Epístola

do Apóstolo Paulo

Aos Romanos.

 

Bispo Alexandre Mileant

Traduzido por Tatiana Zyromski

 

 

Conteúdo:

Informações Preliminares.

A Explicação da Epístola

Introdução A essência da pregação do Evangelho.

Exposição da Fé Cristã.

Todos os Homens São Pecadores E Estão Sujeitos ao Juízo de Deus. A Corrupção Moral dos Gentios. Deus é justo. A decadência dos judeus. Conclusão: todo são culpados. Cristo É a Única Salvação. A necessidade da fé. Abraão é o pai de todos que têm a fé. Absolvição pelo sangue de Cristo. A morte veio de Adão, a vida veio de Cristo. A Força da Graça de Cristo. Da escravidão à uma vida nova. O conflito interno. A vida no Espírito Santo. A alegria de sermos adotados por Deus. A glória vindoura. O amor de Deus é tudo para nós. A Missão de Israel. A providência Divina nos destinos dos povos. O mal do Israel é a sua falta de fé. A conversão vindoura de Israel.

A Essência da Vida Cristã.

O uso dos dons espirituais. A obediência das autoridades seculares. O amor é a coisa principal. A vida em harmonia. Cristo é o exemplo de paciência infinita. Os Votos e as Saudações. Devemos Guardar a Pureza da Fé.

Conclusão:

 

 

Informações Preliminares.

Entre todos os livros sagrados do Novo Testamento a epístola do apóstolo Paulo aos Romanos, tem um lugar de destaque: nenhum dos livros sagrados discute os fundamentos do cristianismo tão profundamente, como esta epístola.

São Paulo reuniu em si muitos talentos, que fizeram desta obra um documento importantíssimo dos ensinamentos cristãos. Esta obra abrange um profundo conhecimento das Escrituras Sagradas do Velho Testamento, uma profunda erudição e um grande talento de escritor. Por isso toda a Epístola do Apóstolo Paulo aos Romanos sempre atraía a atenção tanto dos cristãos simples, como dos filósofos cristãos e na antigüidade era chamada de "Segundo Evangelho." Acho que é por isso tudo, que esta epístola está colocada como primeira, na frente de todas as outras epístolas.

Como podemos perceber do conteúdo desta epístola, o apóstolo Paulo muitas vezes tentava pregar a Fé Cristã na capital do glorioso e poderoso império, mas sempre surgiram vários obstáculos. Naquela época, em Roma já havia uma considerável comunidade cristã. Ela consistia tanto de judeus convertidos, como de romanos. Não sabemos ao certo como surgiu esta comunidade. Sabemos, que ainda antes do Nascimento do Nosso Senhor já havia muitos judeus em Roma e que alguns deles peregrinavam para Jerusalém por ocasião de grandes festas. Ao visitar Jerusalém durante a vida de Jesus, eles não puderam ignorar os grandes milagres Dele, bem como os Seus novos e sublimes ensinamentos. Assim, é muito provável, que as primeiras sementes de cristianismo chegaram à Roma ainda durante a vida de Cristo.

O livro dos Atos relata, que por ocasião de Pentecostes no ano de 33 d.C., muitos peregrinos de diversos países, e entre eles peregrinos de Roma, testemunharam a descida do Espírito Santos aos Apóstolos (Atos 2:10). Cerca de três mil pessoas, influenciadas por este milagre maior e pelo sermão entusiástico do apóstolo Pedro se batizaram naquele dia, e alguns dias mais tarde — ainda cinco mil. Assim a difusão do cristianismo ganhou desde o seu começo proporções gigantescas e a fé cristã começou a enraizar-se também nos países vizinhos - na Síria, na Ásia Menor, no Chipre, na Grécia, no Egito, etc. E isto tudo acontecia não só graças à pregação dos apóstolos, mas também graças aos neófitos em Jerusalém, os quais, voltando para a casa após a sua peregrinação, contaram sobre a nova e maravilhosa fé. Foi assim que o cristianismo chegou até a Antioquia, conforme está relatado no livro dos Atos (Atos 11:26). É muito provável, que foi assim que ele chegou até Roma. Podemos perceber pelas saudações do apóstolo Paulo, contidos no final da epístola, que o apóstolo Paulo conheceu pessoalmente muitos dos cristãos romanos, os quais provavelmente conheceu ainda em Jerusalém, o qual ele mesmo muitas vezes visitava.

No começo do primeiro século, em Roma havia cerca de 50.000 judeus e 11 sinagogas. Originalmente, a comunidade cristã lá consistia quase que exclusivamente de judeus. Mas dentro em breve começou a aumentar graças aos romanos de tal forma, que após algumas décadas o número de romanos cristãos era maior que o número de judeus batizados. No começo, eles todos viviam em harmonia, junto rezavam e comungavam. Mas já em meados do primeiro século começaram a surgir desentendimentos entre eles por causa da nacionalidade. Estes desentendimentos eram fomentados pelos judeus, que invejavam o sucesso da nova fé cristã e instigavam os judeus batizados contra outros, exortando-os a não se misturar com os cristãos que se converteram do paganismo. Eles chamavam estas pessoas de impuras e indignas de dividir a eterna felicidade prometida aos seus patriarcas. Estas artimanhas deram resultado, pois em meados do século I, em Roma, houve muitos conflitos religiosos entre os judeus, de modo que o imperador Cláudio no intuito de acabar com isto, baniu muitos judeus da capital (anos 41-54). Provavelmente, depois disto, os conflitos religiosos acabaram. No entanto, podemos perceber uma grande preocupação com o problema judeo-cristã na epístola do apóstolo Paulo. São Paulo conheceu perfeitamente as Escrituras do Antigo Testamento e baseado nelas, ajuda aos seus leitores perceber nelas as raízes de cristianismo e ao mesmo tempo prova, que para Deus não importa a descendência biológica, mas sim, a fé sincera.

Esta epístola foi escrita na cidade de Corinto, durante a terceira viagem missionária do apóstolo, cerca no ano de 59 d.C. O apóstolo tinha uma esperança, de que após a sua visita a Jerusalém, ele poderia visitar Roma e ajudar no fortalecimento da comunidade cristã. E realmente, são Paulo conseguiu visitar Roma no verão do ano de 62, - mas só após grandes aborrecimentos em Jerusalém conforme descrito no Livro dos Atos (capítulos 21-28). O apóstolo Pedro também visitou Roma, mas, ao que parece, depois do apóstolo Paulo. Alguns anos mais tarde, ambos os apóstolos visitaram de novo Roma (acerca do ano de 67) e ambos morreram lá como mártires, à mando do imperador Nero (anos 54-68).

O assunto principal da epístola aos Romanos é que Nosso Senhor Jesus Cristo é o único Salvador da humanidade pecadora. Nem a voz da consciência, nem o medo do castigo eterno, nem os ensinamentos dos profetas Divinos, nada disso poderá salvar o homem do seu principal mal — o pecado. O pecado trouxe uma dualidade no ser humano. Como Deus criou a nossa alma conforme a Sua imagem, então todo homem aspira a proximidade de Deus; mas o pecado nos escraviza, obrigando-nos a fazer aquilo, que não queremos. A causa da morte de todo e qualquer ser humano, seja um ancião, seja uma criança inocente recém nascida, é a nossa natureza pecaminosa. Na realidade, o paraíso e a vida eterna com Deus é inatingível não só para os gentios, pagãos, mas também para os judeus que vivem de acordo com a lei de Moisés. Mas Deus misericordioso achou o caminho de salvação para a humanidade: Ele mandou para o mundo o Seu Filho Unigênito, Nosso Senhor Jesus Cristo, O Qual com a Sua morte redimiu os pecados dos homens e com a Sua ressurreição abriu para nos o caminho para o Reino de Deus. Agora todo e qualquer homem, seja judeu ou pagão, recebe a remissão de seus pecados e a abençoada ajuda não por causa de seus méritos individuais, mas exclusivamente pela fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. O ponto de partida do pecado para uma vida justa é o Batismo. Neste sacramento, o homem que tem fé se purifica do pecado, se livra da escravidão das paixões e recebe forças espirituais. Assim, um pecador culpado se transforma, pela graça, no filho de Deus e no herdeiro do Reino da glória. Esta obra de salvação é tão grandiosa, que todo o resto não significa nada.

A segunda parte da epístola (capítulos 12-15) é dedicada à exposição da essência de uma vida cristã. O apóstolo exorta os fiéis a levar a vida de acordo com os ideais sublimes da fé cristã e os dons espirituais, recebidos, empregar para o bem comum.

O capítulo 4, onde o apóstolo mostra como exemplo a fé de Abraão, e também os capítulos 9 a 11, onde ele analisa o problema espiritual do Israel infiel, estão um pouco fora da atualidade. Mas, mesmo assim, eles são sumamente importantes, porque ajudam a compreender melhor as bases da fé cristã, a qual tem as suas raízes nas Escrituras Sagradas do Velho Testamento.

Na Epístola aos Romanos o leitor achará pensamentos sobre assuntos espirituais, que são de uma profundidade invulgar, e estes assuntos nunca, em nenhuma parte das Escrituras, eram tão detalhadamente discutidos, como nesta Epístola. Por exemplo: sobre o pecado original e sobre a danificação da natureza humana, sobre a força da consciência, sobre o significado da fé para a salvação eterna, sobre as propriedades de regeneração do sacramento de Batismo, sobre a força da graça de Cristo, sobre a regeneração de toda a natureza, sobre o significado de Israel na história da humanidade, e outros mais.

Na epístola do apóstolo Paulo aos Romanos o leitor encontrará alguns lugares que são de difícil interpretação. Esta dificuldade é devida à profundidade do tema, à exposição concisa e à riqueza do vocabulário grego. Foi ainda o apóstolo Pedro que mencionou uma certa "dificuldade de compreensão" nas epístolas do apóstolo Paulo (2 Pedro, 3:16). Não há nenhuma tradução, que possa satisfazer tanto a exatidão literal e a leveza da leitura. Por exemplo, a tradução para o eslavo é literal, porém é de difícil compreensão. A tradução para o russo é muito mais compreensível, mas em algumas partes não é exata.

Para ajudar ao leitor na interpretação desta epístola, aproximamos a tradução à língua moderna. Além do texto grego original e a tradução russa aprovada pelo Santo Sínodo, usamos também algumas traduções inglesas, a obra de Teofano Recluso sobre a epístola (onde há os ensinamentos de vários santos padres da Igreja), uma "Bíblia" do professor P. Lopukhin e seus colaboradores, e também algumas pesquisas atuais sobre esta epístola.

 

 

A Explicação da Epístola.

 

Introdução.

(Romanos 1:1-17)

 

Saudação, 1:1-15. O apóstolo Paulo escreveu a sua saudação de acordo com a forma estabelecida naquela época, conforme a qual ele devia, numa forma concisa, falar sobre si e sobre a essência da sua missiva:

 

Paulo, servo de Jesus Cristo, apóstolo por vocação divina, escolhido para pregar o Evangelho de Deus, que Ele, por seus profetas, prometera nas Sagradas Escrituras, a saber: o Evangelho de Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Nascido pela carne da descendência de Davi, porém, pelo Espírito Santo, ressuscitando dos mortos, Ele demonstrou a Sua grande força de Filho de Deus. Foi por intermédio Dele que nós recebemos a graça e o múnus do apostolado, a fim de sujeitar à fé todos os povos, para glória de Seu nome. Entre eles estão também vós, chamados por Jesus Cristo. A todos vós de Roma, a quem Deus chamou em Seu amor para a santidade, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo (1:1-7).

 

Para acalmar os judeus acerca dos ensinamentos do cristianismo, o apóstolo explica, que ele não prega nenhum ensinamento novo, mas tão só explica mais amplamente aquilo, já escrito por profetas antigos.

