São Serafim

de Sarov

 

 

Conteúdo:

 

Primeira Parte — Na Sombra.

Pano de Fundo. O Deserto. O Noviço. A Herança do Hesiquiasmo. A Doença. Monge — Diácono — Presbítero. O Eremita. "Pequeno Deserto Longínquo." O Cosmos. As Feras. O Demônio. O Jejum. A Oração. O Perdão das Ofensas. O Silêncio. A Paz. O Recluso.

Segunda Parte — Em Plena Luz.

Retorno no Tempo. O Imperador. O Staretz. O Resultado da Ascese. Da Clarividência. Paternidade Maternal. Ascese e Símbolos As Mulheres. A História de uma Gargalhada. As Crianças. Uma Outra Imagem. O Taumaturgo. Antes de Lourdes. O Higumeno Nifonte. Diveyevo. As Igrejas. A Regra. Milagres. A Morte. A Primeira Andorinha. Tristes Pressentimentos. A Gloriosa Rainha do Céu.

Terceira Parte — O Espírito Santo.

O Portador de Uma Mensagem. O Objetivo da Vida Cristã. O Objetivo da Vida Cristã Consiste na Aquisição do Espírito Santo. Ver Deus. Na Rússia. Orgulho Intelectual — Barreira à Visão. Difusão da Mensagem. Monge e Leigo. Nossa Conduta Cá Embaixo. Transfiguração. A Grande Partida. Os que Ficam. Tribulações Preditas. O "Visitante Estrangeiro." Um Pouco de Loucura. Pelagia. Parasceva. Em Plena Ação. O Desenlace. Epílogo. A Canonização. Terríveis Perspectivas.

São Serafim e os Novos Tempos.

A Loucura da Cruz. A "Theotokos, Mãe de Deus" e a Mulher Russa. Influência Póstuma. Alcance Mundial da Mensagem de São Serafim.

 

II. O Encontro Com Motovilov.

O Encontro com Motovilov. O Verdadeiro Objetivo da Vida Cristã. Em Nome de Cristo. A Aquisição do Espírito Santo. A Parábola das Virgens. A Oração. Quando a Oração Cede a Vez ao Espírito Santo. Comércio Espiritual. Ver Deus. A Criação. A Árvore da Vida e o Pecado Original. O Espírito de Deus no Antigo Testamento. O Espírito de Deus entre os Pagãos. A Vinda de Cristo Revelada pelo Espírito Santo. Renovação do "Fôlego de Vida" Perdido por Adão. O Pentecostes. O Batismo. Arrependimento. O Sangue do Cordeiro Dado em Troca do Fruto da Árvore da Vida. A Virgem Maria. Diferença entre a Ação do Espírito Santo e a do maligno. A Graça do Espírito Santo é Luz. Presença do Espírito Santo. A Luz Incriada. Difusão da Mensagem. Monge e Leigo. Legitimidade dos Bens Terrestres. Atividade Missionária. Poder da Fé.

 

III. As Instruções Espirituais.

Deus. Razões por Que Cristo Veio a Este Mundo. Da Fé. Da Esperança. Do Amor de Deus. Contra a Inquietude Inútil. Do Cuidado da Alma. De Que Devemos Munir a Alma? Da Paz da Alma. Como Conservar a Paz da Alma? Da Guarda do Coração. Das Tentações. Do Discernimento dos Espíritos. Da Contrição. Da Oração. Da Luz de Cristo. Da Atenção. Do Temor de Deus. Do Desapego do Mundo. Da Vida Ativa e Contemplativa. Da Solidão e do Silêncio da Multiplicidade das Palavras do Silêncio Interior. Das Façanhas Ascéticas. Da Resistência às Tentações. Da Tristeza — do Tédio — do Desespero. Da Doença. Dever e Amor para com o Próximo. Do Julgamento do Próximo. Do Perdão das Ofensas. Da Paciência e da Humildade. Da Misericórdia. Regra de Oração.

 

 

 

 

Primeira Parte

— Na Sombra.

 

Pano de Fundo.

No dia 19 de Julho de 1759, nasceu um menino na família do comerciante Isidoro Mochnine, em Kursk, que recebeu ao ser batizado o nome de Prokhore. Nenhum fato particular marcou esse nascimento. Kursk era uma cidade provinciana como muitas na Rússia, com casas baixas ladeadas de sebes ao longo de ruas mal pavimentadas, mas freqüentemente cobertas por belas árvores, como as de um parque.

Elizabeth, filha de Pedro, o Grande, reinava então em um país que se recuperava lentamente dos terríveis abalos que seu pai, implacável revolucionário imperial, lhe havia infligido no começo do século. Na corte dançava-se muito, enquanto que em Moscou fundava-se a Academia de Ciências e a de Belas Artes. Pavilhões de caça, lugares românticos, palácios com muros verde-oliva, pilastras brancas e cornijas douradas — devidas à fértil imaginação do arquiteto italiano Rastrelli — brotavam da terra sob o comando da alegre Imperatriz. Em seus momentos de arrependimento — porque ela os tinha — a devota soberana pedia igrejas e conventos. Rastrelli introduziu na Rússia um barroco mitigado cujos anjos dourados e bochechudos brincavam impunemente sobre as altas paredes das iconostases, sob o olhar severo e desaprovador dos ícones.

Essas novidades todas não atingiam a província. A classe dos comerciantes à qual pertencia a família Mochnine continuava solidamente tradicionalista e mantinha intactos os velhos costumes. Vestidos como nos bons tempos, corpulentos e usando barba (o que era proibido na corte), seus membros davam à Igreja dinheiro e filhos, coisa que os nobres, com os olhos fixos na França de Luís XV, quase não faziam mais.

Foi contudo, uma igreja, cujo plano havia sido estabelecido pelo célebre Rastrelli, que a cidade de Kursk decidiu construir. As obras foram confiadas a Isidoro Mochnine, pai do pequeno Prokhore, que possuía uma fábrica de tijolos e tinha a reputação de ser um construtor de edifícios íntegro e consciencioso. Ainda jovem, morreu antes de terminar sua obra, da qual sua viúva se encarregou.

Que sabemos desta mulher a quem Prokhore (que tinha apenas três anos por ocasião da morte de seu pai) deverá o melhor de si? Na falta de um retrato, ela é representada como uma destas matronas russas, ligeiramente obesa, com traços regulares, rosto sereno, firme, porém doce, inteligente sem ostentação, trabalhadora discreta e sem pressa. Não somente encontrava tempo de gerir seu comércio e sua casa, criar seus dois filhos, Alexis e Prokhore, supervisionar a construção da igreja, mas também tinha prazer em levar para casa, instruir, dotar e casar convenientemente órfãs cuja sorte nesta época era das mais tristes.

Encontram-se ecos da ordem que reinava na casa de Ágata em certos conselhos que seu filho espalharia posteriormente e que se referiam a varrer bem seu quarto, de manhã, "com uma boa vassoura" assim como acender logo o samovar, "pois a água quente é boa para a alma tanto quanto para o corpo." É de sua mãe provavelmente que ele herdou o seu amor pelo trabalho bem feito, seu horror pela preguiça e seus olhos de um azul tão puro.

Prokhore tinha sete anos quando pela primeira vez ouviu falar do "sobrenatural" naquela calma existência provincial. Durante uma visita em companhia de sua mãe, à igreja em construção, caiu do alto do andaime que rodeava o campanário e levantou-se ileso.

Aos dez anos — já ia a escola — uma doença de natureza ignorada quase o levou. Ágata estava sem esperança de que seu filho sobrevivesse quando ele lhe contou um belo sonho que acabara de ter: a Santa Virgem lhe aparecera para anunciar que viria cura-lo em pessoa. Ora, alguns dias depois, um ícone de Nossa Senhora de Kursk, considerado milagroso, foi levado em procissão pelas ruas da cidade. Quando a procissão se aproximava da casa dos Mochnine, desabou uma tempestade acompanhada de uma chuva torrencial. Para proteger o ícone, fizeram-no entrar no quintal. Ágata aproveitou para trazer seu filho e o doente se curou. Curiosidades como as que se lêem às vezes nos jornais? Pequenos "milagres" anódinos com que os fiéis são agraciados ao menos uma vez em sua existência? Porém havia mais.

— Bem aventurada és, viúva — disse um dia à valente Ágata, quando a encontrou na rua com seus dois filhos, um "louco em Cristo" que tinha, como muitos de seus semelhantes a reputação de conhecer o futuro — bem aventurada és de ter um filho que tornar-se-á um poderoso intercessor junto à Santíssima Trindade, um homem de oração para o mundo inteiro.

