caminho para a África, negou o pecado original e manteve que a natureza humana tinha suficiente capacidade para o bem e para praticar virtudes por seus próprios poderes sem serem ajudados, atribuindo assim um papel secundário para a divina graça no trabalho da salvação, e a morte de Nosso Senhor na Cruz tinha tido um mero valor instrutivo como modelo de auto sacrifício para imitação pela humanidade. A falsa psicologia dessa doutrina foi exposta por Agostinho, Bispo de Hippo na África, o mais eminente professor da Igreja Ocidental, que levantou armas contra Pelágio, mas ele próprio foi longe demais para o outro extremo. Enquanto Pelágio ensinava que a alma humana era completamente livre da condição pecaminosa, Agostinho mantinha que era completamente corrupta, que o homem não contribuia em nada para sua própria salvação, e que a salvação era o trabalho de Deus sózinho, Que arbitrariamente predestinava um para a salvação, outro para a perdição. A Igreja rejeitou essa visão extremada, assim como tinha feito com a outra. O homem, espiritualmente não é nem totalmente são nem totalmente morto, ele é doente; e enquanto sua salvação é principalmente o produto da graça de Deus e da morte redentora do Salvador, sua vontade própria e esforço também operam de modo secundário.

 

6. Os Padres Mais Eminentes.

Os Padres Apostólicos.

O título de "Padres" é dado para aqueles homens notórios dos primeiros oito séculos da era Cristã que combinaram profundo aprendizado com uma vida santificada e perfeita pureza de fé, e que reforçaram outros na vida Cristã por suas palavras escritas ou faladas. Aqueles que tiveram todo tipo de conhecimento, mas cuja fé foi de certo modo imperfeita, são chamados de "professores," e não são intitulados com igual honra que a dos Padres, apesar deles terem contribuido com tudo que era humanamente possível. Os primeiros Padres foram os Padres Apostólicos, assim chamados porque eram os discípulos e companheiros de trabalho ou contemporâneos dos Apóstolos. Esses são Clemente Bispo de Roma (A.D.100) que trabalhou com o Apóstolo Paulo; Barnabas o Cipriota, que também pregou o Evangelho com Paulo, e que, diz a tradição, que foi apedrejado até a morte pelos Judeus em Salamis, Chipre; Inácio de Antioquia, cuja morte por martírio sob Trajano em 115 já foi mencionada; Policarpo de Esmirna, cujo martírio sob Marco Aurélio em 166 também foi mencionado; e mais dois ou três outros. Memórias escritas de todos esses homens sobreviveram, principalmente na forma de epístolas ocasionais para várias comunidades Cristãs. Elas formam um pequeno mas precioso volume; pois as obras dos Padres Apostólicos foram escritas imediatamente depois do Novo Testamento, e são inspiradas por um supremo amor e devoção ao Salvador.

Apologistas.

Os escritores que sucederam os Padres Apostólicos representam, como de fato foram, a adolescência da Literatura Cristã. Como sua característica comum fazem uma arrojada defesa da fé, daí serem chamados de Apologistas. Já mencionamos dois desses Apologistas: Quadratus, Bispo de Atenas, e o filósofo Ateniense, Aristides, pois ambos apresentaram ao Imperador Adriano, apologias ao Cristianismo por conta de sua perseguição injusta aos companheiros Cristãos. A eles devem ser acrescentados, o filósofo Justin que endereçou duas apologias a Marco Aurélio, sob quem foi martirizado em 166; o Ateniense, Atenágoras, que floresceu entre os anos 170-180, e endereçou uma "intercessão em nome dos Cristãos" aos Imperadores Marco Aurélio e Comodo; e Teófico de Antióquia (182), que submeteu uma exposição da fé Cristã para seu amigo pagão Autolycus. Todos os três apresentaram um sincero e detalhado relato das crenças dos Cristãos e do seu modo de vida, dando uma basta à falsas e infundadas acusações dos inimigos dos Cristãos, que eles se reuniam a noite para satisfazer-se em orgias e matar e comer crianças recém-nascidas. Justin especialmente foi um excelente apologista, e defendeu o Cristianismo não só contra os pagãos, mas também, em outro trabalho intitulado "Diálogo com Trifo," contra os Judeus. Sua vida foi uma incansável luta pela verdade; um após o outro, ele passou através de todos os sistemas de filosofia, e sentou com todos os homens ilustrados de sua época, sem encontrar satisfação para sua ânsia espiritual, até que finalmente encontrou paz no Cristianismo. Até o final de seus dias continuou a usar o manto de filósofo, convencido de que o Cristianismo era a única filosofia de vida infalível.

Representantes das Escolas da Ásia Menor e África.