 

Antes de tudo, dou graças a meu Deus, mediante Jesus Cristo, por todos vós, pois, vossa fé é elogiada no mundo inteiro. Porque, Deus — a quem preste um culto espiritual, pregando o Evangelho de Seu Filho — me é testemunha de como penso em vós incessantemente, suplicando-Lhe sempre, em minhas orações, seja-me dada ocasião favorável de ir ter convosco, se fôr da vontade de Deus. Muito anseio, deverás, ir ver-vós, para vós comunicar algum dom espiritual que vos conforte, ou melhor, para, em vosso meio confirmarmo-nos uns aos outros na profissão da mesma fé, vossa e minha. Não quero que ignoreis, irmãos: muitas vezes tive a intenção de visitar-vos, não me sendo possível realizá-lo até agora, para colher algum fruto entre vós, como o colhi entre outras nações. Na verdade, sinto-me obrigado a pregar aos gregos como aos bárbaros, aos sábios como aos ignorantes. Assim, não me falta vontade em anunciar o Evangelho também a vós, habitantes de Roma (1:8-15).

 

Uma vez que a Roma era o centro do poder legislativo e administrativo, ao qual se dirigiam todos os pontos administrativos daquele enorme e poderoso império, então a fundação de uma comunidade cristã lá era super importante para o êxito de cristianismo. Foi por isso que o apóstolo Paulo desejava tão ardentemente fortalecer a fé cristã em Roma. Mas como ele não teve a possibilidade de vir para lá logo, o apóstolo deseja fortalecer os cristãos de lá pelo menos através de uma epístola.

 

A essência da pregação do Evangelho.

(1:16-17)

 

Pois, não me envergonho do Evangelho, que é um poder divino para a salvação dos que crêem, primeiro dos judeus, depois dos gentios. Porquanto, nele se manifesta a justiça de Deus, pela fé e para a fé, como está escrito: "O justo viverá da (sua) fé" (Habacuc 2:4, Romanos 1:16-17).

 

Apesar de que a Roma era famosa por seu poderio, seu poder militar e suas riquezas, o apóstolo Paulo não tinha vergonha da sua modesta pregação sobre Jesus crucificado. Todos os bens materiais do mundo gentio, são ilusórios e insignificantes: não existe nenhuma força material capaz de tirar o homem do pecado e da condenação à morte. Somente o Evangelho dá aos homens a invencível força Divina, na qual o homem ressuscita moralmente e pela qual ascende à vida eterna no Reino de Deus.

Mais adiante, o apóstolo passa a expor os ensinamentos do Evangelho na seguinte seqüência: a) Todos os homens são pecadores, e por isso são sujeitos à julgamento de Deus e à condenação à morte (1:18–3:30). b) A salvação só é possível pela fé em Cristo (3:21–5:21). c) A fé nos proporciona a abençoada ajuda e uma vida justa (6:1–8:39). Após uma inserção bastante ampla, onde o apóstolo discute o problema de falta da fé em Israel (9:1–11:36), ele termina a sua epístola com a exposição da essência de uma vida cristã (capítulos 12-16).

 

 

Exposição da Fé Cristã.

O leitor das Escrituras Sagradas deve se acostumar à forma bíblica da narração. O homem moderno está acostumado com o assim chamado "método científico", onde os temas estão expostos numa certa sucessão lógica. Quando termina um tema, aí começa o segundo, resultante do primeiro. Na literatura científica o pensamento deve fluir numa linha reta. Tal método é seco, sem vida e não presta para a exposição de temas profundamente religioso-psicológicos, onde cada assunto é ligado à muitos outros assuntos e onde não há necessidade de uma prova científica, que alias é inatingível, mas onde é importante a percepção espiritual. Aqui a classificação rigorosa é impossível e desnecessária. Muitas vezes na Bíblia, e principalmente nas missivas do apóstolo Paulo vários temas, ligados entre si, são discutidos ao mesmo tempo. O autor explica de pontos diferentes a interdependência entre diversos assuntos espirituais, passando de um nível para outro. Ele não caminha por uma trilha já pronta, mas como que conduz o leitor para cima por uma escada em espiral.

O apóstolo, antes de oferecer ao leitor um remédio espiritual, faz o diagnóstico de sua doença moral — aquela que é comum para todos.

 

 

Todos os Homens São Pecadores

E Estão Sujeitos ao Juízo de Deus.

(1:18–3:20)

O pecado não é um simples tropeço da livre vontade, ou um erro, ou uma fraqueza momentânea: ele é uma das mais horríveis doenças, que envenenou toda nossa natureza humana. Todo o mal no mundo inteiro provem do pecado: a perda da liberdade moral, a perda da alegria de contato com Deus. Do pecado resultam inúmeras doenças físicas e psíquicas, a propensão ao mal e a pouca vontade de fazer o bem. O pecado perturbou a harmonia entre as forças físicas e psíquicas, morais, e isso resultou na perturbação da vida familiar e social, resultou na injustiça, na opressão mútua, no embuste, nos crimes, a violência, nas guerras, com as quais vieram a pobreza e a fome ... E é exatamente o pecado que é a causa da pior calamidade — a morte, que inevitavelmente destrui todas as boas e radiantes esperanças do homem!

O apóstolo Paulo começa a sua Epístola pela descrição da depravação do homem. Ele prova, que todos são pecadores, sem exceção. Nada podia redimir espiritualmente o homem: nem a voz da consciência, nem a perfeita criação da natureza, que testemunha sobre o Criador, nem a lei escrita, dada à Moisés por Deus, nada, absolutamente nada podia regenerar a humanidade. Todos — tanto gentios como judeus — afundaram nos pecados e portanto são estranhos à Deus e condenados a perecer.

 

 

A Corrupção Moral dos Gentios.

(1:18-32)

O apóstolo explica, que em princípio todo homem, mesmo sem um ensinamento específico de catecismo, sabe instintivamente , que Deus existe, que existe um mundo espiritual, que alguns atos são corretos e outros não. Esta religiosidade inata acontece porque Deus escreveu a Sua lei na alma de todo homem, e esta lei se faz ouvir através da voz de consciência. Conforme o plano do Criador, todos os homens deveriam se dirigir para o bem. No entanto, na prática aconteceu, que a maioria dos homens peca, ignorando a voz da consciência. Os homens viraram as costas para o seu Criador e se perderam em diversas crenças, caçando os mais baixos prazeres. Portanto:

Realmente, a ira de Deus revela-se do alto do céu contra qualquer impiedade e injustiça dos homens, os quais renegam a verdade pela maldade. Pois, o que se pode conhecer de Deus, a eles foi manifestado, porque Deus, com efeito, manifestou-se a eles. Desde a criação do mundo, a Sua natureza invisível - Seu poder sempiterno e Sua divindade — se fazem visíveis através da contemplação de Sua obra. Por isso, não há escusas para eles. Pois, tendo conhecido a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe renderam graças, mas, enredaram-se em seus vãos raciocínios, e se lhes obscureceu o coração insensato (vangloriaram-se de sua sabedoria e tornaram-se estultos, e substituíram a glória de Deus imortal por um simulacro, simples imagem de homens mortais, de aves, quadrúpedes e répteis), e por isso, Deus os entregou à impureza dos apetites de seus corações, de modo a desonrarem seus próprios corpos. Eles confundiram o verdadeiro Deus com seres falsos, prestando culto e adoração às criaturas, em lugar do Criador, o qual é bendito para sempre, amém! (1:18-25)

Por isso, Deus também os entregou a paixões infames: suas mulheres converteram as relações naturais em relações antinaturais. Do mesmo modo, também os homens, abandonando o uso natural da mulher, arderam de volúpia uns para com os outros: homens cometendo torpezas com homens, terminando por experimentar em si mesmos a devida paga de seu desvario. Como não fizeram caso do verdadeiro conhecimento de Deus, entregou-os Deus a sentimentos depravados - por isso, estão repletos de toda espécie de injustiça, malícia, cobiça e perversidade; cheios de inveja, homicídio, discórdia, dolo e malignidade; são detratores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de iniqüidades, rebeldes aos pais, insensatos e inconstantes, sem amor nem compaixão (1:26-31)

Apesar de conhecerem o veredicto de Deus, que considera dignos de morte os que praticam tais coisas, eles não somente as fazem como aplaudem os que as cometem. (1:32)

 

Em princípio, todos os homens são capazes de reconhecer o Criador e crer corretamente Nele. Ao contemplar a maravilhosa organização da natureza, a sua grandeza, a sua harmonia e a sua beleza, eles podem perceber a onipotência, a sabedoria e a generosidade do seu Criador. Pois, até no cotidiano os homens julgam o mestre conforme a qualidade de suas obras. No entanto, os gentios, ao invés de se empenhar em conhecer Deus e agradecer-Lhe, se entregaram a coisas fúteis. Visando somente coisas materiais e prazeres carnais, eles chegaram a tal insensatez, que no lugar do Criador começaram a deificar as forças da natureza e diversos monstros; e por causa desta sua loucura, eles afundaram ainda mais na depravação.

O apóstolo indica o pecado do homossexualismo como o cúmulo da depravação dos gentios. O apóstolo explica, que este pecado é particularmente repugnante, porque é anti-natural e,é o resultado da máxima depravação carnal. Profanando os seus próprios corpos, os homossexuais colhem o castigo por sua depravação: remorsos, inquietude interna e exacerbação. Esta condenação do homossexualismo por parte do apóstolo é muito importante hoje em dia, quando alguns tentam justificá-lo e legalizar, e a mídia está acostumando a juventude com ele, mostrando-o como algo completamente normal. É muito mal, quando o homem peca, mas é pior ainda, quando ele está tentando justificar o pecado: daí "a ira de Deus desce do céu sobre toda a depravação e inverdade dos homens, que estão reprimindo a verdade com a inverdade."

Uma vez que, conforme o raciocínio do apóstolo Paulo, o modo de pensar incorreto leva as pessoas ao pecado, então, o conhecimento de Deus e bons pensamentos deverão contribuir para a sua cura moral. Eis por que é tão necessário se preocupar com a auto-didática espiritual, pois com isso a luz interna começará a iluminar toda a nossa vida e tudo em volta de nós.

 

 

Deus é justo.

(2:1-16)

Após demonstrar a corrupção da sociedade pagã, o apóstolo se apressa a prevenir os judeus da tentação de censura. Ele prova, que o grau da culpa perante Deus de uma pessoa é medido não só pelos seus atos, mas também por vantagens dadas à cada pessoa. De um modo geral, os judeus conheceram melhor os mandamentos Divinos, eles eram mais morais do que os pagãos e isto lhes dava motivo para desprezar outros povos. O apóstolo está lembrando aos judeus, que as exigências para com eles serão maiores, pois Deus os aproximou a Si; Ele lhes deu a Sua lei Divina, o templo, as missas e as festas religiosas, lhes mandava profetas e fazia tudo para o aperfeiçoamento espiritual deles. Os pagãos, os gentios, ao contrário, eram deixados a si mesmos. Eles não tinham nenhum motivo exterior para viver uma vida justa. E mesmo assim, alguns gentios eram mais morais do que muitos judeus. Como eles não tinham nenhuma lei externa, eles se guiavam pela lei interna — a voz da consciência.

 

Por isso, é inescusável, ó homem, quem quer que sejas, quando te arvoras em juiz. Julgando a outros, condenas a ti, já que fazes aquilo mesmo que condenas. Pois sabemos que o juízo de Deus, cuja norma é a verdade, fere os que cometem tais coisas. Condenando os que praticam tais coisas, quando procedes da mesma forma, pensas, ó homem, que escaparás do juízo de Deus ? Ou desprezas a riqueza de Sua bondade, paciência e longanimidade, desconhecendo que a bondade Divina te incita para a penitência ? Com essa dureza e esse coração impenitente acumulas cólera para o dia da ira e revelação da sentença de Deus, o qual retribuirá a cada conforme suas obras: vida eterna aos que buscam, perseverando na prática do bem, a glória, a honra e a imortalidade; ira e indignação, porém, aos que se obstinam no egoísmo, contradizendo a verdade e regulando sua conduta pela injustiça (2:1-8.).

Tribulação e aflição surpreendem a alma do homem pecador, primeiro o judeu e depois o gentio; enquanto glória, honra e paz será a partilha de quem praticar o bem, primeiro do judeu e também do gentio; pois perante Deus não há acepção de pessoas. Os que pecaram sem conhecer a Lei, também perecerão sem ela. Os que pecaram conhecendo a Lei, serão condenados por essa Lei. Porque, diante de Deus passará por justo, não quem sabe a Lei, mas quem a cumpre (2:9-13).