Um louco em Cristo? A Rússia seria mal representada sem estes seres de olhos claros, fala enigmática, gestos desordenados, freqüentemente simbólicos, como os dos antigos profetas, caminhando seminus — ou totalmente nus, como Isaías — sem abrigo contra o frio e a neve, deitados sob as sacadas das igrejas, arrastando pesadas correntes, impondo-se terríveis penitências, escolhendo como ascese suprema o simulacro da loucura. Para um ocidental de espírito cartesiano o próprio fato de esconder a inteligência sob uma aparência de ridículo é prova de uma incômoda falta de equilíbrio. No Oriente, o ponto de vista é outro. Loucos em Cristo ("Saloi") existiam em Bizâncio, e a Rússia canonizou trinta e cinco deles. Em vida, alguns foram perseguidos e maltratados. Desejando a Cruz, procuravam a desonra. Havia certos histéricos e impostores entre eles, mas os verdadeiros "yourodivi" eram autênticos filhos de Deus, aqueles pequeninos que o pai pusera no lugar dos doutores e sábios para que neles os simples pudessem se reconhecer. E o povo russo, sempre ávido de Justiça-Verdade (Pravda), reconhecia-se efetivamente naqueles contestadores de um Estado tirânico, de uma igreja por demais institucionalizada, de um Cristianismo superficial e hipócrita. Pela boca dos "yourodivi" o povo russo posicionava-se frente aos grandes deste mundo e afrontava sem temor os príncipes cruéis. O mais célebre destes pequenos profetas — um grande santo — morto no séc. XVI, está enterrado em Moscou, na Praça Vermelha, em uma igreja de uma beleza multicor e singular que leva seu nome: Basílio, o Bem-Aventurado.

Ignora-se por quais excentricidades o louco em Cristo de Kursk ganhou seu título de "yourodivi" — seu nome nem chegou a ser conhecido — mas sabe-se que na época em que se dirigiu à viúva Mochnine ele já gozava da veneração de seus concidadãos. Teria ela se impressionado por sua predição? Seria seu filho uma "criança predestinada"?

O caráter de Prokhore se fortalecia. Ele pertencia a uma raça viril. A cidade de Kursk esta situada na fronteira das estepes. Desde sempre seus habitantes haviam sido conclamados a se bater contra invasores. O "Documento" medieval da "Tropa de Igor" descreve-os como se segue: "agasalhados sob suas trombetas, alimentados a ponta de lança, seus arcos retesados, suas coleiras de ferro abertas, como lobos cinzentos eles galopam nos campos procurando para si a honra e para seu príncipe, a glória."

Embora ávido de heroísmo, não eram os grandes feitos dos guerreiros que entusiasmavam o jovem Prokhore Mochnine. Ele sonhava com outras lutas. Combates mais perigosos o atraíam: as façanhas ascéticas dos santos opondo-se às forças do demônio.

Será que Ágata se surpreendeu quando ele pediu sua benção para ir em companhia de cinco outros filhos de comerciantes, em peregrinação a Kiev para orar no mosteiro das Grutas a fim de conhecer a vontade de Deus sobre seu futuro? Provavelmente não sabia ela que este louco em Cristo, de quem seu filho se tornara amigo, exercia sobre ele uma influência cada vez maior? Uma coisa estava clara: o negócio de família do qual se ocupava Alexis, o primogênito dos Mochnine, não interessava ao caçula. Kiev era uma cidade santa, "a mãe das cidades russas" onde em 989 o Príncipe Vladimir batizara seu povo no Dniepr, onde um egresso do Monte Athos havia fundado o célebre "Mosteiro das Grutas" pilar da cultura cristã em todo o país. Prokhore encontraria aí a resposta que procurava? Esta lhe foi dada por um antigo "staretz" de nome Dositev que aprovou seu desejo de se tornar religioso e orientou-o para um mosteiro de que o jovem já havia ouvido falar, o "Deserto de Sarov."

"Vai sem medo" teria dito Dositev, "e permanece lá. É lá que salvarás tua alma. É lá também que terminarás tua peregrinação terrestre. Familiariza-te com a lembrança constante de Deus. Invoca seu Santo Nome. E o Espírito Santo virá habitar em ti e guiará tua vida em total santidade."

Prokhore estava transbordante de alegria. Era precisamente para o Deserto de Sarov que ele se sentia atraído. Muitos de seus concidadãos já se encontravam lá. Mas a separação de sua mãe foi dolorosa. Ele se jogou a seus pés. Desfeita em lágrimas, ela lhe deu a beijar os ícones familiares e pendurou em seu pescoço uma cruz de cobre em forma octogonal sobre a qual estava representado o Senhor crucificado. Esta cruz jamais abandonou o filho de Ágata. Até sua morte ele a levava à mostra em seu peito e pediu que após sua morte ela fosse posta em seu caixão. Em seguida, com o bastão de viajante à mão, em companhia de dois de seus cinco amigos com quem havia feito a peregrina cão de Kiev, tomou seu caminho. Cerca de seiscentos quilômetros separavam Sarov de Kursk.

 

O Deserto.

A palavra "deserto", em hebraico, significa algo ou alguém abandonado — à natureza, às feras — uma "Terra que não é semeada" (Jer. 2:2).

Em russo, "povstynia": deserto, vem de "pusto" "pustota": o vazio. O sentido profundo dos dois termos é idêntico. Pode-se, no deserto, ser abandonado por Deus ou abandonar tudo para Deus. É no vazio de tudo, e particularmente de nós mesmos, que nos aproximamos de Deus após haver repelido as tentações propostas por seu adversário. Foi no deserto, na trilha dos profetas do Antigo Testamento, "impelido" pelo Espírito Santo, que Cristo teve sobre Satã sua primeira vitória.

Neste sentido, o deserto não é obrigatoriamente uma extensão de areia como o Saara. Para os russos, a floresta imensa, quase virgem que ocupava uma parte enorme de seu território fazia-lhe as vezes. E a tradicional santidade ortodoxa florescia ali, tanto quanto na Síria, Palestina ou Egito.

O monge ortodoxo não é missionário. Não vai pregar como um Franciscano ou Dominicano. Para se preencher de Deus, ele se esconde. Mas, uma vez difundido o perfume de sua virtude, seu papel torna-se espiritual, cultural e social. Um dos maiores santos russos, Sérgio de Radonege (1314-1392), que pode ser chamado o "Moisés" de seu povo a quem ele insuflou a coragem necessária para sacudir o jugo mongol, conselheiro dos grandes, amigo dos pequenos, após haver começado por se enclausurar na densidade dos bosques, terminou higumeno* do célebre Mosteiro da Santíssima Trindade — hoje Zagorsk — cuja importância na historia da Rússia foi enorme e ainda é considerável. São Paulo de Obrosk, no Sec. XV, conseguiu subsistir, por três anos, sem ser detectado por viv'alma, no tronco de uma velha tília. Só os animais conheciam seu retiro. Quando ele orava, os pássaros cantavam sobre seus ombros. Morreu aos cento e doze anos, cercado de discípulos.

A floresta de Sarov, situada ao norte do Distrito de Tabov e ao sul de Nizhni-Novgorod, no centro da Rússia, possuía tudo o que é requerido para servir de "deserto." "Imensa floresta, diz uma velha crônica, com carvalhos, pinheiros e outras árvores, e nesta floresta, diversos animais: ursos, alces, raposas, martas; e às margens dos rios Satis e Sarovka, castores e lontras. . . "Ela era freqüentada apenas por caçadores escandinavos da tribo Mordva. Quando os russos chegaram, perseguidos pelos tártaros, os nativos bateram em retirada. Na confluência dos dois rios, os Tártaros construíram um campo entrincheirado, mas, por sua vez, após a vitória de Dimitri Donskoi no campo das Galinholas, (1380), partiram.

 

* (Nota da T. bras) — o higumeno — "igoúmien" função desaparecida nos mosteiros de hoje — era um intermediário entre o staretz, pai espiritual, e o abade, cuja função era sobretudo administrativa.

A floresta se fechou sobre si mesma, servindo de abrigo a bandidos e foras-da-lei. No séc. XVII só um monge de nome Teodósio ousou fazer para si uma cabana no aterro do velho campo. Assaltado por mal feitores, teve que partir. Um outro, Guerássimo, tomou seu lugar. Foi apenas um terceiro, Isaac, que, no começo do reinado de Pedro, o Grande, fundou um mosteiro e dotou-o de uma disciplina severa. A permissão de construir uma igreja foi dada pelo último Patriarca de Moscou. Entusiasmados, os monges ergueram-na em cinqüenta dias. Conta-se que, durante a construção, alegres carrilhões agitaram a floresta. De onde vinham? Não havia um só sino, nem no novo mosteiro nem nos arredores.