Como uma árvore, cujos galhos se multiplicam e extendem seus ramos, o aprendizado Cristão teve muito pouco começo, mas agora começava a se alargar em várias Escolas, ou métodos de estudo e interpretação. Eram Escolas da Ásia Menor, da África, de Alexandria e de Antióquia. A principal característica da Escola da Ásia Menor era a devoção a uma primitiva e incorrupta ortodoxia da fé; a da Escola da África, a austera e prática natureza de seu código moral; a de Alexandria, um espírito especulativo, filosófico e alegórico; e a de Antióquia, a sóbria e literal interpretação da Santa Escritura. Um exemplo da Escola da Ásia menor é Irineu (A.D. 202), que, nascido na Ásia Menor, onde estudou com São Policarpo, mais tarde foi para a atual França e tornou-se Bispo de Lyons, onde foi martirizado. Seu trabalho mais importante é contra as heresias, no qual, como um fiel guardião da verdade, defende as doutrinas ortodoxas contra toda corrupção, e denuncia aqueles que divergem dela. Como representantes da Escola Africana, Tertuliano (A.D.220), um presbítero de Cartago, e Cipriano (A.D. 258), Bispo de Cartago, devem ser mencionados. O primeiro, que inventou a linguagem do Latim eclesiástico e sempre falou com desprêzo do aprendizado secular, foi o mais severo advogado da moralidade austera e foi desviado para o Montanismo por seu excessivo ascetismo. Cipriano, um tipo perfeito de pastor Cristão, foi inflexível em sua hostilidade para com aqueles que tinham traido a fé em tempo de perseguição, e foi decapitado por seus princípios sob Valeriano. Ambos nos deixaram ensaios, dogmáticos, éticos, interpretativos, ou ocasionais, nos quais sua maneira austera de viver é espelhada.

Representantes da Escola Alexandrina

A Escola Alexandrina foi fundada por Pantaenus e continuada por Clemente de Alexandria e Origenes. De acordo com essa Escola, o Cristianismo é a mais elevada forma de conhecimento, e o perfeito Cristão é o "gnóstico," isto é, aquele que não só crê, mas tem também o conhecimento e compreensão de sua fé. Esse ideal Clemente colocou diante de si mesmo em sua trilogia, Adress to the Greeks, The Tutor, e as Miscellanies, na qual ele gradualmente leva seu pupilo do paganismo para as alturas da perfeição Cristã. A vida de Clemente foi similar a de Justin; ele também, começou como um filósofo pagão, e mais tarde abraçou o Evangelho como a única filosofia satisfatória. Seus trabalhos são um tesouro da sabedoria grega; mas, mesmo grande como foi, ele foi ultrapassado em gênio, trabalho sistemático, e fertilidade por seu sucessor Origenes, que foi cognominado o Adamantino.

Orígenes.

Orígenes foi o filho de Leonidas o mártir, o qual, como já vimos, não temeu a morte por Cristo quando ainda era uma criança. Tem sido dito que ele escreveu mais livros do que um homem poderia ler durante sua vida inteira. Como um apologista, escreveu seu tratado Contra Celso, no qual refuta as vãs acusações desse formidável inimigo do Cristianismo. Como um escritor sobre dogmas, nos deixou seu trabalho sobre Os Princípios, o primeiro exemplo de dogmática Cristã. Como um comentador, compos longos comentários sobre quase todas as partes da Sagrada Escritura. Como crítico, trabalhou na Hexapla, na qual colocou em seis colunas paralelas o original e as traduções existentes até seus dias, de modo a determinar o texto original. Infelizmente, esse homem, cujo grande zêlo por Cristo levou-o até a Arábia para pregar o Evangelho, e que converteu Julia Mammaea, a mãe do Imperador Alexandre Severo, desviou-se em certos erros de opinião individual que fizeram com que gerações posteriores fossem hostis à sua memória. Mas apesar disso, a Origenes pertence a glória de ter lançado as bases de quase todos os ramos da Teologia, e de ter sido o mestre daqueles que vieram depois; pois muitos dos grandes Padres da Igreja foram educados por seus escritos. Sua morte foi consistente com sua vida, pois ele sucumbiu em A.D. 254 a ferimentos infrigidos a ele durante a perseguição deciana.

Atanásio.

À Escola Alexandrina também pertence Atanásio e os tres Capadócios; Basílio o Grande, Gregório de Nissa e Gregório Nazianzo, que nos trazem para a mais gloriosa época da Literatura da Igreja Grega. Foi a "Idade de Ouro," que produziu trabalhos espirituais de tal perfeição, eloquência, profundidade e originalidade, que não só eles existiram para permanecerem inultrapassáveis, mas existiram para servirem de padrão e modelos para a posteridaade. Atanásio (A.D.373), que era baixo de estatura mas poderoso em espírito, foi o mais destemido campeão da Ortodoxia, pela qual lutou por quarenta e cinco anos, e foi mandado dez vezes para o exílio. Existiram tempos em que ele pareceu estar abandonado por todos e lutando sozinho contra reis e pessoas; mas estava lutando pela verdade, e no final a verdade triunfou. No curso de sua problemática e espantosa vida, encontrou tempo tratados apropriados para seu tempo; para compor longas epístolas e apologias e para se devotar ao estudo das Sagradas Escrituras. Seus trabalhos são caracterizados por riqueza e profundidade de significados e por um severo método dialético; apesar de nem sempre serem polidos em estilo; pois atanásio estava constantemente em privações, e escreveu mais sobre seu joelho do que na quietude de um ambiente adequado.

Os Três Capadócios.