Em verdade, quando os gentios, sem ter a Lei, guiando-se pela natureza, cumpriram os preceitos da Lei, então, eles, sem a terem, se sujeitam à sua própria lei. Assim, comprovaram que os preceitos dela estão inscritos em seus corações, dando-lhes testemunho a sua consciência e os julgamentos interiores que ora os acusam e ora os escusam. Isto se patenteará no dia em que Deus julgar, por Jesus Cristo, segundo meu evangelho, os desígnios secretos dos homens (2:14-16).

 

Ao criar o homem Deus escreveu no seu coração a lei moral, a qual, através da voz de consciência indica ao homem o bem e o mal. Se o homem tivesse permanecido na sua condição original de inocência, esta interna lei lhe bastaria para levar uma vida justa. Porém por causa do pecado, a nossa consciência obscureceu, e daí houve a necessidade, além da lei da própria consciência, de dar ao homem ainda uma lei escrita, para que ela o guiasse de uma forma mais concreta. Por esta razão Deus deu aos homens os Mandamentos, registrados nas Escrituras Sagradas. De um modo geral, estes Mandamentos ensinam ao homem as mesmas coisas que lhe ensina a própria consciência. No entanto, como estes Mandamentos são uma revelação concreta da vontade de Deus, então a infração deles é uma inescusável transgressão da vontade de Criador. Por isso, os judeus que transgrediram conscientemente a vontade de Deus receberão castigos maiores do que aqueles, que pecam por não conhecerem as leis.

Por outro lado, uma vez que os Mandamentos Divinos exigiram uma maior perfeição moral e portanto, maiores esforços, os judeus, que alcançaram uma vida justa, mereciam maiores recompensas em comparação com os gentios, que viviam de acordo com as suas inclinações inatas primitivas, que não exigiam tanto esforço.

Tanto as recompensas, como os castigos são internos e externos. Quando o homem faz o bem, cumprindo o seu dever moral, ele sente uma satisfação interna, uma paz toda especial e uma alegria. Isto é a sua recompensa interna e um pressentimento da vida bem-aventurada, que ele receberá no Reino dos Céus. Da mesma forma, o homem recebe o castigo pelo pecado cometido, primeiro na forma interna — como remorsos, pesadelos, tristeza, que acompanham qualquer transgressão de leis nos dadas por Deus. E da mesma forma, a transgressão das leis escritas é um pecado maior do que a transgressão das leis da consciência. Por isso, ela nos traz maiores sofrimentos internos. Mas o pecador receberá o pleno castigo por seus crimes depois do Juízo Final. Se nesta nossa vida a justiça é muitas vezes transgredida, na vida eterna ela vencerá plenamente, e cada um receberá a recompensa de acordo com os seus atos. O apóstolo repete esta idéia várias vezes, dizendo: "Deus é imparcial."

No segundo capítulo desta epístola há idéias muito valiosas acerca da salvação. Algumas pessoas acham, que serão salvos somente aqueles que pertencem à fé delas, e todos os outros, como tresmalhados, perecerão. Por exemplo, os católicos acham, que somente os católicos serão salvos, os batistas — só os batistas, etc. Para compreender esta questão, precisamos primeiro nos dar conta de que a salvação, como libertação da condenação, é diferente dos graus de bem-aventurança no Reino dos Céus. A fé correta e os santos dons, nos oferecidos na Santa Igreja, nos ajudam a conseguir uma maior perfeição espiritual e portanto uma maior proximidade à Deus e, portanto, uma maior felicidade. No que se refere à salvação no sentido de perdão e libertação das tormentas no inferno, podemos deduzir do ensinamento do apóstolo Paulo, aqui exposto, que até os gentios, que não tinham nenhuma idéia da existência de Deus, mas que viveram de acordo com a sua consciência, poderão salvar-se. "Em verdade, quando os gentios, sem Ter a Lei, guiando-se pela natureza, cumpriram os preceitos da Lei, então eles, sem a terem, se sujeitam à própria lei. Assim, comprovam que os preceitos dela estão inscritos em seus corações , dando-lhes testemunho a sua consciência e os julgamentos interiores que ora os acusam, ora os escusam" (2:14-15).

Quando o homem age corretamente, a voz de sua consciência e os seus pensamentos aprovam os seus atos. Porém, quando o homem age incorretamente, a sua consciência o acusa. E por mais que o homem queira se justificar por circunstâncias, pela lógica do ato, ou pela sua fraqueza, ele não consegue calar a voz da sua consciência. Infelizmente, com a repetição dos pecados, a voz da consciência fica cada vez mais fraca, e por fim se cala. Por isso, as vezes até parece, que os criminosos não têm nenhuma consciência. Mas, na verdade, ela existe, só que amortecida. Porém no Juízo Final, quando Deus mostrará o estado interno de cada homem, a consciência de cada um se levantará com uma nova força e o acusará e o continuará acusando pela eternidade. Aparentemente, o apóstolo Paulo estava se referindo à este aparecimento da consciência, quando disse: "Isto se patenteará no dia em que Deus julgar ... os desígnios secretos dos homens" (2:16).

 

A decadência dos judeus.

(2:17-3:8)

O apóstolo Paulo, em suas epístolas, divide os homens em judeus e helenos; nos helenos ele subentende todos os não judeus. Esta divisão em duas categorias resultava da posição especial dos judeus entre os outros povos na época do Velho Testamento. Da mesma forma como pessoas diferem umas de outras por suas distintas qualidades e por seus talentos, os povos diferem uns dos outros por suas particularidades nacionais: uns, por exemplo, são muito disciplinados e beligerantes, outros — são bondosos e hospitaleiros, terceiros — são musicais e românticos, quartos — são filósofos e matemáticos, etc. Alguns povos fundaram grandes nações e impérios, determinando os destinos de povos vizinhos, porém outros passaram pela história do mundo de uma forma pouco perceptível e desapareceram para sempre.

O povo judeu sempre se destacou por sua religiosidade. Provavelmente, por causa de sua inata sensibilidade espiritual, o Senhor destacou o povo hebreu e o predeterminou para ser instrumento de salvação de outros povos. Quando os povos vizinhos pagãos, citados na Gênese e outros livros históricos da Bíblia se entregavam às superstições e diversas perversidades, os hebreus honravam o único verdadeiro Deus, Criador do céu e da terra. Os grandes homens justos, tais como Abraão, o profeta Moisés, o rei Davi, os profetas Elias, Isaías e Daniel eram judeus. Foram estes justos do Velho Testamento que prepararam o terreno para a vinda do Messias, Jesus Cristo. Também a Santíssima Mãe de Deus, a Sempre Virgem Maria, o profeta João Batista, os apóstolos, os primeiros missionários do Evangelho, os primeiros mártires e os primeiros santos nasceram do seio do povo hebreu. Não resta dúvida, que Deus incumbiu o povo hebreu com a missão da ressurreição espiritual da humanidade.

Mas, logicamente, cada homem é um indivíduo especial, as vezes muito complicado. Todo homem tem a liberdade de usar seus talentos para o bem ou para o mal, desenvolver os seus talentos ou os "enterrar." Na mesma família uma criança pode ser um gênio cientista e o seu irmão — um vagabundo que não vale nada. Assim, também entre o povo judeu havia grandes justos bem como hipócritas, criminosos e até ateus. Mas, apesar de tudo isso, durante toda a existência do povo judeu, os seus profetas o lembravam constantemente da sua sublime missão espiritual e o exortavam viver de uma maneira correta. No entanto, muitos judeus achavam que esta missão os destaca incondicionalmente, e por isso ignoravam as suas obrigações morais e sua responsabilidade perante Deus. Daí nasceu a sua idéia de supremacia e o seu desprezo pelos outros povos, considerados "impuros." O apóstolo Paulo muitas vezes lembra (tanto nesta epístola, como em outras), que quando não há fé, e uma vida justa, as vantagens externas não só não asseguram uma recompensa de Deus, mas provocam a Sua justa ira. O apóstolo diz:

 

Tu, que te ufanas em ser judeu, confias na Lei e te glorificas em Deus, conhecendo Sua vontade e, instruído pela Lei, sabes distinguir entre o que é melhor; tu, que presumes ser guia de cegos e luz dos que vivem nas trevas, doutor dos ignorantes, mestre de menores, por teres na Lei a norma da ciência e da verdade, tu, pois, que ensinas a outrem, por que não ensinas a ti mesmo ? Pregas que não se deve furtar, e furtas! Dizes que não se deve cometer adultério e cometes adultério! Tu, que abominas os ídolos e despojas sacrilegamente o Templo! Tu, que te glorificas da Lei e ofendes a Deus, transgredindo a Lei! Está bem escrito na Escritura: "Por vossa causa o nome de Deus é blasfemado entre os pagãos" (Romanos 2:17-24; Ezequiel 36:20; Isaías 52:5).

 

Somente um homem judeu, que compreendia plenamente os pontos de vista e os costumes do seu povo, podia acusá-lo de uma maneira tão severa. De uma maneira geral, naquela época, os judeus eram mais morais do que os outros povos. Eles não eram sexualmente tão depravados, como os pagãos romanos. Porém eles encaravam com condescendência tais defeitos como avareza, cobiça, presunção, hipocrisia e orgulho, justificando-se dizendo, que eles cumpriam todos os rituais prescritos pela Lei. Nosso Senhor Jesus Cristo, no Seu discurso registrado pelo apóstolo são Mateus no capítulo 23 do Evangelho dele, condenou severamente a presunção dos lideres do povo judeu. Para um homem ser reconhecido como judeu, ele precisava ser circunciso. O apóstolo diz:

 

Sem dúvida, a circuncisão é de proveito, se guardas a Lei. Se a transgrides, a tua circuncisão se transforma em incircuncisão! Se o incircunciso observa os preceitos da Lei, não será, acaso, tido como circunciso ? Com efeito, quem é por natureza incircunciso, cumprindo a Lei, condenar-te-á a ti, não obstante possuíres a Lei, porque a transgrides! Pois não é judeu quem o é só no exterior, nem é circuncisão a circuncisão exterior da carne; mas é judeu que o é no interior e é só circuncisão a do coração, segundo o espírito, não segundo a letra. Embora ela não tenha o elogio dos homens, tem-no de Deus (2:25-29).

 

O ritual da circuncisão dos meninos era comum entre vários povos da antigüidade. Sabemos, que isto era praticado entre os egípcios e alguns povos semitas ( por árabes até a época do Maomé, e também por outros povos), bem como por algumas tribos africanas. A necessidade de circuncisão foi explicada por alguns como a exigência para uma melhor higiene, por outros — como maior fertilidade ou simplesmente como uma tradição. Entre o povo judeu, o seu começo se deu com o Abraão (2000 anos a. C., Gênesis, 17:9-27). Do ponto de vista da formalidade, a circuncisão servia como um sinal de união entre Deus e o povo judeu. Mas os profetas o explicaram não só como a prática material, mas como "a circuncisão do coração," a repressão dos desejos pecaminosos no coração (Ezequiel 44:7). Uma vez que o sacramento de Batismo substituiu a circuncisão, os apóstolos no seu concílio de Jerusalém declararam que para os cristãos a circuncisão não é obrigatória (Atos 15:28-29; Galatas 5:6 e 6:15; Colossenses 2:11). Mas mesmo assim, os cristãos, descendentes dos judeus, continuavam circuncidar os meninos recém nascidos para manter a tradição. O apóstolo Paulo os lembra, que este ritual não significa nada, se aquilo, que ele simboliza, é violado.

Mais adiante, o apóstolo explica, que ao condenar as faltas dos judeus, ele não quer humilhar a própria religião mandada a eles por Deus. As Escrituras Sagradas ensinavam aos hebreus de como crer corretamente e viver uma vida piedosa, e isto lhes dava a vantagem sobre outros povos, que permaneciam na penumbra espiritual. Porém, a maioria dos hebreus não soube aproveitar esta predileção.