O que é mais miraculoso, talvez, ainda que mais prosaico, é que o "deserto de Sarov" pudesse ser fundado e que pudesse se desenvolver e prosperar, em um momento da história Russa pouco propício ao monaquismo. Pedro, o Grande, havia dirigido seu país para o Ocidente. A herança de Bizâncio, inclusive sua cultura religiosa, devia dar lugar a rudimentos de técnica moderna importados da Holanda. O Patriarcado foi abolido. Os mosteiros, "gangrena do Estado" e os monges, "aqueles vagabundos" estavam fadados a desaparecer. Foi proibido às casas religiosas receber noviços. Proscritos os estudos, o monge em cuja célula fossem encontrados papel e tinta, estava sujeito a castigos corporais.

Continuando a política de seu antecessor, Catarina II ordenou o fechamento de todos os mosteiros do império. O Ukaze nunca chegou a ser completamente executado. Porém houve perseguições religiosas que fizeram vítimas inocentes. O higumeno Isaac do "deserto de Sarov" doce e santo velho que por sua compreensão e bondade levou de volta à igreja muitos velhos fiéis dispersos nos bosques dos arredores, foi acusado de atividades subversivas contra o Estado e acorrentado em São Petersburgo onde, apôs três anos de sofrimento, morreu na prisão. Seu sucessor Ephrem passou quinze anos, sem se queixar, na fortaleza de Orenbourg. Reabilitado, voltou a Sarov e foi reeleito higumeno. Era um amador e fino conhecedor de música religiosa, um monge exemplar conhecido por sua grande misericórdia para com os pobres e infelizes. Durante a fome de 1774, ele alojou, arriscando-se a morrer de fome com seus monges, centenas de refugiados. Para lhe suceder nomeou o padre Pakhome, natural de Kursk, sob cujo báculo pastoral o jovem Prokhore Mochnine deveria se colocar. Apesar dos incêndios e ataques de bandidos que sofreu diversas vezes, o mosteiro, em setenta anos de existência, havia crescido e se embelezado. A pobre capela em madeira construída em cinqüenta dias havia dado lugar a uma igreja de pedras brancas cujas cruzes douradas brilhavam por sobre o muro interior, na confluência dos rios Satis e Serovka, cujos meandros caprichosos se perdiam sob as abóbadas sombrias da floresta.

 

 

O Noviço.

Foi em uma fria noite de novembro, vinte de novembro de 1778, véspera da apresentação da Santa Virgem no Templo, que, ao fim de uma longa estrada, Prokhore e seus companheiros avistaram, enfim, através dos grandes pinheiros negros, os muros brancos do mosteiro. Na igreja, cantavam-se as vésperas. Na suave penumbra, as velas queimavam diante da face dos ícones. Prokhore gostou da severa ordenação do oficio, da melodiosa fusão das vozes na harmonia do coro. Tudo estava bem.

No dia seguinte, dia da Apresentação no Templo, o jovem se apresentou ao higumeno. Tinha dezenove anos e era belo: grande, arrojado, de ombros largos, tez clara, bochechas ligeiramente salientes, nariz afilado, olhos muito azuis. Havia nele algo de são, virginal e forte. Natural como ele da cidade Kursk, o Padre Pakhome recebeu-o com bondade. Vindo de uma família de comerciantes, ele havia, em juventude, conhecido os pais de Prokhore. Seduzido pela franqueza do jovem, pela clareza do seu olhar, acolheu-o desde o começo com afeição.

Enquanto noviço, Prokhore foi primeiramente nomeado servo da cela do Padre Administrador. Depois, foi forçado a uma série de trabalhos que nos mosteiros do Oriente são chamados "obediências." Seguidamente foi padeiro, marceneiro, sacristão. Como S. Sérgio, foi o ofício de carpinteiro — o do Cristo em Nazaré — que ele preferiu. Mostrou-se tão hábil que foi apelidado "Prokhore, o Carpinteiro." Artesão de corpo e alma, como muitos russos, fabricava com amor pequenas cruzes de madeira de cipreste, que os peregrinos compravam de bom grado. Dotado de uma força física incomum, também ajudava os monges a cortar e transportar os pinheiros. "O trabalho físico e a leitura freqüente das Santas Escrituras ajudam a manter a pureza" dizia ele, seguindo S. Isaac o Sírio, um de seus autores preferidos.

Amavam-no no mosteiro por sua animação e bom humor. "Como eu era feliz então! . . . dirá mais tarde a uma religiosa. A alegria não é um pecado, Matushka, * ao contrário. Ela expulsa o cansaço, e do cansaço provém o desencorajamento, e não há nada pior!

"Quando entrei no mosteiro, eu cantava no coro. Acontecia às vezes que, estando os freis cansados, os cantos eram afetados; alguns chegavam a não cantar. E eu estava tão alegre. Quando todos se juntavam, eu lhes dizia algo engraçado, eles esqueciam o cansaço. Na casa de Deus, é inconveniente falar ou fazer o que quer que seja de ruim, mas uma palavra benfazeja, engraçada, encorajadora, não é um pecado, Matushka, ela ajuda o espírito do homem a se manter na alegria perante a face de Deus."

O futuro Padre Serafim já está todo neste pequeno sermão, reproduzido fielmente: seu falar tão característico, propositadamente popular, gentil; seu hábito de tratar familiarmente seus interlocutores chamando-os "minha alegria" o que em russo é menos estranho do que em português; seu horror ao desencorajamento e ao pessimismo.

Apesar de disposições tão felizes, não se deve crer que o noviciado deste menino transbordante de vida, que gostava de cantar, sensível à beleza, se passasse sem choques. "Até os trinta e cinco anos, isto é, até a metade da vida terrestre, confessará ele mais tarde, é grande o esforço que precisa ser feito para se guardar do mal. São numerosos os que não conseguem e que se desviam do caminho reto para seguir suas próprias inclinações.

Para perseverar, o que fazer? Uma série de conselhos dados a este postulante lança uma certa luz sobre os anos da juventude de Prokhore, o carpinteiro. Ei-los:

Seja qual for o modo pelo qual você entrou neste mosteiro, não perca a coragem: Deus está aqui. A vida monástica não é fácil. Na primeira decepção, é preciso não pensar em deixar um mosteiro por outro. O noviço deve ter força de vontade.

 

* A língua russa é particularmente rica em diminutivos constantemente empregados, como "Batiushka"-paizinho, "Matushka" — mãezinha. Em russo, são respeitosos e carinhosos. São usados para se falar com um padre,, uma religiosa, mas pode-se também em certos casos, dizer-se "batiushka" por "senhor" e "matushka" para "senhora." Também usa-se normalmente em russo expressões afetuosas como "dusha moia" — minha alma; golubtchik mói" — meu pombinho "radost moia" — minha alegria, que era a expressão favorita de Prokhore Mochnine, conhecido mais tarde por Serafim de Sarov.

 

Vivendo nesta santa casa, faça o seguinte: na igreja, esteja atento, familiarize-se com os ofícios, vésperas, completas, vigílias noturnas, matinas, leituras das horas. Durante a liturgia, permaneça em pé, com os olhos fixos em um ícone ou uma vela. Que o fedor de suas distrações não se misture com o incenso da Salmodia. Releia cada verso muitas vezes, a fim de guardá-lo de memória. Se tens trabalho, deve fazê-lo. Se o chamam para uma obediência, vá. Enquanto trabalha, repita continuamente a oração: "Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tem piedade de mim pecador."

Ao rezar, fique à escuta de si mesmo, isto é, levante seu espírito e una-o ao coração. No começo, um dia ou dois, ou mais, ore com sua inteligência, pronunciando separadamente cada palavra. Em seguida, quando o senhor houver aquecido seu coração por Sua graça, em união com o Espírito, sua oração fluirá sem interrupção e estará sem pré consigo, alegrando-te e alimentando-te. Quando estiveres de posse deste alimento espiritual, isto é, o diálogo com o próprio Senhor, por que ir ás celas dos irmãos, mesmo se eles o convidam? Em verdade lhe digo: o amor à loquacidade é também o amor pela preguiça. Se você não compreende a si mesmo, o que pode conversar com os outros, o que pode lhes ensinar? Cale-se o tempo todo, lembre-se sempre da presença de Deus e de Seu nome. Não converse com ninguém, mas guarde-se de criticar os risonhos e bem-falantes. Seja surdo e mudo.