As batalhas enfrentadas pela Ortodoxia por Atanásio foram continuadas pelos três Capadócios. Basílio (A.D. 379), cuja mãe Emmelia, era uma mulher muito devotada, estudou filosofia em Atenas. Lá ele fez um amigo pelo resto da vida do seu colega-estudante. Gregório de Nazianzo, com quem se retirou, quando seus estudos filosóficos terminaram, para uma hermitage em Pontus, para estudar os trabalhos de Origenes, e para se preparar para uma carreira teológica. O aprendizado de Basílio e sua virtude logo o elevaram para o episcopado de Cesaréia, que durante longo periodo permaneceu sob seus cuidados pastorais. A ele é dado o crédito de ter fundado a primeira casa para pobres do mundo, chamada por seus comtemporâneos de "Basilias," aonde gastava tudo que recebia. Seu amor pela Ortodoxia levou-o a entrar em conflito com o Imperador Ariano Valeus, perante quem ele permaneceu impávido. Seus tratados interpretativos doutrinais e éticos, assim como suas cartas, brilham na fronteira da literatura mundial, e justificam o título concebido a ele "portador de luz do universo." Em suas homilias do Hexaemeron, ele mistura religião com ciência natural para a compreensão das pessoas; e seu conselho para os jovens sobre como aproveitar os escritos dos antigos escritores gregos é digno de estudo. Sua morte foi lamentada, não só por Cristãos, mas até mesmo por Judeus e pagãos. Seu irmão Gregório de Nyssa (A.D. 394), prima em suas obras mais como um filósofo especulativo e erudito do que como um moralista prático. Especulação filosófica também caracteriza o trabalho de Gregório de Nazinzo (A.D. 390), já mencionado como o amigo de Basílio, e a quem o povo nomeou "o Teólogo" por conta dos sermões sobre a divindade do Logos que pregou contra a heresia ariana na Igreja de Santa Anastácia em Constantinopla, para levar a corrente de opinião popular de volta para os canais da fé incorrupta. Tão popular Gregório se tornou naquele tempo, que Teodosius o Grande convidou-o para ser Arcebispo de Constantinopla, uma posição da qual ele logo se retirou quando se deu conta das perpétuas maquinações da qual ele era o centro. Poeta em sua poesia e seus sermões, Gregório era poeta também em sua vida, sendo o oposto ao seu prático e fleugmático amigo, Basílio.

Um Representante da Escola de Antióquia: Crisóstomo.

Se oa acima mencionados Padres são exemplo brilhantes da Escola Alexandrina de pensamento. a Escola de Antióquia é mui dignamente representada por João (A.D. 407) que por sua grande eloquência foi chamado de "boca-de-ouro," ou "Chrysostom" em grego. Seu pai foi o pagão Secundus; sua mãe, Anthousa, uma Cristã que enviuvou cedo na vida, e confiou a educação de João a Libanius, o mais famoso sofista da época. Tão grande era a devoção do menino ao aprendizado que quando perguntado pelos pagãos a quem ele deixaria como seu sucessor Libanius respondeu: "João, a menos que os Cristãos o roubem de nós." Mas João, que mal conheceu seu pai, seguiu a religião de sua mãe e foi batizado, tornando-se mais tarde um presbítero em Antióquia, onde fez sermões por muitos anos. Seu discurso era dourado, e sua vida, a vida de um Santo. Sua fama espalhou-se até a corte imperial na capital, para onde o rei Arcadius, atraiu-o com um ardil, e o persuadiu a tornar-se Arcebispo de Constantinopla, para grande alegria do povo. Mas João não era somente o protetor dos pobres e oprimidos; ele era um destemido censor do crime e corrupção nas altas rodas. Isso levantou a inimizade da Imperatriz Eudoxia, cuja conduta não estava acima de censura e com a assistência de outros pecadores ela tramou banir o santo homem para os confins da Armênia, onde eventualmente morreu no meio de neve, gelo e privações. "Glória a Deus por tudo," foram suas palavras quando moribundo. Crisóstomo foi o mais popular e prático dos grandes oradores gregos, e seus sermões, que ocupam dezoito grandes volumes, podem ainda hoje em dia, serem lidos com grande proveito e prazer. Ele não era somente um excelente psicólogo, que investigou fundo os males sociais do mundo, mas também um comentador que em sua interpretação da Sagrada Escritura seguiu o sóbrio e literal método que era a marca distintiva da escola de Antióquia.

Outros Padres.

A citação desses poucos nomes famosos não constituem nem um décimo do que deveria ser dito sobre esse assunto. Além dos Padres que mencionamos existem outros, destacados como historiadores (como Eusébio de Cesaréia e Socrates), como catequistas (como Cirilo de Jerusalém), como comentadores (como Teodoreto de Cyrus), ou como controversialistas (como Cirilo de Alexandria). Nem devemos esquecer os eminentes Padres Latinos do Ocidente, entre os quais Ambrósio, Jerome, e Agostinho brilham como estrelas de primeira grandeza. Mas tentamos meramente dar alguma idéia sobre aqueles homens excepcionais, que pelo esplendor de seus ens