 

Que privilégio tem, pois, o judeu, ou para que lhe serve a circuncisão ? Para muita coisa, sob todos os aspectos. Em primeiro lugar, porque os oráculos Divinos lhe foram confiados. Mas, então, se alguns deles não creram, acaso esta incredulidade destruirá a fidelidade de Deus ? De modo algum! Evidenciar-se-á, pelo contrário, que somente Deus é fiel e que todo homem é desleal, segundo está escrito: "Assim, serás reconhecido justo nas Tuas palavras e triunfarás quando julgares" (Salmo 50:6). Se nossa justiça realça a justiça Divina, que diremos ? Que Deus é injusto ao desafogar Sua ira ? Falo à maneira humana. Nunca! Do contrário, como poderia Deus julgar o mundo ? Se a fidelidade de Deus realça mais Sua glória, à luz de minha infidelidade, por que serei também considerado como pecador ? Então, como alguns caluniosamente nos acusam de dizer, deveríamos fazer o mal para dele provir o bem ? Esses merecem ser condenados (3:1-8).

 

Basicamente, o texto supra afirma, que Deus não renega as Suas promessas. Apesar de que os hebreus transgrediram a sua aliança com Deus, e não justificaram a sua missão, Deus, na Sua infinita sabedoria achou outros meios, como salvar a humanidade. Mas, todos os bons resultados que vêm como resultado da intervenção Divina, não isentam os pecadores da sua culpa por sua teimosia e má vontade. O bem veio a despeito deles, e não graças a eles.

 

Conclusão: todo são culpados.

(3:9-20)

 

Castigando a presunção dos judeus, o apóstolo escreve:

 

Levamos, acaso, alguma vantagem ? De modo algum! Pois, já demonstramos, que judeus e gentios, sem exceção, se acham sob o domínio do pecado, como diz a Escritura: "Ninguém, nem sequer um, é justo. Não há, quem seja sensato e procure a Deus com seriedade. Todos se extraviaram e se perderam; não há alguém que faça o bem, nenhum sequer" (Salmo 13:1-3). "Sua garganta é sepulcro aberto; com suas línguas urdem fraudes. Seus lábios ocultam veneno de serpente" (Salmos 5:10; 139:4). "Sua boca está repleta de maldição e amargura" (Salmo 9:28). "Ágeis são seus pés para derramar sangue; ruína e miséria são seus caminhos; ignoram o caminho da paz" (Provérbios 1:16; Isaías 59:7-8). "Não há ante seus olhos o temor de Deus" (Salmo 35:2). Ora, sabemos que tudo, quanto diz a Lei, diz aos que estão sujeitos à Lei, para que se cale toda a boca e que todo mundo se confesse culpado diante de Deus. Porquanto, pela observância da Lei, nenhum homem será justificado diante d’Ele: pela Lei, só vem o conhecimento do pecado (Romanos, 3:9-20).

 

Os judeus achavam, que esta censura se referia à gentios, pagãos e não a eles. Eles se achavam justos, porque descendiam do Abraão, e cumpriam todos os ritos da Lei. O apóstolo prova a eles, que eles são os pecadores, pois os profetas se referiam a eles, denunciando os seus pecados, e não os dos gentios. Os mandamentos Divinos são maravilhosos, quando o homem se guia por eles. Porém quando ele os transgride conscientemente, isto só aumento a sua responsabilidade.

 

 

Cristo É a Única Salvação.

(3:21-21)

Após demonstrar que todos os homens são pecadores, e que nem o fato de pertencer ao povo hebreu, nem os conhecimento das leis, nem o cumprimento dos ritos podem justificar o pecador perante Deus, o apóstolo Paulo passa ao tema principal da sua epístola, a saber: o homem só poderá ser salvo por Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

A necessidade da fé.

(3:21–31)

Ao expor o ensinamento cristão sobre a salvação dos homens, o apóstolo Paulo usa os conceitos e a terminologia que eram costumeiros para os seus contemporâneos. Naqueles tempos, tantos os judeus como os romanos, conheciam noções jurídicas bem definidas. Tais palavras, como a lei, a justiça, a culpa, o resgate, a justificação e outras parecidas, eram compreensíveis por todos. Do ponto de vista jurídico formal, todos os homens que violaram a lei de Deus eram culpados e sujeitos a castigo. Os pagãos violavam a lei moral inata, e os judeus — a lei escrita por Deus.

Mas como se justificar perante Deus, quando nem o parentesco com Abraão, nem a circuncisão e nem o cumprimento das leis ajudam ? O apóstolo explica, que Deus misericordioso, ao ver a impotência dos homens, teve piedade deles e lhes deu a salvação de um modo mais inesperado e mais maravilhoso — a salvação em Jesus Cristo. O apóstolo dedica a maior parte da sua epístola à explicação desta tese principal. A salvação, que Nosso Senhor ofereceu aos homens, o apóstolo chama de verdade, ou justificação, de acordo com os conceitos daqueles tempos. O apóstolo diz:

 

Mas agora, sem a Lei, manifestou-se a justiça de Deus, testemunhada pela Lei e pelos profetas, justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo, a todos aqueles que crêem ; pois, já não há mais distinção: todos pecaram e estão sem a glória de Deus; e estão justificados gratuitamente pela Sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo: Deus o destinou para ser, pelo seu sangue, vítima de propiciação, mediante a fé, para demonstrar Sua justiça, porque, em Sua longanimidade Ele tolerara os pecados anteriores. Para manifestar, enfim, Sua justiça no tempo presente, como quis mostrar-se justo e justificar que vive da fé em Jesus Cristo. (3:21-26).

Há, portanto, motivo de se ufanar ? Nenhum. Em virtude de que Lei ? Pela das obras ? Não! Mas em virtude da lei da fé! Por isso, concluímos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei. Acaso, Deus é só dos judeus ? Não o é também dos gentios ? Sim, também dos gentios. Realmente, não há senão um só Deus que justificará, pela fé, os circuncisos e pela mesma fé os incircuncisos. Minamos, pois, a autoridade da Lei pela fé ? Não! Antes, a confirmamos! (3:27-31).

 

Por outras palavras, a justiça exigia, que Deus, como um Juiz imparcial, castigasse todos os pecadores. Mas Deus, vendo a impotência moral dos homens, durante todo o período pré-cristã refreava a Sua ira justa, preparando os homens para a salvação pelo Seu Filho Unigênito. Os profetas da era pré-cristã, com as suas profecias, preparavam o povo judeu para a vinda do Messias, colocando o fundamento da fé n’Ele. E como a humanidade era impotente para redimir a sua culpa perante Deus, então o Filho de Deus tomou sobre Si voluntariamente toda a culpa da humanidade pecadora e Se ofereceu como sacrifício, declinando dos homens o justo castigo que lhes era devido. Este mistério de justiça Divina e de Sua infinita misericórdia, que é incompreensível para os homens, o apóstolo expõe em termos jurídicos um tanto formais. Devemos nos dar conta, que o mistério deste Sacrifício é incompreensível até para os anjos (1 Pedro 1:12; Apocalipse 5:5). Por isso, nenhuma terminologia pode suficiente esclarecê-lo. Este mistério pode ser conhecido mais pelo coração, que pela razão.

Uma vez, que a redenção foi feita pelo Nosso Senhor Jesus Cristo abrangente e totalmente, Deus não exige dos pecadores nenhuma outra formalidade para a justificação. A única condição é a fé em Cristo como Redentor, enviado por Deus. A fé — esta é a mínima e ao mesmo tempo a absolutamente necessária condição para a justificação de todos os pecados.

Era em vão que os judeus se gabavam com suas qualidades exteriores e seu cumprimento dos rituais. Na verdade, eles eram transgressores conscientes dos mandamentos de Deus e portanto têm mais necessidade em misericórdia Divina, que os gentios, que eles desprezavam. E como toda a humanidade, sem exceção alguma é culpada, então após o sacrifício do Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus salva todos os pecadores através de uma coisa só — a fé. O apóstolo explica, que a fé não anula o lado religioso-moral das Escrituras Sagradas. A Lei de Deus permanece, porque ela ensina como levar uma vida justa, mas ela é fria e formal. Ela conduz, mas não fortalece o homem. No entanto, a fé aquece e dá-nos a força.

 

Nota 1. A palavra redenção, usada nas Escrituras Sagradas, é ligada à uma série de conceitos, tais como o pagamento de uma dívida, resgate de um refém, ou aquisição de algo em determinadas condições. No sentido espiritual, a palavra redenção é bem próxima à palavra de libertação. No tempo de Moisés, Deus redimiu (libertou) o seu povo da escravidão egípcia. Após a sua libertação do jugo dos seus escravizadores, desde aquele momento os judeus passaram a ser a propriedade de Deus, seu Salvador (Êxodo 12:27 e 14:13: Isaías 63:9). O preço simbólico desta libertação dos judeus era o sangue do cordeiro imolado, com a qual os judeus deviam pintar as portas de suas casas. Assim foi constituído o feriado de Páscoa ainda durante o Velho Testamento, no qual, todo ano, os judeus imolavam um cordeiro imaculado, oferecendo-o a Deus. Este cordeiro de Páscoa era o protótipo do Nosso Senhor Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, O Qual derramou o Seu precioso sangue na cruz e assim nos libertou da escravidão ao diabo e reuniu a Deus — mas já não como escravos, mas como filhos pela graça. Os antigos hebreus sabiam perfeitamente que era preciso libertá-los, redimi-los para tirar lhes a culpa. As Escrituras Sagradas ensinavam que todo pecado deve ser lavado pelo sangue. Para a sua purificação e para a redenção dos seus pecados eles imolavam diversos animais, como sacrifício a Deus. Como o apóstolo Paulo explicou na sua Epístola aos Hebreus, estes sacrifícios por si só não tinham nenhum valor purificador. Mas eles recebiam a sua força pelo futuro Sacrifício Universal do Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, estes sacrifícios serviam para os judeus como um protótipo do sofrimento na cruz do Nosso Senhor Jesus Cristo, o Salvador do Mundo. O profeta Isaías fala sobre este Sacrifício Universal de Messias no capítulo 53 do seu livro.

 

Nota 2. Quando o apostolo Paulo fala sobre a lei, ele se refere à Tora — i.e., os primeiros cinco livros da Bíblia (o Pentateuco) escritos pelo Moisés (Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). A Tora se transformou, desde o começo, no código religioso-civil de leis do povo judeu. Além de normas morais (mandamentos Divinos), este código continha ainda uma grande quantidade de normas práticas, que regulavam a vida civil e familiar. Ele continha os dispositivos a respeito de diversos rituais, a observação do sábado e de diversas festas, prescrições sobre sacrifícios, sobre a comida pura e impura, leis sobre o casamento e divõrcio, regras de higiene e outros. Com o tempo estas prescrições se transformaram em leis complementares, e receberam o estatuto de obrigatoriedade. Estas leis complementares aos poucos ofuscaram a lei religioso-moral, e se transformaram num fardo pesado para o povo judeu, que era incapaz de segui-la ao pé da letra. (Mateus 23:4; Atos 15:28; Galatas 2:4). Porém, os escribas elaboraram uma fantástica casuística, que permitia com grande astúcia contornar as exigência da lei — não só rituais, como também morais. O apóstolo Paulo aqui mostra aos judeus, que a sua esperança de se justificar por rituais meramente externos é uma simples ilusão e que diante o juízo de Deus eles são pecadores maiores do que os gentios, porque eles violam conscientemente os mandamentos de Deus.

Quando o apóstolo Paulo fala sobre a abolição das obras da lei, ou simplesmente da lei, devemos entender que ele se refere ao lado ritual e formal e não aos mandamentos de Deus. Estes mandamentos não só não foram abolidos, mas os cristãos os cumprem com um rigor ainda maior. De um modo geral, a palavra obra sempre necessita de uma explicação. Há, por exemplo, obras do mal, há obras da lei, e também há obras boas — e isto tudo são conceitos diferentes. Obras boas — isto é a manifestação natural da fé e do amor. O cristão sem as obras boas é igual à uma árvore sem frutos.

 

Nota 3. Como podemos deduzir do contexto de sua epístola, quando o apóstolo Paulo fala sobre a ele se refere à uma volta radical à Deus, e não à uma aceitação racional de determinados conceitos religiosos. A verdadeira fé deve ser viva e ativa. Tal fé deve incluir o sincero reconhecimento de culpa perante Deus, um profundo arrependimento, uma sincera vontade de viver daqui para frente uma vida justa, em glória de Deus e para o bem de todos. Tal fé é ligada à profundas modificações internas. Os hebreus, que cresceram numa atmosfera de legalidade da lei do Velho Testamento não entendiam o significado da fé. Eles se acostumaram a encarar a fé do lado puramente formal: quem descende de Abraão e é circuncidado é automaticamente escolhido e justificado perante Deus. Quanto mais obras da lei cumpres, tanto mais bens receberás de Deus. A mentalidade era quase mercantil. O apóstolo prova, que tal conceito não tem nenhuma comprovação nas Escrituras Sagradas. A fé realiza esta viagem interna necessária para dirigir o homem ao caminho certo. A fé faz o homem obediente a Deus e receptível aos dons Divinos.