No refeitório, não olhe o que os outros comem e não julgue, mas preste atenção a si mesmo, alimentando sua alma pela oração. Ao meio dia coma segundo sua fome. À noite, abstenha-se. A gula não é coisa para monges. Às quartas e sextas, se possível, faça apenas uma refeição e o Anjo do Senhor se afeiçoará a você. É preciso, entretanto comer alimento suficiente para que o corpo, reconfortado, seja um ajudante para o homem no cumprimento de seu dever. De outra forma pode acontecer que, estando o corpo debilitado, a alma se enfraqueça. O jejum não consiste somente em comer raramente, mas em comer pouco. Não é razoável o jejuante que, tendo esperado com impaciência a hora da refeição, entregue-se com voracidade — corporal e mental — ao consumo do alimento. O verdadeiro jejum, aliás, não consiste somente em domesticar o próprio corpo, mas em se privar, a fim de dar pão a quem não o tem.

Todas as noites, não durma menos de quatro horas: a décima, undécima, duodécima e uma hora depois da meia noite. Se você se sentir fatigado, pode, depois do meio-dia, tirar uma sesta. . . É o que tenho feito desde a juventude. Conduzindo-se assim, você não ficará triste, mas composto e feliz. E permanecerá no mosteiro até o fim de seus dias.

A primeira virtude do noviço deve ser a obediência, melhor remédio contra o tédio, perigosa doença que é difícil a um principiante evitar, a menos que siga rigorosamente as ordens dadas por seus superiores. Juntamente com a obediência, o jovem monge deve praticar a paciência. Sem resmungar ele deve suportar vergonhas e ofensas.

"O hábito monástico: é a aceitação de ofensas e de calúnias." Um monge deve ser semelhante a um velho chinelo, de sola gasta. Deve ser como o lençol que o mercador bate, pisoteia, escova, lava, a fim de torná-lo branco como a neve. "Sem provações, não há salvação. Ninguém se torna monge sem possuir a oração e a paciência, como ninguém vai para a guerra sem levar armas."

Um perigo: as mulheres.

"Fuja como do fogo destas gralhas pintadas. Freqüentemente elas transformam um guerreiro do rei em um escravo de Satã. As virtuosas devem ser evitadas tanto quanto as outras. Como a cera de uma vela, mesmo apagada, não pode deixar de queimar quando rodeada de veias que queimam, o coração do monge é sempre enfraquecido por um contato com o sexo feminino.

Desde sua entrada no mosteiro, e até sua morte, a vida do monge é apenas uma luta terrível contra o mundo, a carne e o diabo. Não é monge aquele que gosta de se pavonear, recostado; não é monge aquele que em tempos de guerra cai por terra e rende-se sem combater."

Estes são os conselhos de um homem, maduro. Mas refletem o problema dos jovens religiosos de todos os tempos. Vindo de tempos imemoriais, uma voz parece responder:

"É monge aquele que torna firme seu coração e aspira a circunscrever o incorporal em uma morada de carne." É S. João Clímaco, higumeno no séc. VII do mosteiro de Santa Catarina no Sinai, que fala. Os anos não mudaram em nada os preceitos da ascese, pelo menos na ortodoxia.

 

A Herança do Hesiquiasmo.

"Enquanto trabalha, repita continuamente a oração: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, Tem piedade de mim, pecador. . ." Lembre-se sempre da presença de Deus e de Seu Santo Nome. . . Em Kiev, "o ancião" Dositeu não dissera a mesma coisa?

A lembrança constante da presença divina e a invocação do Santo Nome de Deus, impronunciável por causa do terrível poder de que estava carregado e que era substituído por: Yahvé, Elohim, Adonai, remonta à mais alta antiguidade bíblica.

Na oração ensinada por Jesus a seus discípulos, o primeiro pedido é: "Santificado seja o Teu Nome." O nome de Jesus, que, desde o começo de sua pregação, os apóstolos enfatizaram e que eles invocavam para curar os doentes, representava uma força assim como uma fonte de salvação. É por isso que os membros do Senhedrim proibiam sua divulgação (Ato. 4:17-18, Ato. 5:28 e 40-41). Em sua epístola aos Filipenses, São Paulo, falando de Cristo, escreve: "pelo que Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o Nome que estava acima de todo Nome, para que do Nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai" (Fil. 2:9-11). Jesus glorificado é o Ungido, o Senhor. Ao Nome de Jesus, exprimindo sua glória, pertence uma força salvadora e vivificante, donde a propagação progressiva entre os monges, em seguida entre todos os cristãos, da "oração de Jesus."

O nome de Jesus implica sua presença. "Entre o Nome e aquele a quem o Nome invoca não há nem a distância de uma lâmina" disse um teólogo russo contemporâneo.

Com alguém que está presente, falamos. Falar com Deus é rezar. "Orai sem cessar," diz São Paulo (I Tes. 5:17). Mas, por si só, o homem tem dificuldade em rezar mesmo um pouco, mesmo raramente. Felizmente, "também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexplicáveis" (Rom. 8:26). Não se pode separar Jesus e o Espírito Santo.

Mas fará o Espírito sua morada em um ser com pensamentos divagantes, com a veste suja pelo pecado? Certamente não. Para começar, é preciso se arrepender. Em seguida, empenhar-se em vigiar o coração para defender-lhe o acesso as tentações, aos pensamentos nocivos, e a esta louca, a imaginação, de quem o inimigo se serve para desviar os inexperientes por meio de visões pseudo-celestes. É por isso que os conselhos dados ao postulante estipulam: "ao rezar, escuta a ti mesmo, isto é, levanta teu espírito e une-o ao coração" (a união da inteligência com o coração, considerado como centro, é indispensável). "Em seguida, quando o Senhor houver aquecido teu coração por sua graça, em união com o espírito, tua oração fluirá sem interrupção. . ." Esta forma de oração nascida no deserto, elaborada nos mosteiros do oriente através dos séculos, tornada uma verdadeira doutrina afirmada pela igreja, recebeu o nome de hesiquiasmo, do grego "hesychia": paz interior, calma, tranquilidade.

Ela tem dois ápices. Um é atingido quando a oração tornada parte integrante do homem não é mais algo que o homem diz, mas algo que é dito nele. "Quando o Espírito estabelece sua morada no homem, este não pode mais parar de orar, pois o Espírito não para de orar nele. . . Doravante, ele não domina a oração durante determinados períodos de tempo, mas todo o tempo. Mesmo quando ele faz seu repouso visível, a oração está garantida nele, pois "o silêncio do impassível é oração" diz Isaac o Sírio. "Seus pensamentos são impulsos divinos, os movimentos do intelecto purificado são vozes mudas que cantam em segredo esta Salmódia ao invisível." Mas o Sírio apressa-se em acrescentar: "encontra-se dificilmente em toda geração um só homem que se tenha aproximado deste conhecimento da glória de Deus."

O segundo ápice é inundado por uma luz que a ortodoxia qualifica de incriada. Apesar da interdição que lhes estava feita de "meditar" sobre qualquer episódio da vida do Cristo, de permitir a imagens de se formarem em seu espírito, os adeptos da "oração de Jesus" beneficiaram-se por vezes de visões luminosas que não eram nem o produto de sua imaginação, nem o efeito de uma luz metereológica simbolicamente interpretada, mas uma teofania — uma revelação divina — tão real quanto a do Monte Thabor prefigurando a glória do Ressuscitado, assim como a luz perene que iluminará Jerusalém Celeste e cuja luminária será o Cordeiro (Apo. 21:23). Um grande místico do séc. XI, "hi gumeno" do Mosteiro de São-Mamas em Constantinopla, São Simeão, a quem a Igreja honrou com o título de "Novo Teólogo" foi o cantor inspirado desta Luz-Espírito.

Estavam os monges de Sarov cientes da doutrina e práticas hesiquiastas? Pelos conselhos e respostas que acabamos de citar, a resposta é afirmativa. Desde o começo do séc. XV, S. Nil de Sora, eremita da "Thebaide do Norte" no além Volga, erudito que falava grego fluentemente, tendo passado longo tempo no Monte Athos, deixou a seus descendentes espirituais uma regra inspirada pelos grandes mestres da doutrina hesiquiasta: João Clímaco, Isaac de Nínive, Simeão o Novo Teólogo. Os textos que sobraram "constituem ao mesmo tempo um exemplo marcante de fidelidade absoluta à tradição hesiquiasta bizantina e de uma notável simplicidade espiritual que caracterizava a própria pessoa de Nil e que constituirá o traço marcante dos santos russos posteriores" (Jean Meyendorff). Isto deve ser guardado. "Os santos russos, escreveu o Padre Meyendorff, tendo menos interesse pela especulação teológica, contribuíram frequentemente, por meio de um certo lirismo cósmico, para humanizar a mística hesiquiasta; eles acentuaram, muito mais do que os gregos, as implicações sociais do monaquismo eremítico."