Para convencer os hebreus da preferência da fé ante as obras da lei, o apóstolo Paulo dedica o quarto capítulo de sua Epístola aos Romanos ao exemplo da fé de Abraão.

 

Abraão é o pai de todos que têm a fé.

(4:1-25)

Abraão, progenitor dos hebreus, árabes e alguns outros povos semitas é um dos maiores justos do Velho Testamento. Ele viveu 2.000 anos a.C., na época, em que a maioria dos homens começou a esquecer Deus verdadeiro, rendendo cultos aos deuses pagãos. Render culto aos pseudo deuses começou a ser considerado como uma coisa moderna e começou a ser enriquecido por muita suntuosidade, penetrando cada vez mais fundo na vida pública e particular dos povos do Oriente Médio. Esta tentação era tão grande, que até os parentes de Abraão, que naquela época viviam em Ur Caldeu (no Golfo Pérsico), começaram a se corromper. Para manter a fé verdadeira pelo menos num povo, Deus aparece ao Abraão e lhe manda sair da sua tribo e se mudar para um país completamente estranho para ele — a Terra de Canaã (o futuro Israel).

Naquela época, Abraão já era uma pessoa de uma certa idade e ele obedeceu a Deus, deixou os seus parentes e suas posses, e junto com a sua esposa Sara e seu sobrinho Lot se mudou para Canaã, onde começou uma vida nômade. A sua vida está descrita no livro de Gênese (11:27-25:11). Aqueles que foram obrigados a sair de sua pátria e começar a viver num país estranho, podem compreender quais as dificuldades que esperavam por Abraão. As dificuldades que vieram como a conseqüência de sua obediência eram tanto maiores, que naquela época ainda não existiam estradas, restaurantes, hotéis e nem legislação, não havia policiamento e nem sociedades humanitárias. Uma ordem mínima era conseguida apenas com o fato de que todos viviam em grandes famílias e naquelas famílias cada um apoiava e defendia os outros. Se desligar da sua família e ir morar num país estranho oferecia grandes riscos. Abraão mostrou a sua grande fé em Deus com a sua obediência.

A vida do Abraão num país estranho, entre um povo que falava uma língua desconhecida e tinha costumes estranhos, era muito dura e triste. Algumas das tribos canáneias, como por exemplo os habitantes da Sodoma e Gomorra, eram tão depravadas, que Deus os exterminou pelo fogo. Os príncipes pagãos, se aproveitando várias vezes da situação de estrangeiro de Abraão, lhe seqüestraram a bela mulher Sara. A própria vida de Abraão, estava varias vezes em perigo. Todavia, nos momentos mais difíceis Deus ajudava ao Abraão e tudo se resolvia de maneira satisfatória. Assim Deus cumpria a sua promessa de ajudar ao Abraão em tudo.

Porém Deus demorava a cumprir a sua promessa principal — de dar-lhe um filho. Passou-se um quarto de século da mudança de Abraão para Canaã e Sara não ficava grávida porque pela sua própria natureza era estéril. Neste período Abraão já conseguiu reunir muitas ovelhas e outros animais bem como outras posses,mas toda esta sua riqueza podia passar para outra pessoa. Abraão já tinha 75 anos, quando, muito triste, durante uma noite saiu um pouco da casa para descansar. Inesperadamente Deus apareceu ao Abraão e disse: "Olha o céu e conta as estrelas ... tantos descendentes terás." E mais adiante o livro de Gênese nos transmite aquelas palavras maravilhosas de Abraão, que o apóstolo Paulo lembra aos hebreus, como exemplo de obediência: "Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado na conta para a justificação" (Gênese 15:5-6). Pela lógica humana, era absolutamente impossível que a estéril Sara poderia gerar um filho. Se ela não podia ter um filho na sua juventude, na velhice isto era impossível. Porém Abraão não duvidou da promessa, e Deus lhe imputou isto na conta para a justificação.

Mas, mesmo assim, Deus continuou a tentar a obediência de Abraão durante mais um quarto de século e não mandava um filho para a Sara. Abraão tinha 90 anos, quando Deus lhe apareceu na forma de três peregrinos (Gênese, capítulo 17) e confirmou a Sara a sua promessa de lhe mandar um filho. E foi aqui que Deus fez a aliança com Abraão e mandou que todos os descendentes dele sejam circuncidados. E realmente, logo depois, Sara, contra todas as leis da maternidade, ficou grávida e no tempo certo deu à luz um filho, que foi chamado de Isaac. A felicidade desta família ficou completa: a fé venceu todas as leis da natureza!

O apóstolo Paulo, na sua Epístola, omite muitos detalhes destes acontecimentos, que os hebreus conheciam muito bem, mas se detém na explicação da parte principal. Abraão era justo não pela circuncisão, ou pelo cumprimento dos rituais, mas pela sua fé.

 

Que diremos ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne ? Se Abraão deveras se justificou por meio de suas obras, tem de que gloriar-se. Mas não perante Deus. Pois, a Escritura não afirma: "Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado na conta para a justificação?" (Gênese 15:6). Ora, o salário não é uma gratificação pelo trabalho, mas uma dívida. Mas, quem, em lugar de trabalhar, crê n’Aquele que justifica o ímpio, essa sua fé é contada como justificação. Por isso Davi proclama bem-aventurado o homem a quem Deus atribui a justificação sem obras: "Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades foram perdoadas e cujos pecados foram cobertos! Bem-aventurado o homem cujo pecado o Senhor não toma em conta" (Salmo 31:1-2). Valerá esta bem-aventurança só para os circuncisos ou também para os incircuncisos ? Afirmamos, com efeito, que a fé de Abraão lhe foi contada na justificação. (Romanos 4:1-9).

Mas como ela lhe foi imputada ? Depois de circuncidado ou antes de circuncidado? Não foi depois da circuncisão, mas antes! De forma que ele recebeu o sinal da circuncisão como selo da justificação, obtida já antes de circuncidado, em virtude da fé. Assim, ele se tornou pai de todos os incircuncisos que crêem, para que também eles fossem justificados. Pai, outrossim, dos circuncisos, não só dos que trazem a circuncisão, mas também dos que seguem as pegadas da fé, a qual nosso pai Abraão tivera antes de circuncidado. A promessa feita a Abraão ou à sua posteridade, de serem herdeiros do mundo, não lhes foi feita em virtude da Lei, mas da justificação da fé. Pois, se os adeptos da Lei forem os herdeiros, está desvirtuada a fé e ab-rogada a promessa; porque a Lei gera o castigo da ira divina. Não havendo lei, não haveria transgressão. (Romanos 4:10-15).

 

Os hebreus achavam-se superiores pois eram descendentes de Abraão. O apóstolo Paulo explica, que além do parentesco físico, existe ainda o parentesco espiritual, que é muito mais importante. Os homens se aproximam uns dos outros muito mais por qualidades espirituais do que as físicas. Mesmo que todos os hebreus eram descendentes de Abraão, muitos deles eram lhe completamente estranhos espiritualmente, porque se recusavam a crer e se opuseram a Deus. Porém os gentios, que não tinham nenhum parentesco com Abraão, graças a sua fé se tornavam seus herdeiros espirituais. E isso justifica completamente a promessa de Deus que Abraão será o pai de muitos povos. Estes descendentes não serão tanto os descendentes físicos, como espirituais (veja esta mesma idéia na epístola aos Galatas 3:7). E foi a este parentesco espiritual que Nosso Senhor Jesus Cristo se referiu, quando disse aos hebreus acerca do centurião romano: "Digo vos, pois, que muitos irão do oriente e do ocidente assentar-se à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus , enquanto os cidadãos do Reino (descendentes físicos — hebreus) serão lançados às trevas de fora, onde haverá pranto e ranger de dentes" (Mateus 8:11-12.)

Mais adiante o apóstolo Paulo nos lembra de um exemplo de fé ainda mais impressionante do que a fé de Abraão, quando Deus exigiu que ele imolasse o seu filho, Isaac. Este caso comovente está descrito na Gênese no capítulo 22. Naquela época Isaac tinha 12 anos. Os sacrifícios humanos eram desconhecidos na religião dos judeus. Alguns povos pagãos, na época da maior decadência da sua fé, os faziam. E mesmo assim, não obstante ao absurdo desta exigência de Deus e à maior tragédia pessoal, Abraão obedeceu a Deus. Ele colocou um maço de lenha nas costas de Isaac e começou a subir o monte Moria.. A tradição diz, que este foi o lugar, onde mais tarde, foi crucificado Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando eles chegaram até o pico do monte, Isaac, que não suspeitava de nada, perguntou ao pai: "Aqui estão o fogo e a lenha, mas onde se acha o cordeiro para o sacrifício ?" Abraão mal conseguia conter as lágrimas, mas respondeu: "Deus providenciará o cordeiro para o sacrifício, meu filho." E somente depois que Abraão já levantou a faca para sacrificar Isaac, Deus mandou o Seu Anjo para deter Abraão do sacrifício daquele, que ele pediu durante tantos anos e quem ele amou tanto. E depois disse Deus à Abraão: "Juro-te por Mim mesmo, palavra de Javé, pois que tal coisa fizeste e não Me recusaste teu filho, teu único filho, Eu te cumularei de benção e tornarei tua descendência tão numerosa como as estrelas do céu e a areia que está na praia do mar ... todos os povos da terra serão abençoados por meio de tua descendência, (o teu descendente — i.e. Cristo, veja Epístola aos Galatas 3:16), porque obedeceste à Minha voz." Deste episódio, o apostolo tira a seguinte conclusão:

 

Logo, a herança procede da fé , comprovando-se assim ter sido em virtude de dom gratuito que está garantida a promessa para toda a descendência, tanto dos filhos da Lei como dos filhos da fé em Abraão proclamando pai de todos nós. Em verdade diz a Escritura: ‘Eu te fiz pai de muitos povos’ (Gênese 17:5). Ele é pai ante Deus, porque acreditou n’Aquele que dá vida aos mortos e existência ao que não existe. Creu ele, contra toda a esperança, na promessa; por isso é que se tornou pai de muitos povos, como lhe fora dito: ‘Assim será a tua descendência’ (Romanos 4:16-18; Gênese 15:5).

Não vacilou na fé, embora, contando quase cem anos, soubesse já desfalecido o vigor do seu corpo e definhado o seio de Sara. Contudo, à vista da promessa Divina, não desalentou, deixando-se levar pela incredulidade. Antes, fortalecido pela fé, deu glória a Deus, convicto que Ele é poderoso também para cumprir. Por isso sua fé lhe foi imputada em conta da justificação (4:19-22.)

Mas, não só por causa dele é que foi escrito que a fé lhe foi imputada na conta da justificação. Foi também por nossa causa, sendo que nossa fé deve ser-nos imputada se crermos n’Aquele que dos mortos ressuscitou Jesus, nosso Senhor, o qual foi sacrificado por nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação. (4:23-25.)

 

Aqui o apóstolo explica, que ao se preparar para cumprir a ordem de Deus, Abraão creu, que Deus cumprirá a Sua promessa a respeito da descendência e ressuscitará Isaac dos mortos. Esta foi uma fé tão forte, que até pode servir de exemplo no Novo Testamento.

O apóstolo explica, que ele escreve tudo isso para que nos também acreditassem na força do sacrifício redentor de Cristo, Que ressuscitou, para nos justificar e fazer herdeiros das promessas feitas ao Abraão.

Nas epístolas aos Galatas (capítulo 3) e aos Hebreus (capítulo 11) o apóstolo se refere novamente ao exemplo da fé de Abraão, dando assim exemplo de uma fé viva — uma fé que se demonstra em obras boas: Abraão verdadeiramente obedeceu a Deus (Tiago 2:20-23). Os protestantes, que contrapõem a fé às obras, tentam enfraquecer o argumento, ao qual se refere o apóstolo Paulo. M. Lutero, fundador do protestantismo, até contestava a autenticidade da epístola do apóstolo Paulo, argumentando que nesta epístola o apóstolo sublinha a importância de obras boas o que, de acordo com Lutero, contradiz a fé que justifica.

No entanto, aqui temos a mais completa má interpretação do pensamento do apóstolo Paulo a respeito da fé e das obras. Quando o apóstolo fala sobre a inutilidade das obras da lei, ele não abole obras boas, mas rituais. No contexto de tudo o que foi dito pelo apóstolo a respeito da fé de Abraão, se percebe, que toda a força e a grandeza da fé se demonstraram no ato de Abraão. A sua fé não era uma fé teórica, mas uma fé viva. Durante mais de cinqüenta anos ele superava em si mesmo as dúvidas a respeito da promessa de Deus acerca do herdeiro. Ele não se permitiu proferir nenhuma palavra de descontentamento mesmo quando Deus exigiu o sacrifício do seu filho tão esperado, mas se curvou com humildade diante da vontade de Deus. Abraão demonstrou a sua fé na mais completa obediência a Deus e devoção à Ele. Deus espera de nós a nossa completa devoção, a nossa entrega a Ele de todos os nossos pensamentos, desejos e atos, e não somente uma fria aceitação, ou um suspiro de uma efêmera inspiração, pois Ele é o nosso Guia. Devemos alcançar uma harmonia entre as nossas convicções interiores e nossa atividade exterior. A verdadeira fé obrigatoriamente age através do amor (Galatas 5:6). Ela não pode ser contraposta às obras boas — pois ela é uma parte inerente delas, assim como a alma e o corpo constituem o homem vivo.

 

Absolvição pelo sangue de Cristo.

(Romanos 5:1-11)

Após explicar a necessidade da fé, o apóstolo volta de novo para o seu tema principal a respeito do resultado da redenção de Cristo. Com o Seu sangue precioso, Nosso Senhor Jesus Cristo não só nos libertou da condenação, mas também nos trouxe grandes bens: Ele nos reconciliou com Deus, nos proporcionou a benção do Espírito Santo e a eterna felicidade no Reino dos Céus. A benção de Deus enche o coração de um fiel com uma paz indescritível e um sentimento de amor à Deus e dá-lhe forças espirituais suficientes para superar todas as provações. O apóstolo o explica nas seguintes palavras:

 

Assim, justificados pela fé, temos paz com Deus, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, por cuja mediação alcançamos esta graça em que agora vivemos, alimentando à esperança da glória de Deus. Não somente isso: até nos ufanamos nas tribulações. Pois estamos certos de que a tribulação engendra constância, a constância prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. A esperança, porém, não ilude. Porque a caridade de Deus está derramada em nossos corações, pelo Espírito Santo, que nos foi dado (5:1-5).

 

Um homem, que ainda não chegou à maturidade espiritual geralmente acha difícil se conformar com as suas provações. Ele é tentado pelo seguinte pensamento: se Deus me realmente ama e cuida de mim, porque Ele deixou que a desgraça se abatesse sobre mim ? O apóstolo explica, que as desgraças e as provações são necessárias para o nosso crescimento espiritual e portanto fazem parte do plano Divino sobre a nossa salvação. Primeiro, as provações desenvolvem a paciência. O cristão se torna mais constante, mais firme e mais corajoso. Ao mesmo tempo, ele se enriquece com prática espiritual e se torna mais experiente na vida espiritual. Ao crescer espiritualmente, ele começa sentir mais a proximidade de Deus e Seu grande amor. Deste sentimento nasce na alma dele uma resposta: grande amor a Deus; ele se torna mais apaziguado e mais sereno. Agora todas estas riquezas espirituais, que antes ele só conhecia através de relatos de outras pessoas se tornam o seu patrimônio pessoal. Sem as provações, ele ficaria como um bebe no plano espiritual. Os apóstolos Tiago (Tiago 1:2-4) e Pedro (1 Pedro 1:7 e 2 Pedro 1:6) se referem da mesma forma à necessidade das provações. Falando sobre o crescimento espiritual, o apóstolo Paulo nos dá o exemplo do Nosso Senhor Jesus Cristo:

 

Quando éramos ainda fracos, morreu Cristo pelos pecadores. Dificilmente haverá quem morra por um justo. Digo: por um homem de bem, talvez haja quem se atreva a morrer. Mas Deus demonstrou Seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, quando éramos ainda pecadores. Ora, com maior razão, quando justificados pelo sangue Dele, seremos preservados por Ele da ira Divina. Se fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, quando éramos inimigos, com maior razão, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua vida. Ainda mais: ufanamo-nos até em Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual temos alcançado a reconciliação. (5:6-11).

 

Mais adiante, o apóstolo volta para o problema do pecado, mas já não do ponto de visto de uma transgressão pessoal da vontade de Deus, mas do ponto de vista da sua força destruidora, que penetrou até a profundidade da natureza humana e a corrompe por dentro.

 

A morte veio de Adão, a vida veio de Cristo.

(5:12-21)

O apóstolo explica, que a causa primordial da nossa mortalidade não são os nossos pecados pessoais, mas aquela danificação moral, que todos nos herdamos de Adão. O apóstolo explica isto assim:

 

Por isso, como por um só homem [Adão] o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, também a morte passou [de um homem] para todos os homens, visto que todos pecaram [no Adão]. Antes de existir a Lei [de Moisés] havia pecado no mundo. Mas o pecado não era imputado, porque não havia Lei. Contudo, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram com uma transgressão semelhante àquela de Adão, figura daquele que devia vir [Adão — Cristo]. (5:12-14).

 

Os hebreus achavam, que os homens morrem porque transgridem os mandamentos de Deus. O apóstolo objeta, que até Moisés não havia lei e portanto não tinha o que transgredir. E as transgressões da lei de consciência, que não era escrita, não eram geralmente tão sérias para serem punidas com a morte. Mas mesmo assim, mais cedo ou mais tarde, todos morriam, até mesmo crianças de colo. Deste modo, a razão da morte dos homens não é conseqüência de pecados pessoais, mas todos nos já nascemos com a natureza mortal. Esta mortalidade nos herdamos de Adão.

A ligação entre a morte do homem e o pecado foi estabelecida ainda no Éden. Ao criar Adão e instalando-o no paraíso, Deus lhe disse: "De todas as árvores do jardim podes comer à vontade. Só não podes comer da árvore da ciência do bem e do mal. No dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gênese 2:16-17). Na realidade, a morte, como a destruição biologia, já existia no mundo vegetal e animal ainda antes do aparecimento do primeiro homem, e consequentemente antes do pecado. Porém, pelo que diz a Bíblia, ao criar o homem conforme a Sua imagem e semelhança, Deus pretendia libertar o homem da lei geral da destruição e para isso criou no paraíso a árvore da vida. Provavelmente, os frutos desta árvore misteriosa tinham a propriedade de renovar o organismo humano, eliminando ou compensando de alguma forma o processo natural de envelhecimento do organismo. Entretanto, a biologia moderna sabe, que nem todas as células orgânicas envelhecem e morrem. Por exemplo, quando as células normais do corpo envelhecem a cada multiplicação, tanto que após uns 60 ciclos são inúteis para o organismo, as células cancerígenas se dividem e multiplicam muitas vezes, pelo visto, até infinitamente. Possivelmente, quando o homem comeu o fruto proíbido, isto trouxe alguma coisa para o organismo, que apressou o processo de envelhecimento das células. Mas, mesmo assim, conforme a Bíblia, sabemos que Adão teria a possibilidade de prolongar a sua vida física, se comesse regularmente da árvore da vida. Mas Deus não o permitiu. (Gênese 3:24), conforme explica são Gregório Teólogo, para que "o pecado não se tornasse imortal." Com a morte física do homem morre também o pecado, que mora dentro do homem. Assim, o maravilhoso sistema do Criador fez com que o castigo se tornou remédio — mesmo que só parcial. O total restabelecimento da nossa natureza foi condicionado à ressurreição de Cristo.

O problema de hereditariedade é muito complexo e, é só agora que a biologia começa a desvendar alguns de seus mistérios. O pecado original danificou a natureza do homem, não só a material, como — e principalmente — a espiritual. Assim, após a transgressão do mandamento a alma delegou ao corpo o lugar de destaque e como conseqüência, o homem se transformou num ser espiritualmente fraco, que facilmente cai na tentação da carne. Foram poucos os gigantes do espírito, tais como Abraão, Moisés ou o profeta Elias e outros parecidos com eles, que conseguiram se levantar acima do nível moral da sociedade. Mas, como sabemos da Bíblia, nem estes justos eram sempre irrepreensíveis. Sem Cristo, toda a humanidade seria condenada à escravidão do pecado e da decomposição.

Mas, assim como existe a hereditariedade fisiológica, assim existe também a espiritual. Cristo era o fundador de uma humanidade nova, renovada e a graça é mais forte que a escravidão do pecado. O Apóstolo diz:

 

Entretanto, com a graça não se dá o mesmo que com o delito. Pois, se pela falta de um só, todos morreram, com maior razão o dom de Deus e o benefício desta graça obtida por um só Homem, Jesus Cristo, superabundou para todos. Com a graça de Cristo não se dá o mesmo que com o pecado de um só homem [Adão], porque o pecado de um só ocasionou a sentença da condenação, enquanto a graça para muitos pecados é uma sentença de justificação. Porque, se pelo pecado de um só [homem] reinou a morte, devido à culpa de um só, muito mais reinarão na vida [eterna] os que receberam a abundância da graça e o dom a justificação, por obra de Jesus Cristo. (5:15-17).

 

Por outras palavras, a ressuscitadora graça de Cristo mostra a sua supremacia sobre o pecado no fato de que ela liberta o homem não só do pecado original, recebido como herança, mas também de todos os pecados pessoais e cura todas as suas doenças espirituais. De tudo isto o apóstolo faz a seguinte dedução:

 

Por conseguinte, como pelo delito de um só [homem] incorreram todos na sentença da condenação, assim também foram agraciados todos os homens, pela justiça de um só [Cristo], com a justificação que dá a vida. Assim, como pela desobediência de um só homem todos os homens se tornaram pecadores, também pela obediência de um só todos se tornarão justos. Sobrevindo a Lei [de Moisés], sobressaiu o pecado. Sobressaindo o pecado, excedeu a graça. Porque, como reinou o pecado pela morte, assim também domina a graça da justificação para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, Nosso Senhor (5:18-21).

 

Nos tempos de Moisés, o nível moral caiu tanto, que os homens deixaram de discernir o lícito do ilícito. A finalidade dos mandamentos dados ao homem através do profeta Moisés era ajudá-los a orientar-se nos seus problemas morais e éticos e a começar a viver uma vida justa. Porém os mandamentos somente podiam aconselhar e ensinar como viver, mas não podiam dar ao homem as forças morais necessárias para lutar contra as tentações. O pecado, como era parte inerente da natureza do homem, o compelia a fazer coisas contra os mandamentos, i.e., pecar conscientemente. Por isso, a condição moral do homem após os mandamentos era ainda pior do que antes, e o pecado ficou fortalecido ainda mais.

Mas tudo isso já é o passado! No Novo Testamento, a graça da ressurreição supera qualquer obstáculo, qualquer pecado e qualquer paixão; o antigo Adão dá o lugar à um Adão novo — Cristo. Antes os homens viviam de acordo com as leis da hereditariedade física, eram escravos morais do pecado, e eram condenados a morrer. Mas, homens, renovados espiritualmente nascem do Novo Adão e eles já são libertados da escravidão do pecado, eles são repletos de uma força espiritual benéfica que conduz à vida eterna. O apóstolo explica mais adiante, de que forma o homem se inicia nesta graça de Cristo.

 

 

A Força da Graça de Cristo.

(6:1-8:39)

Nos capítulos 6 à 8 de sua Epístola o apóstolo Paulo descreve detalhadamente todas aquelas modificações profundas, que acontecem num homem de fé com a obra do Espírito Santo. A partir do momento de batismo, Deus introduz o homem numa esfera de vida nova, ainda desconhecida por ele, onde, no lugar da formalidade da lei, atua a Sua graça vivificante. A graça de Deus ilumina o raciocínio do homem com idéias boas e lúcidas, alegra o seu coração com os sentimentos puros e elevados, e o inspira a fazer obras de amor e caridade. Esta reviravolta acontece por obra de Batismo.