As dificuldades, e mesmo as perseguições que a Igreja russa conheceu durante o séc. XVIII não conseguiram, como vimos, esvaziar a alma russa de seu desejo de Deus. Mais numerosos do que nunca, os peregrinos percorriam o império em busca desta verdade-justiça que a vida na terra parecia recusar. E eis que alguns dentre eles se puseram a trazer da Moldávia excelentes notícias: havia ali, nos confins da Romênia, um monge russo, um verdadeiro "Staretz" Paissy Velitchkovsky, em redor de quem a vida monástica, conforme as mais autenticas tradições, se havia reorganizado. Milhares de monges haviam se reunido em seu mosteiro. Quanto ao próprio Paissy, que falava diversas línguas, traduzia incansavelmente do grego (em um momento em que os monges, na Rússia, estavam teoricamente privados do direito de estudar e escrever) obras da literatura patrística, e sobretudo as obras dos santos hesiquiastas com as quais se familiarizara durante uma estadia prolongada no Monte Athos. O único retrato que se tem dele representa-o frágil sob as largas pregas de um manto monacal, com um rosto suave em que se destacavam um enorme par de olhos. Dizia-se que estava frequentemente doente. Encarquilhado sobre o leito como uma criança, mas cercado de dicionários, ditava suas traduções a vários secretários. Sua influência na Rússia foi enorme. Em toda a parte, no fim do séc. XVIII e início do XIX, encontram-se discípulos seus ou discípulos destes últimos. Dositeu de Kiev, que orientou Prokhore Mochnine para o deserto de Sarov, foi um deles. Porém, nada do que Paissy traduziu teve um sucesso comparável à Filocalia — em grego "Amor do Belo" em russo "Dobrotolyoubrie" "Amor do Bem" — compilação de máximas patrísticos, publicado em 1752 em Veneza por um bispo grego que, banido, havia rompido com as autoridades otomanas de sua diocese, Macário de Corinto (1731-1805), com a colaboração de um monge da Santa Montanha, Nicodemos, o Hagiorita (1749-1809). Sem se preocupar com repetições, esta coleção continha uma série de textos cujos autores eram grandes contemporâneos hesiquiastas, a começar pelos Padres do deserto e até os restauradores do séc. XIV. A tradução russa apareceu em São Petersburgo em 1793, no fim do reinado de Catarina II, graças ao esforço do eminente metropolita Gabriel. Mas ve-se que, 16 anos antes de sua aparição oficial, Dositeu de Kiev já estava familiarizado com o espírito de seu conteúdo.

 

 

A Doença.

Hesiquiasta consciente ou não, o zelo com que Prokhore, o Carpinteiro, se desdobrou no deserto de Sarov quase o conduziu ao túmulo. Pensa-se que sua doença era uma hidropissia. Ele sofreu por três anos e ela acabou por prendê-lo em seu leito. O recurso à medicina não faz parte da tradição monástica. Não há médico no Monte Athos. Porém, desesperado pela vida de seu preferido, o Padre Abade, que não saía mais de sua cela, estava pronto a mandar chamar um médico na cidade, quando para surpresa geral, o doente sarou. O que se passara? Só se soube muito depois.

A Santa Virgem, que em Kursk aparecera sob o aspecto de um ícone para salvar a criança doente, viera, desta vez em pessoa, salvar o jovem noviço do Deserto de Sarov. Estava acompanhada dos apóstolos Pedro e João. Virando-se para eles, pronunciou estranhas palavras: "ele é da nossa raça" disse, apontando o moribundo. Essas coisas não se inventam. Como teriam vindo ao espírito de um aspirante à humildade? "Ela pousou sua mão direita sobre minha fronte, contaria ele na velhice. Em sua mão esquerda havia um cetro. Com o cetro, ele tocou o pobre Serafim. Neste lugar, — sobre a minha coxa direita-cavou-se um buraco. Por ali a água escorreu. E foi assim que a Rainha do Céu salvou o humilde Serafim." Uma profunda cicatriz na coxa dava testemunho do milagre.

 

Monge — Diácono — Presbítero.

Serafim. . . oito anos após sua entrada no deserto de Sarov, Prokhore, aos 27 anos de idade, considerado digno de vestir o hábito monástico, foi recebido em 13 de agosto de 1786 na comunidade do deserto. Sem perguntar sua opinião, impuseram-lhe o nome de Serafim, que em hebraico quer dizer: resplandescente. Breve foi ordenado diácono. Mas antes, ele insistia em pagar uma dívida de gratidão: com a benção de seus superiores, partiu a buscar fundos para a construção de uma pequena igreja sobre sua cela, testemunho de seus sofrimentos, onde ele havia sido visitado e curado.

Dizem que no decorrer desta fatigante caminhada pelo país ele teria ido até Kursk, teria abraçado sua mãe pela última vez e predito a seu irmão Alexis que iria seguí-lo de perto para o túmulo, o que, a seu tempo, aconteceu. Mas nunca se pensou na impressão que esta longa caminhada através da terra russa teria deixado em um jovem marcado pelo sofrimento e, em decorrência disto, particularmente receptivo.

A Rússia era feliz então? Algum dia o foi? O longo reinado de Catarina II, brilhante no exterior, só trouxe ao povo mais dificuldades.

 

O Cristo encarnava em seu sofrimento. Um poeta escreveu:

 

"Curvado sob o peso da cruz,

Tendo tomado o aspecto de um escravo,

Percorreste, ô Rei do Céu,

Toda nossa terra natal

Abençoando-a."

Tiutchev.

 

A obsessão por um reino camponês, ideal e santo, com sua "justiça da floresta" permanecia viva na alma popular que guardava no íntimo o sonho de uma Jerusalém russa com seu Czar branco e seu Cristo peregrino.

Poderíamos nos perguntar se o conhecimento aprofundado da vida do povo que o Padre Serafim mostraria mais tarde não vinha, pelo menos em parte, desta lenta marcha através de campos pobres brutalizados por cruéis injustiças, mas em companhia, talvez, de peregrinos perpétuos, incansáveis buscadores da verdade?

Em Sarov foi ordenado diácono. Novamente, zelou com desvelo. Demasiado, pensavam certos monges. Havia-se algum dia visto um diácono preparar-se para a liturgia dominical passando a noite a orar na igreja imóvel até o amanhecer? Terminado o ofício, ainda hesitava em partir. Teria ele se comprazido, como um puro espírito, em servir continuamente o Senhor esquecendo-se de comer e beber? Enquanto o coro cantava, acontecia-lhe de ver passarem anjos, dizia. Vestidos de branco, brilhantes como relâmpagos, atravessavam a igreja cantando bem melhor do que os monges. É certo, pensavam estes últimos, que os anjos tomam parte na celebração da eucaristia, é ortodoxo. Durante a Grande Quaresma, nas liturgias dos pré-santificados, não proclamamos: "hoje as forças celestes concelebram invisivelmente conosco?" Aquele homem calmo, sólido, equilibrado, aquele bom operário que Prokhore, o carpinteiro, havia sido transformava-se em um daqueles místicos de quem desconfia, como da peste, a severa sobriedade tradicional do monasticismo oriental?

Um dia, durante a solene liturgia da quinta-feira santa, após haver abençoado a congregação e pronunciado as palavras: "e pelos séculos dos séculos" ao invés de se retirar, como exigia o desenrolar do ofício, o Padre Serafim ficou pregado em seu lugar, imóvel, ausente de tudo. Compreendendo que algo insólito havia acontecido, dois hierodiáconos pegaram-no pelo braço e levaram-no para trás da iconostase. Sua imobilidade durou três horas. Ao voltar a si explicou a seu confessor e ao Padre Pakhôme: "eu estava ofuscado como que por um raio de sol. Voltando os olhos para esta luz eu vi Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, com o aspecto do Filho do Homem em sua Glória, brilhando com uma luz inefável e rodeado pelos exércitos celestes: anjos, arcanjos, querubins e serafins. Vindo da porta oeste, andando sobre os ares, abençoou os celebrantes e a congregação. Em seguida, entrando em seu ícone perto da porta real, mudou de aspecto, sempre rodeado pelas ordens celestes que com seus raios iluminavam a igreja inteira. Quanto a mim, terra e cinzas, fui objeto de uma benção especial." Os velhos monges o escutavam atentamente. Depois, com sua sabedoria e experiência, chamaram-lhe severamente a atenção contra as visões em geral e as tentações do orgulho em particular.