 

Que diremos, pois ? Continuaremos a viver no pecado, para que abunde a graça ? De modo algum! Nós, que morremos para o pecado, como continuaremos a viver nele ? Ignorais acaso que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados para participar da Sua morte ? Com Ele fomos sepultados pelo batismo, para que, participando da Sua morte, vivamos, também nós, uma vida nova, como Ele, que ressuscitou dentre os mortos pela glória do Pai (6:1-4).

Porque, se estamos incorporados Nele, pela semelhança com Sua morte, com certeza também o seremos pela semelhança com Sua ressurreição. Bem o sabemos: o nosso homem velho foi crucificado em nós, para que desapareça o corpo sujeito ao pecado, de forma a não mais vivermos escravizados ao pecado. Com efeito, quem morreu está imune ao pecado. Ora, se morremos com Cristo, temos fé que também com Ele viveremos. Pois sabemos, que Cristo tendo ressurgido dentre os mortos, já não morre: a morte já não tem poder sobre Ele; morrendo Ele, morreu uma vez só pelo pecado. Vivendo agora, vive sempre para Deus. Do mesmo modo, considerai-vos, também vós, como mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus, Nosso Senhor (6:5-11).

 

Adão pecou e por isso morreu. Nós herdamos dele a natureza pecaminosa e portanto devemos morrer. Mas Cristo, como isento do pecado, não era sujeito à lei da morte e portanto podia viver eternamente no Seu corpo humano. Porém ele morreu por nós voluntariamente. A Sua morte não era a conseqüência de um pecado pessoal, mas obra do maior amor, para libertar todos dos pecados. E por isso, ao morrer na cruz, Ele deu um novo conteúdo à morte: desde então ela não é um castigo pelo pecado, mas uma eliminação do pecado. No primeiro Adão, o pecado e a morte eram companheiros inseparáveis, no segundo Adão, Cristo, o pecado e a morte se tornaram inimigos irreconciliáveis. Ao ser imerso na água de Batismo, o homem é ligado à morte redentora de Cristo e morre para o pecado.

Desta forma, o Batismo tem dois lados: o exterior — simbólico e o interior — espiritual. A imersão três vezes simboliza o sepultamento junto com Cristo e a saída da água — a ressurreição com Ele. Nestes atos do Batismo há simultaneamente uma força renovadora Divina, invisível, que limpa o homem de toda e qualquer mácula moral, lhe proporciona novas forças morais e faz do neobatizado um filho de Deus pela graça e membro do Reino dos Céus. Neste ato o homem fiel se renova para o melhor, de verdade, e não só simbolicamente. Desde este momento, ele começa sentir a necessidade de um contato pessoal com Deus, o desejo de fazer bem, ele anseia por justiça. Eis porque é tão necessário a todos que querem se batizar, se prepararem para este grande mistério com toda a seriedade; depois do Batismo, o homem deve se conter de todos os seus costumes pecaminosos e deve fazer o possível para reter em si por mais tempo possível os dons de graça recebidos no Batismo. O apóstolo diz:

 

Não reine, pois, o pecado em vosso corpo mortal, sujeitando-vos às suas paixões! Não ponhais vossos membros a serviço do pecado como armas de iniqüidade; mas, como quem ressurgiu da morte para a vida, ponde-vos, a vós e a vossos membros, quais armas de justiça, a serviço de Deus. Pois, o pecado já não deverá dominar sobre vós, por não vivermos sob o regime da Lei, mas da graça. (6:12-14).

 

O sentido deste trecho é que todos os atos do homem deixam uma certa marca no seu caráter. As obras do bem deixam bons costumes, as obras do pecado dão origem aos vícios. O Batismo limpa a sujeira moral e cura as feridas do pecado, porém não é de imediato que alisa as cicatrizes dos pecados, adquiridos durante muitos anos. Por isso, mesmo depois do Batismo, os maus costumes podem incitar o homem a cometer pecados, mas eles não o obrigarão a fazer isto. A graça do Batismo proporciona ao cristão as forças espirituais, necessárias para vencer os maus costumes, mas ao mesmo tempo, é necessária também a sua boa vontade pessoal e perseverança, para exterminar de dentro da alma todos os sinais de vícios anteriores. Deus oferece o remédio ao doente, e nos devemos usá-lo, para receber a necessária ajuda.

 

Da escravidão à uma vida nova.

(6:15-7:12).

Mais adiante, o apóstolo Paulo convoca a todos os recém batizados a trocar os seus antigos maus costumes por novos, bons. A propriedade do pecado é escravizar o homem. Antes do Batismo o homem sofre e lastima, que age mal, mas não tem forças para se livrar do vício que o escraviza. O apóstolo conclama todos os vacilantes fiéis a deixarem de ser escravos do pecado e se transformarem em escravos da justiça. E logo aqui ele explica que a obediência à justiça não é nenhuma escravidão, mas a maior liberdade interna possível:

 

Que concluir daí ? Que podemos pecar, por não vivermos sob o regime da Lei, mas da graça ? De maneira alguma! Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe obedecer , sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência a Deus para a justificação ? Graças a Deus: escravos outrora do pecado, sujeitastes-vos agora de todo o coração àquela forma de doutrina que abraçastes. E, livres do pecado, passastes a servir à justiça. Em atenção à fraqueza de vossa carne, falo à maneira humana. Pois bem! Do mesmo modo que pusestes, quais escravos, vossos membros a serviço da impureza, assim os ponde agora a serviço da justiça, colimando a santidade (6:15-19).

Porque quando éreis escravos do pecado, vós vos vangloriáveis da emancipação da justiça. Que fruto tirastes, então ? Frutos de que vos envergonhais agora. O fim deles é a morte. Agora, porém, emancipados do pecado e feitos servos de Deus, colheis, como fruto, a santidade e, como prêmio, a vida eterna. Pois o salário do pecado é a morte; a graça de Deus, porém, é vida eterna em Cristo Jesus, Nosso Senhor. (6:20-23).

 

O pensamento principal do apóstolo é que seria uma pura loucura, se o cristão se deixasse escravizar por vícios anteriores. Do ponto de vista abstrato, não resta dúvida de que devemos escolher entre o bem e o mal. Mas o grande problema é que o diabo é um ótimo hipnotizador e sabe esconder o veneno mortal do pecado sob uma bonita casca do prazer. Ele incute ao homem que a indulgencia ao pecado não representa nada de horrível; Deus é misericordioso e no final das contas tudo vai sair bem. E quando o homem morde esta isca, o diabo o leva a pecados sempre maiores, lhes dizendo, que o homem é fraco demais para se opor à própria natureza. Assim, o cristão por sua própria leviandade pode cair nas redes do diabo e se envolver de novo em pecados.

Os judeus não podiam não concordar com as conclusões do apostolo Paulo acerca do estrago do pecado. Porém, eles não tinha uma idéia muito clara acerca da vantagem do cristianismo sobre a lei de Moisés. Pois bem, a lei de Moisés também condena o pecado e conclama à uma vida justa. Para que se batizar, se a lei de Moisés pode levar aos mesmos resultados ? Eles achavam, que os mandamentos de Moisés são as normas eternas para uma vida justa, e o cristianismo é um novo ensinamento, que ainda não foi verificado.

O apóstolo explica, que a lei de Moisés só podia ter um significado obrigatório até a vinda de Cristo. A lei tinha bastante tempo para ajudar aos homens se renovarem moralmente. Mas como se verificou, que ela era impotente de fazer isto, Deus resolveu aboli-la e agora oferece aos homens outro caminho da salvação. O apóstolo ilustra esta sua tese com uma referência ao casamento.

 

Ignorais, acaso, irmãos — falo a quem entende de leis — que a Lei só tem poder sobre o homem enquanto vive ? A mulher casada, por exemplo, está vinculada por lei, ao marido, enquanto este viver. Morto o marido, está livre da lei que a vinculava ao marido. Por isso, se ela se unir a outro homem, vivendo o marido, será chamada adúltera. Morrendo, porém, o marido, está livre dessa lei e não será adúltera, se tornar-se mulher de outro homem (7:1-3).

Por conseguinte, meus irmãos, estais mortos para a Lei pelo corpo de Cristo, para pertencerdes a outrem, Àquele que ressurgiu dos mortos para darmos frutos a Deus. Enquanto vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas, excitadas pela Lei, produziam em nossos membros fruto para a morte. Agora, porém, emancipados da Lei, estamos mortos para ela que nos trazia presos, a fim de podermos servir conforme um espírito novo e não segundo a antiga lei (7:4-6).

 

Por outras palavras, Cristo nos libertou da escravidão ao pecado bem como dos vínculos da lei de Moisés. Agora nos podemos servir a Deus com uma alma renovada e não somente por uma obediência cega de regras velhas e antiquadas.

O apóstolo nos adverte de uma conclusão errada, de que na lei poderia estar a causa do pecado: se não houvesse a lei, não haveria também o pecado. Não, a causa do pecado se encontra no próprio homem. A lei por si só é sagrada, os seus mandamentos são sagrados, justos e levam ao bem.

 

Que diremos, pois ? Que a Lei é pecado ? De modo algum! Mas não cheguei a conhecer o pecado senão por meio da Lei. Com efeito, nada saberia da concupiscência, se a Lei não preceituasse: "Não cobiçarás!" (Êxodo 20:16-17). Servindo a Lei de ensejo, excitou-se em mim toda espécie de concupiscência; pois não existindo a Lei, estaria morto o pecado. Outrora vivia sem a Lei. Sobrevindo, porém, o mandamento, surgiu em mim o pecado (7:7-9).

E então, estou morto. Aconteceu, que o mandamento, devendo levar-me para a vida, levou-me para a morte, porque o pecado, aproveitando-se do mandamento, seduziu e por ele me acarretou a morte. A Lei é sem dúvida santa; santo, justo e bom o mandamento (7:9-12).

 

Podemos perceber, que o apóstolo se volta de novo para o problema do pecado. No começo de sua epístola (Romanos 1:18-3:20), ele constatou o fato da natureza pecaminosa do homem, na sua segunda parte (Romanos 5:12-21) ele explicou, que todos os homens já nascem com a natureza danificada pelo pecado. Agora ele é ainda mais enfático na explicação, que ninguém se pode livrar do pecado e de sua ação destruidora por si só, só com as suas próprias forças.

 

O conflito interno.

(7:13-25)

 

Uma coisa boa se tornou, então, causa de morte ? Nada disso! Pelo contrário, foi o pecado que, para revelar toda a sua malícia, me acarretou a morte por aquilo que fora bom, patenteado, em vista do mandamento, sua extrema malícia. (7:13).

A Lei, bem o sabemos, é espiritual, enquanto que eu sou carnal, vendido ao pecado. Pois, não entendo o que faço. Não pratico aquilo que quero e faço o que aborreço. Ora, fazendo o que não quero, reconheço que a Lei é boa. Neste caso, porém, já não sou eu quem age, mas sim o pecado que habita em mim. Pois sei, que em mim, isto é, em minha carne, não habita o bem. Capaz eu sou de querer o bem, mas não de executá-lo (7;14-18).

Com efeito, não faço o bem que quero; mas o que não quero, o mal, eu o pratico. Ora, se faço o que não quero, então não sou eu quem age senão o pecado que habita em mim (7:19-20).

 

Este é um dos poucos lugares nas Escrituras Sagradas, onde com tanta clareza e tão tragicamente o homem é mostrado como um ser tão indefeso moralmente antes da vinda do Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Sinto imperar em mim uma lei: querendo fazer o bem, eis que o mal se apresenta a mim. Segundo o homem interior, acho satisfação na Lei de Deus; mas em meus membros experimento outra lei que se opõe à lei do meu espírito e me encadeia à lei do pecado que reina em meus membros (7:21-23).

Homem infeliz que sou! Quem me libertará desse corpo da morte! Graças sejam dadas a Deus! Fui libertado por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Dá-se pois o seguinte: sirvo com o espírito à Lei de Deus e com a carne à lei do pecado (7:24-26).