Mas o Padre Serafim não era mais um noviço. Sabia que a humildade é o cimento que sustenta o edifício da perfeição espiritual. Mas sabia também que uma vez engajado na via de união a Deus, o homem não pode mais parar. "Se alguém diz: eu sou rico, estou bem com o que consegui, não tenho mais necessidade de nada, não é cristão, e sim um vaso de iniquidade diabólica" escreveu Macário do Egito. "Pois o prazer que se tem em Deus é tamanho que não podemos nos saciar d'Ele. Quanto mais O saborearmos, quanto mais o comungarmos, mais temos fome d'Ele."

O Padre Serafim entrara naquele mundo invisível a que poucos homens têm acesso. Mas ele não falava: "Eu sou rico." Ao contrário, sua sede de contemplação só fazia crescer. Ordenado padre, não deixava de sentir a atração pela grande solidão do verdadeiro deserto. Será que a contemplação de um anacoreta é mais preciosa do que o sacerdócio para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque?" Eis aí um mistério.

O abade Pakhôme morreu. Sua doença havia retido o Padre Serafim no mosteiro. Uma vez desaparecido o ancião a quem tratara como um filho, ele pediu a seu sucessor, o Padre Isaías, a permissão de se retirar para a floresta e deixou o mosteiro munido de uma dispensa oficial na devida forma. A data de sua partida é conhecida: vinte de novembro de 1794, véspera da apresentação no Templo da Santa Virgem, exatamente dezesseis anos após sua entrada. Ele tinha trinta e cinco anos, etapa importante, segundo suas próprias palavras, na vida de um homem.

 

O Eremita.

Há uma carta escrita a um amigo pelo Staretz Paissy Velitchkovsky a respeito da vida eremítica onde ele diz: "Deves saber, caríssimo amigo, que o Espírito Santo dividiu a vida monástica em três categorias: a vida eremítica; a vida em companhia de dois ou três irmãos em um skit; e a vida cenobítica. A vida eremítica deve ser compreendida como uma existência longe dos homens, no deserto. O eremita entrega-se somente a Deus no que concerne à saúde de sua alma, o alimento, a vestimenta e toda necessidade terrestre. Ele só espera nEle em todos os combates da alma e do corpo, pois somente Ele é sua ajuda e esperança neste mundo. Mas essa existência não é possível senão para os espiritualmente maduros, os inteiramente pacificados. Quanto aos inexperientes que se engajam nisto inconsequentemente, que estejam atentos para não cair na sonolência, desatenção ou perplexidade — ninguém estará lá para ajudá-los."

O Padre Serafim fez a experiência. "Os que vivem em mosteiros, disse, lutam contra os inimigos do gênero humano como contra pombas; os anacoretas — como contra leões e leopardos."

Mas quem são estes "inimigos do gênero humano"? Contra quem esta luta no vazio? O homem do século XX sabe que seu destino, em grande parte, depende dela?

Na opinião dos antigos, o Universo era gerado por espíritos que governavam os astros e moravam "nos céus" e "nos ares." Eles coincidiam em parte com que S. Paulo chama "os elementos do mundo" (Gal. 4:3). Infiéis a Deus, eles quiseram e conseguiram escravizar o homem no pecado. Mas Cristo veio livrar a humanidade de sua escravidão, arrancá-la do império das trevas. "Nascido antes de todas as criaturas, é nEle que foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, visíveis e invisíveis, sejam troncos, sejam soberanas, quer principados, quer potestades, tudo foi criado por meio dEle e para Ele. . . Por que aprouve a Deus que nele residisse toda a Plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus" (Col. 1:15-20).

Para São Paulo, a encarnação coroada pela ressurreição colocou a natureza humana do Cristo à frente não só da raça humana mas ainda de todo o Universo criado, interessado na salvação como o fora no erro. Esta reconciliação universal engloba todos os espíritos celestes assim como todos os homens. Ela não significa a salvação individual de todos, mas sim a salvação coletiva do mundo por meio de seu retorno à ordem e à paz perfeita na submissão a Deus.

Porém, enquanto esperamos a vitória final, o dia terrível do Advento Triunfal do Senhor, "quando Ele integrar o reino a Deus e Pai para que Deus seja tudo em todos (ICor. 15:21-28), temos que lutar.

O pecado do homem foi uma maldição para a terra. Cabe a ele trabalhar para sua redenção. "Pois a ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus" diz São Paulo nesta admirável passagem da Epístola aos Romanos, tantas vezes citadas (Rom. 8:19-23), "na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Por que sabemos que a criação inteira geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nos que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo."

Eis aí, então, trabalho para um místico, para um anacoreta. A salvação do mundo depende disto. Retornando a si mesmo, ele se fechará na "cela" interior de seu coração, para encontrar lá, "mais profundo do que o pecado" o começo de uma ascensão durante a qual o Universo lhe aparecerá cada vez mais unido, cada vez mais coerente, impregnado por forças espirituais, formando um só todo nas mãos de Deus.

 

"Pequeno Deserto Longínquo."

A floresta que serviu de "deserto" ao Padre Serafim era imensa e sombria. Pinheiros se erguiam como mastros de navios. Alguns tinham muitos metros de circunferência. Uma modesta "isba" situada sobre uma margem escarpada do rio Sarovka, a cerca de seis quilómetros do mosteiro, servia-lhe de retiro. Um ícone em um canto, um fogareiro em outro, um pedaço de tronco à guisa de cadeira — era tudo. Uma cama? — inútil. Ele batizou o conjunto de "Monte Athos."

Um eremita, para se preservar do tédio, precisa de um emprego de seu tempo dos mais rígidos. O dia de Padre Serafim começava à meia noite. Ele seguia a regra de São Pakhôme o Grande, usada pelos Padres do Deserto. Para começar, ele recitava o ofício, matinas e laudes. As nove horas, era a vez das tercias, sextas e nonas. Ao fim da tarde, ele cantava as vésperas e completas. Ao cair da noite, recitava as orações que precedem o sono, acompanhadas de numerosas prosternações, como os monges orientais costumam fazer. No meio tempo, o que quer que fizesse, a oração do coração ininterrupta ritmava suas atividades. Em seu desejo imenso de tudo referir a Jesus, havia dado aos arredores nomes bíblicos. Em "Nazaré" ele cantava os hinos acatistas à Virgem; recitava sexta e nona no "Gólgota"; lia o evangelho da Transfiguração no "Monte Thabor" e entoava em Belém o "Glória a Deus no mais alto dos Céus."

Entretanto a humilde e casta natureza russa quase não se parecia com a Longínqua Palestina. No verão, a suavidade do céu descia sobre os troncos cor-de-rosa das coníferas; os troncos prateados das bétulas miravam-se na palidez dos riachos de curvas sinuosas e suaves. Diversas flores do campo alegravam as clareiras. A floresta cheirava a resina quente, a musgo, a cogumelos; ouvia-se o sussurro do vôo de inumeráveis insetos dançando ao sol. À noite, escutava-se ao longe o coaxar das rãs, o grito das garças nos pântanos e, cobrindo tudo, triunfando sobre as trevas, o dilacerante concerto dos rouxinóis.

O Padre Serafim cultivava uma horta. Como adubo, utilizava o musgo úmido que, com o torso nu, ia buscar nos brejos, oferecendo "a carne rebelde" às picadas dos pernilongos e mosquitos.

No inverno, a floresta se revestia de um manto de arminho, ficava com um aspecto severo e real sob o peso da neve, os galhos das árvores se inclinavam como cortesãos à passagem de um soberano. Nos cerrados, ouviam-se os leves passos dos lobos. Com o rosto atingido pelo vento constante, o Padre Serafim, a grandes golpes de machado, cortava lenha.

E vinha a primavera com sua brisa tépida, trazendo o aroma da neve que derrete, da seiva que corre. A primavera — a ressurreição -A Páscoa. Abandonando seu retiro, o Padre Serafim passava a primeira semana da Grande Quaresma no mosteiro, privando-se completamente de alimento, repetindo com seus irmãos a oração penitencial do S. Ephrem, o Sírio.

"A oração e o jejum, a solidão e a abstinência formam o alicerce que leva a alma ao reino de Deus" dizia o habitante do pequeno deserto longínquo. Quanto à leitura, ela continuava sendo uma das ocupações favoritas deste homem do ar livre. O evangelho que ele carregava em um saco nas costas acompanhava-o por toda parte. Cada dia, ele lia alguns capítulos, "alimentando" assim sua alma. Pois a "alma deve ser nutrida pela palavra de Deus." "É preciso se habituar a que o espírito esteja imerso na lei de Deus" ensinará ele. De fato, sua conversa frequentemente será apenas uma série de paráfrases de textos bíblicos livremente aplicados às situações dadas.

"O homem precisa das Escrituras porque não está ainda possuído pelo Espírito que afasta os erros. Porém quando o Espírito se houver apoderado do homem, seus preceitos se enraizarão nele, em lugar da lei das escrituras. Ele será misteriosamente guiado pelo Espírito e não terá necessidade de nenhuma ajuda sensível. Enquanto o coração aprende por intermédio de coisas materiais, o aprendizado é seguido por erro e esquecimento. Mas quando o ensinamento vem do Espírito, a memória se conserva intacta." Doutrina ousada — Ortodoxa? — que o eremita de Sarov nunca realizou inteiramente, já que até sua morte ele continuou as leituras diárias da Bíblia mas que ele compartilhava com o "enfant terrible" da Igreja, São Simeão, o novo Teólogo. "Aquele que tem por interlocutor o Inspirador dos que escreveram os livros divinos (o Espírito Santo), que é iniciado por Ele nos arcanos dos mistérios secretos, é então para os outros um livro inspirado de Deus" escrevia o Higumeno de S. Mamas.

A solidão de um eremita chama e facilita a chegada do Espírito. "Na descida do Espírito, dirá Serafim de Sarov, convém estar à escuta — absolutamente silencioso. Da mesma forma que a leitura se torna supérflua uma vez que o Espírito tenha se apoderado do homem, a oração, na sua vinda, não precisa mais de palavras."

Havia ele chegado ao estado descrito por Isaac, o Sírio quando "o Silêncio do impassível é oração"?

Desejoso de saudar o Padre Serafim, os Padres Marx e Alexandre, solitários como ele, encontravam-no às vezes em sua horta, a enxada largada a seus pés, o olhar perdido no céu. Não ouvia nem o zumbido das abelhas a sua volta, nem a chegada dos visitantes. Compreendendo que seu espírito havia "emigrado em Deus" eles partiam lentamente. Mas frequentemente visitantes inoportunos menos discretos teimavam em ir ver o jovem anacoreta e entre eles — para seu grande desprazer — mulheres. Já no séc. IV, cameleiros egípcios alugavam montarias para curiosos ávidos de dar uma olhada no modo de vida dos Padres do Deserto. Basta-se proclamar eremita para não ficar mais só. Irritado, pediu a seus superiores a permissão de obstruir com galhos a trilha que levava a seu retiro, e a obteve.

 

O Cosmos.

Os Padres afirmam que a Bíblia é a chave do "Liber Mundi." A misericórdia divina, disse Santo Agostinho, deu aos homens a Bíblia, "este outro mundo" para lhes permitir compreender novamente o sentido do mundo, "este primeiro livro."

Impõe-se a correspondência, como da alma ao corpo, entre a Escritura e o mundo: aquele que possui a inteligência espiritual da primeira, receberá, no Espírito, a contemplação do verdadeiro cosmos. É por isso que o Padre Serafim considerava útil ler atentamente, na solidão, toda a Bíblia? Este tipo de exercício trazia, segundo ele, a sabedoria como recompensa.

A oração hesiquiasta que o eremita de Sarov praticava incansavelmente torna-se, ela também, não deve esquecer, "uma chave que abre o mundo, um instrumento de oferenda secreta; uma aplicação do seIo divino sobre tudo o que existe. A inovação do nome de Jesus é um método de transfiguração do Universo." Aquele que ora sem parar adquire o conhecimento da linguagem da criação. Ele ouve o louvor das criaturas e compreende como é possível conservar-se junto delas.

 

As Feras.

"À meia noite, conta uma testemunha ocular, o Padre Joseph — ursos, lobos, lebres e raposas assim como lagartos e répteis de toda espécie, rodeavam o retiro. Tendo terminado suas orações segundo a regra de S. Pakhôme, o asceta saía de sua cela e punha-se a alimentá-los." Igualmente testemunha, o Padre Alexandre, intrigado, perguntara uma vez como o pouco pão seco que havia em seu saco seria suficiente para o Padre Serafim satisfazer tantos animais. "Sempre há suficiente" foi a resposta tranquila. Um urso gordo, em particular, gozava da intimidade do santo homem. Relatos detalhados de seu encontro, à primeira vista pouco tranquilo, com este habitante dos bosques, foram deixados pelo Padre Alexandre, como também por outras pessoas. O que os impressionava sobremaneira era a alegria que o Padre Serafim irradiava então. Sorrindo, ele dava uma ordem ao urso e o animal voltava, andando sobre as patas traseiras, trazendo um favo de mel que o anacoreta oferecia amavelmente a seus visitantes. Entre as representações póstumas de Serafim de Sarov, as mais populares tornaram-se aquelas em que ele era visto sentado sobre um pinheiro, dando um pedaço de pão a um urso*.

"O que é um coração caridoso? Pergunta-se S. Isaac o Sírio. É um coração que se inflama de caridade pela criação inteira, pelos homens, pelos pássaros, pelas feras, pelos demônios e por todas as cria turas.

Aquele que tem este coração não poderá ver ou se lembrar de uma criatura sem que seus olhos se encham de lágrimas por causa da compaixão imensa que invade seu coração. E o coração suaviza-se e não pode mais suportar ver ou escutar um sofrimento qualquer, mesmo uma pena mínima infligida a uma criatura. É por isso que tal homem não para de orar também pelos animais, pelos inimigos da verdade, pelos que lhe fazem mal a fim de que eles sejam conservados e purificados. Ele ora até pelos répteis, movido por uma piedade que é despertada no coração dos que se assimilam a Deus."

Na trilha de um Macário do Egito, de um São Francisco de Assis, de um Sérgio de Radonege, Serafim de Sarov tornava real este magnífico texto.

 

* Em memória de S. Serafim, a caça ao urso era proibida na floresta de Sarov até a revolução. Nunca houve incidente algum. Na Ilha de Patmos, na Grécia, um eremita morto em 1917 vivia em uma gruta em companhia de várias cobras, e mais tarde, já velho, alimentava diante de sua cela uma gorda serpente que todo dia, ao meio dia, vinha beber a ração de leite que o santo lhe servia em um pires.

 

 

O Demônio.

Mas a natureza não é sempre clemente. São longas as noites de inverno quando sopra um vento glacial, os galhos dos velhos pinheiros gemem e os lobos uivam, em bandos. O demônio procura abalar o coração do asceta pelo terror e angústia. O demônio? Mas ele não existe, dirá com um muxôxo, um homem do séc. XX, mesmo sendo cristão. Não é esta a opinião, baseada na experiência, dos eremitas e santos. A um jovem que, perante ele, levantava dúvidas quanto à existência e o poder do maligno, Serafim de Sarov respondia, brincalhão: "o que lhes ensinam nas Universidades? Claro que ele existe!" E a um indiscreto que perguntava se ele vira diabos, ele retorquia brevemente: "eles são abjetos."

Como seus ancestrais espirituais no Egito e na Síria, como o próprio Cristo no deserto, Serafim de Sarov, na floresta, foi abordado e tentado pelo demônio. Que armas usar contra ele? O Cristo disse: "esta casta não pode sair senão por meio de oração e jejum" (Mc. 9:29).

 

O Jejum.

O Padre Serafim dava grande importância ao jejum "Nosso Senhor Jesus Cristo, antes de começar seu ministério de salvação do gênero humano, dizia ele, fortificou-se por meio de um jejum prolongado. E todos os ascetas, ao se colocar ao serviço do Senhor, não abordavam a via crucificante senão após ter, primeiro, jejuado. Eles mediam seu progresso nesta via de acordo com o progresso que faziam no jejum. Ele mesmo depois de se tornar eremita, o que comia? Um pouco de pão trazido do mosteiro — cuja maior parte ia para as feras — algumas batatas, cebolas, beterrabas que colhia de sua horta. Com o tempo, decidiu que podia prescindir do pão. Depois, parou de cultivar seus legumes."

De que se alimentava? De uma certa erva chamada egopódio. "Eu a colhia e a colocava em uma panela; acrescentava um pouco d'água e punha no fogo — fazia uma bela sopinha. Eu a secava e me alimentava deIa no inverno, e os fiéis perguntavam-se o que eu estaria comendo! E eu, concluía marotamente o Padre, eu comia egopódio. Mas não dizia nada a ninguém!"

Quais são os resultados de semelhante regime? "Jejuando assim, o corpo do praticante torna-se diáfano e leve, a vida interior aperfeiçoa-se e se manifesta por meio de visões maravilhosas, as sensações exteriores são como que abolidas e a inteligência, abandonando a terra, se eleva para o céu e mergulha inteira na contemplação do mundo espiritual."

 

A Oração.