 

Esta última frase é a síntese de tudo que foi dito até agora: o homem é moralmente dividido — a natureza material manda ele pecar e a alma, apesar de querer o bem, não tem a força suficiente para vencer a carne.

Assim, o apóstolo usou todos estes sete capítulos para mostrar, com tanta clareza, ao homem toda a força destruidora do pecado e para convencer ao leitor de que é imprescindível procurar uma ajuda sobrenatural para lutar contra o mal em si mesmo. Nem a voz da consciência, nem os mandamentos diretos da lei, nem o medo do eterno tormento puderam reter o homem de atos pecaminosos. Isto é possível somente pela força Divina, que chega ao homem através a sua fé em Cristo Redentor.

Devemos lembrar-nos de que os ensinamentos do apóstolo mencionados acima são tão atuais nos dias de hoje, como eram 2000 anos atrás. A humanidade continua a sofrer por causa de seus problemas morais: injustiça, mentira, violência, guerras e os mais diversos crimes. Os estadistas e os lideres sociais não entendem, que o problema principal de todos os males é a danificação moral da natureza humana. Podemos editar uma infinidade de belas leis, inventar diversas organizações para lutar contra a criminalidade e outros males sociais. Mas estas medidas humanas são iguais à compressas na luta contra o câncer. É necessário um remédio radical e potente, para exterminar todas as raízes do mal dentro do homem. Este remédio é nos dado pelo Nosso Senhor Jesus Cristo. Na realidade, agora se repete o erro dos antigos adeptos da lei de Moisés, os quais declinavam a ajuda de Deus e tentavam se tornar justos somente por seus próprios meios e suas próprias forças e nesta sua ilusão se tornaram tão ferozes, que rejeitaram o maior Justo de todos os justos e o condenaram a morrer na cruz!

Somente Aquele Que criou o nosso coração espiritual pode curá-lô. Nosso Senhor Jesus Cristo extermina dentro de nos todas as raízes do mal e nos dá forças para vivermos uma vida justa. O grande obstáculo para resolver os problemas sociais se encontra hoje em dia em ensinamentos modernos, pseudo-científicos e religioso-filosóficos que rejeitam a própria existência do pecado e dizem, que todos os nossos desejos são completamente naturais e normais. Se alguém erra em alguma coisa, ou faz algo incorretamente, isto acontece somente por causa de imaturidade e ignorância. Espera um pouco e ele mesmo compreenderá, como se corrigir. É exatamente esta oportunidade, que o diabo espera! Deixa todos pensarem, que o mal é uma simples ilusão ou então uma curva temporária no caminho da evolução espiritual. Se nos não compreendermos o problema do pecado e não nos voltaremos a Cristo, com humildade e arrependimento, permaneceremos todos escravos do diabo, condenados à perdição. Sem Deus não há evolução, somente degeneração!

 

No seguinte capítulo o apóstolo fala com mais detalhes sobre a graça Divina e sobre a vida espiritual.

 

A vida no Espírito Santo.

(8:1-11)

Após a explicação do sacrifício de Cristo Redentor, o apóstolo quer convencer os cristãos a viver uma vida mais espiritual, com a ajuda da graça de Cristo. Ele diz:

 

Doravante, pois, não pesa condenação alguma sobre os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do espírito, que vivifica em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. O que, na verdade, era impossível à Lei [de Moisés] debilitada pelo poder da carne, isto fez Deus, o Qual, enviando Seu próprio Filho com uma carne semelhante à carne do pecado, em vista do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que as exigências justas da Lei se cumprissem em nós, que já não vivemos ao sabor da carne, mas segundo o espírito. Quem vive ao sabor da carne, aspira as coisas da carne; quem, porém, vive segundo o espírito, aspira as coisas do espírito. Tudo quanto aspira a carne é morte; tudo quanto aspira espírito é vida e paz. O apetite da carne é inimigo de Deus, pois não se sujeita à lei de Deus, nem o pode. Quem vive ao sabor da carne, não pode agradar a Deus (8:1-8).

 

Isto pode ser colocado em frase da seguinte forma: Até a chegada de Cristo, diabo se achava no direito de mandar na carne do homem, porque o homem pecou e assim se submeteu voluntariamente a ele. O diabo se fez como que um carrasco dos culpados; e do ponto de vista da formalidade, ele até tinha razão: ao atormentar e matar os pecadores, ele matava aquilo que era digno de morte. Mas aí apareceu Cristo em carne. No lugar de se retirar ante a santidade de Cristo, o diabo começou a lutar contra Ele com todo o seu ódio e no final das contas através dos pecadores que eram seus subordinados, ele conseguiu a sentença da morte de Cristo, o Qual, sem pecado, não era submetido nem à ele, nem à morte. O diabo visivelmente transgrediu os seus direitos e assim rompeu toda e qualquer justiça. Por isso, pela justiça de Deus, ele perdeu o seu domínio anterior sobre a carne humana, a qual se juntou à Cristo através do Batismo. Assim sendo, o diabo foi derrotado pela carne de Cristo. E por causa da ressurreição de Cristo os homens se livraram da escravidão do diabo e receberam a possibilidade de viver uma vida espiritual. O apóstolo diz:

 

Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se é que realmente o Espírito de Deus habita em vós. Quem não possui o Espírito de Cristo não pertence a Cristo. Se Cristo reinar em vós, embora o corpo esteja sujeito à morte, em conseqüência do pecado, vive o espírito por causa da justificação. Se habita em vós o Espírito d’Aquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus, Ele, então, que ressuscitou a Cristo Jesus dos mortos, dará também vida a vossos corpos mortais, em virtude de Seu Espírito que habita em vós (8:9-11).

 

A alegria de sermos adotados por Deus.

(8:12-17)

Nos somos guiados pelo Espírito Santo, nos somos filhos de Deus e por isso herdeiros de Sua glória, com a condição de que não nos recusamos a participar dos Seus sofrimentos:

 

Portanto, irmãos, nada devemos à carne, para vivermos segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis! Se, ao contrário, mortificardes, pelo Espírito, as obras das carnes, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus. Não recebestes, com efeito, o espírito da escravidão, para ainda viverdes com temor, mas recebestes o Espírito de filiação Que nos faz clamar: Abba! (Pai)! O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se com Ele padecermos, para sermos igualmente glorificados com Ele. (8:12-17).

 

A glória vindoura.

(8:18-30)

Da mesma forma como é mais fácil descer um declive, do que subí-lô, assim é mais fácil pecar, do que viver uma vida justa. Sabemos, pela própria experiência, que para conseguirmos algo bom e útil, devemos trabalhar com muita perseverança. Por isso, não devemos ter medo de dificuldades e provações, como de algo anormal, mas antes aceitá-las como os degraus, pelos quais ascendemos ao Reino do Céu. O apóstolo nos explica isto no contexto da vindoura renovação de toda a natureza:

 

Pois, tenho por certo que os padecimentos do tempo presente não têm proporção com a glória futura que em vós se há de manifestar. Em contínuos anelos a criação aguarda por esta manifestação dos filhos de Deus. Pois, as criaturas ficaram sujeitas à degradação, não por sua vontade, mas em razão de quem as sujeitou, na esperança de serem libertadas, também elas, da escravidão da corrupção, para participarem da liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Bem que sabemos que a criação inteira geme até agora, suspirando, transida de dor, por novo nascimento. Mas não somente ela, senão também nós mesmos, que possuímos as primícias do Espírito, gememos em nosso interior, esperando a filiação adotiva, a redenção do nosso corpo. Em verdade, temos sidos salvos na esperança. Como ainda pode esperar alguém o que vê? Se esperarmos, ao contrário, o que não vemos é com paciência que o aguardamos. (8:18-25).

 

Em outras palavras, o mundo inteiro criado pelo Criador — todo o mundo animal e vegetal incomoda-se com a correria e futilidade atual e espera por sua renovação. Naturalmente, eles esperam inconscientemente, apesar de que alguns animais mais desenvolvidos podem ter alguma esperança subconsciente de alguma vida mais perfeita. O principal pensamento do apóstolo é de que a natureza foi criada por Deus ainda na sua forma imperfeita, pois cabia ao homem, a obra-prima da criação, ainda atingir a perfeição com o seu próprio empenho. Quando a parte fiel dos homens chegar à este grau de evolução, aí também todo o mundo físico será renovado e se transformará num novo céu e uma nova terra (veja 2 Pedro, 3:13). Aí, na ressurreição global dos mortos, toda a natureza será renovada e toda a criação, junto com o homem será libertada das leis atuais de decomposição e destruição. Que aspecto terá a natureza? Será que lá teremos os animais e as plantas, por nos conhecidas? O apóstolo deixa estas perguntas sem resposta. Na Bíblia existem algumas alusões ao que o mundo novo será parecido com aquele que conhecemos hoje (Isaías 11:6-9, Isaías 65:17-25, Apocalipse 21 e 22). Mas isto tudo são somente suposições, pois naquele mundo espiritualizado o tempo, o espaço e todas as leis terão outro conteúdo.

O Espírito Santo nos acompanha à cada nosso passo de ascensão à Deus e nos ajuda. Ele nos ensina o que devemos almejar, o que devemos desejar e o que devemos pedir a Deus; é Ele que eleva as nossas preces ao Trono Divino.

 

Por isso o Espírito Santo vem em auxílio de nossa fraqueza, porque não sabemos o que havemos de pedir como convém. Mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inenarráveis. Aquele, porém, que esquadrinha os corações, conhece qual é o desejo do Espírito, porque Ele intercede pelos santos, segundo a vontade de Deus. (8:26-27).

 

O apóstolo nos lembra, de que desde a eternidade Deus determinou nos salvar. Ele cuida de nos constantemente, e transforma tudo - tanto o agradável, como o triste, para o nosso bem e nos leva à salvação.

 

Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, dos que, conforme Seus desígnios, são chamados. Os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem semelhantes à imagem de Seu Filho, para que Este seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também os chamou, e aos que chamou, também os justificou, e aos que justificou, também os glorificou (8:28-30).

 

Aqui nós não temos uma predestinação determinada, como ensinam algumas seitas, mas uma predestinação, que é baseada na onisciência Divina. Deus não predeterminou arbitrariamente alguns para a salvação e outros para a perdição, mas como onisciente, Ele sabia de que forma cada um de nós utilizará a liberdade recebida de Deus.

 

O amor de Deus é tudo para nós.

(8:31-39).

Como epílogo do seu ensinamento sobre a justificação pela graça de Cristo, o apóstolo eleva os pensamentos e os sentimentos dos leitores à recepção do onipotente amor de Deus, o que resulta no seguinte hino à graça de Deus:

 

Que concluiremos então? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Ele, que não poupou ao Próprio Filho, mas O entregou por todos nós, como não nos daria tudo juntamente com Ele? Quem se atreveria a acusar os eleitos de Deus? Deus é Quem os justifica! Quem os condenará? Jesus Cristo Que morreu, ou Que ressuscitou e se acha à direita de Deus, intercedendo por nós? (8:31-34).

Quem nos separará de amor de Cristo? Tribulação, ou aflição, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Pois está escrito: Por causa de Ti padecemos morte dia por dia; somos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro. (Romanos 8:35-36; Salmos 43:23).

De tudo isso, porém, saímos vencedores por meio d’Aquele que nos amou. Estou persuadido que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, nem altitude, nem profundeza, nem outra criatura qualquer nos poderá separar do amor que Deus nos manifesta em Cristo Jesus, Nosso Senhor (Romanos 8:37-39).

 

 

A Missão de Israel.

(Romanos 9:1-11:36).

O apóstolo Paulo amou o seu povo com todo o seu ardor, e o seu coração sangrava quando percebia, que muitos dos seus conterrâneos eram contra a pregação do Evangelho. O apóstolo percebia aqui a trágica diferença entre o que deveria ser conforme as promessas dos profetas e o que acontecia na prática. Quando Deus preparava os judeus à vinda de Messias, Ele os deu a honra de serem os primeiros habitantes do Reino de Deus e pregadores da verdadeira fé no meio de outros povos. Mas, o apóstolo se convencia, dia a dia, que os seus compatriotas não se portam como um povo eleito por Deus, mas antes, são contra Deus. Ao mesmo tempo, os gentios, que at