Então ele jejuava. Quanto à oração, seria para fazer face ao demônio que este homem que já orava sem cessar empreendeu uma façanha que aproximou-o dos ermitões de outrora, dos quais Simeão, o ermitão no séc. V, foi o mais célebre? Durante mil dias e mil noites, em pé ou ajoelhado sobre uma grossa pedra chata, ou em uma caverna cavada sob seu isba, Serafim de Sarov exclamou, como o publicano do Evangelho:" Senhor Jesus tem piedade de mim pecador." Ninguém saberá jamais a que imagens terríveis, a que sensações tão sutis quanto atrozes respondia este grito de alerta. Mas Cristo estava lá, "Quem nos separará do amor do Cristo?" Exclama São Paulo. "Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? . . . Porque eu estou bem certo de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas do presente, nem do porvir, nem dos poderes, nem alturas, nem profundidades, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus Nosso Senhor" (Rom. 8:35-39).

Quando, à beira da morte, Serafim de Sarov mandou um noviço procurar a pedra sobre a qual ele tinha ficado tanto tempo em pé, e as pessoas maravilhavam-se com sua façanha, ele respondeu: "Simeão, o ermitão ficou quarenta e sete anos em pé sobre uma coluna. Em comparação a ele, o que eu fiz," "Sentia a ajuda da graça?" — "certamente. As forças humanas seriam insuficientes." E acrescentava, fazendo eco à ardente declaração de amor de São Paulo: "Quando o coração esta cheio de ternura adoradora, Deus está aqui."

 

O Perdão das Ofensas.

Estava o demônio definitivamente vencido? Um incidente que ocorreu pouco depois representava um último gesto de vingança da parte dele? Os contemporâneos, em todo caso, interpretaram-no neste sentido.

Em 12 de setembro de 1804, o Padre Serafim estava rachando lenha na floresta quando três homens se aproximaram dele e, grosseiramente, disseram que queriam dinheiro. Como ele replicava que não tinha: "Mas as pessoas vêm te ver. Deve te trazer algum" — "Eu não pego nada de ninguém" disse o eremita. Então um dos três se jogou sobre ele por trás, mas ao invés de derrubá-lo ele próprio caiu. O padre Serafim, sabe-se, era dotado de uma força física pouco comum. Veio-lhe a idéia de se defender: seu machado estava à mão. Mas logo a lembrança da Paixão de Cristo o impediu. Ele deixou cair o machado e, cruzando os braços sobre o peito: "façam o que vieram fazer" disse. Apanhando a ferramenta, um dos homens o atingiu na testa. O Padre Serafim desabou, inconsciente. Então, sem parar de atingi-lo com socos, pontapés, pauladas, os bandidos arrastaram-no até seu isba, o amarando com a intenção de jogá-lo no rio, mas supondo-o morto, abandonaram-no para se precipitar na busca do tesouro escondido. Desmontaram o fogareiro, cavaram o solo — nada. Em um canto, acharam duas ou três batatas e só. Um ícone da Virgem olhava-os do alto da parede. Tomados de um pânico súbito, eles fugiram.

Mas o Padre Serafim não estava morto. Voltando a si, conseguiu se desfazer de suas amarras. Felizmente um monge passou por ali e correu para prevenir o abade. Coberto de sangue, lama, poeira, ninguém acreditava que ele pudesse sobreviver. Por desencargo de consciência, mandaram buscar médicos. Diagnosticaram uma fratura no crânio, um pulmão perfurado, costelas quebradas, sem falar dos vários ferimentos e, desamparados diante de tantos males, porem fiéis aos métodos da época, declararam que era preciso fazer uma sangria. O abade Isaías se opôs à idéia. Seu bom senso dizia que o infeliz já havia perdido sangue suficiente. Cabia ao próprio Padre Serafim tomar uma decisão.

Os médicos discutiam gravemente em sua célula, usando nomes latinos. Quanto ao ferido, ele suavemente adormeceu. Neste cochilo, ele viu entrar, como havia feito outrora, quando de sua doença, acompanhada pelos apóstolos Pedro e João, resplandescente de glória e revestida de seu manto de rainha, a Santíssima Virgem Maria. Ela aproximou-se do moribundo e, virando-se para os médicos: "para que vossos esforços?" — disse. Então, fitando o asceta ferido, repetiu as misteriosas palavras já pronunciadas a seu respeito: "ele é de nossa raça." Ele abriu os olhos — ela desaparecera.

Em um estado de feliz excitação que durou cerca de quatro horas, o Padre Serafim recusou a assistência dos médicos e depois, mais calmo, levantou-se. Para assombro geral deu alguns passos na cela e, peIa primeira vez em oito dias, aceitou um pouco de alimento: um bocadinho de chucrute e pão.

Sua saúde, desde então, fez notáveis progressos. Cinco meses mais tarde ele, pedia a benção do abade para reintegrar seu "Pequeno Deserto longínquo." Mas o Padre Isaías hesitava. O eremita não era mais o homem de porte atlético que era conhecido antes do atentado, mas, às portas do cinquentenário, um ancião curvado andando com difi — culdade, com a ajuda de um machado ou bengala. Foi assim que ficou gravado na memória de seus contemporâneos: "um velhinho encarquilhado, todo branco, todo seco, vestido com um casacão branco."

Neste meio tempo, os culpados haviam sido encontrados — três camponeses de uma aldeia vizinha, Kremenok. O Padre Serafim opôs-se enerticamente à ideia de inflingir-lhes o menor castigo. Porém um destes incêndios terríveis que fazem arder os isbas das aldeias russas devastou Kremenok. As casas dos malfeitores foram o alimento das chamas. "O céu os puniu" diziam todos. Interpretando assim seu infortúnio, os pobres diabos acorreram, arrependidos, para se jogar aos pés do santo homem que eles quase assassinaram.

O perdão às ofensas sempre foi, para um fiel russo, a pedra de toque de um Cristianismo autêntico. Pouco depois do batismo do país pelo Príncipe Vladimir, seus dois filhos, Boris e Gleb, deixaram-se assassinar, após a morte de seu pai (1905), pelos emissários de um irmão mais velho temeroso de sua influência. Eles eram jovens cheios de vida. Mas, ao invés de derramar sangue em uma luta fratricida, como cordeiros que se levam ao matadouro, eles não ofereceram nenhuma resistência. O povo russo recém-convertido ao cristianismo compreendeu sua atitude e pediu sua canonização. Os Bizantinos ficaram atônitos. Aqueles jovens príncipes não eram confessores, nem doutores, nem mártires propriamente ditos. Eles eram "strastorerpzi" — "os que sofreram a paixão" — responderam os russos. Seu heroísmo, pode-se talvez dizer, ao inverso, sem ostentação, particularmente apreciado por seus compatriotas, inimigos de gestos largos e atitudes teatrais, colocou-os repentinamente entre os santos mais amados. Pode-se vê-los em ícones, lado a lado, montando fogosos cavalos cor de noite, cor de aurora, enquanto que, do alto do céu, a mão do Cristo os abençoa. Por intermédio destes inocentes, o Cristo sofredor, paciente e doce fez, desde o começo, Sua entrada na igreja russa para não mais sair. Perseguida, ela não maldisse seus inimigos. Um de nossos contemporâneos, Sylvain de Athos, morto em estado de perfeição espiritual na península da Virgem (+ 1938), escrevia: "Você pergunta como poderia eu amar o inimigo que persegue nossa igreja? Respondo: sua pobre alma não conheceu a Deus, não compreendeu o que significa: Ele nos ama de um amor infinito, Ele deseja, Ele espera que todos os homens encontrem a salvação. O Senhor é amor e Ele deu sobre a terra o Espírito Santo que ensina a alma a amar os inimigos e lhe dá a força de rezar para que também eles sejam salvos."

O gesto de Serafim de Sarov foi frequentemente citado como um exemplo, e o exemplo foi seguido. O perdão as ofensas rompe a cadeia infernal da pena de Talião, das vinganças sangrentas. "Basta perdoar aos que nos ofenderam e a alma fica em júbilo como se um nó, que nenhum esforço conseguia desatar, se rompesse" escreveu, em seus pensamentos improvisados, André Siniavsky, condenado, em nossos dias, a sete anos de trabalhos forçados em um campo de concentração.

 

O Silêncio.

De volta ao "pequeno deserto longínquo" como era chamado seu retiro devido à distância que o separava do mosteiro, o eremita se dedicou a uma nova forma de ascese: ele entrou em silêncio. Tendo começado sua vida de anacoreta após a morte de seu primeiro superior, o Padre Pakhome, ele encerrou-se em mutismo completo após o desaparecimento de seu sucessor, o Padre Isaías. Estes dois anciãos, "colunas de fogo subindo da terra ao céu" como ele os chamava, haviam acolhido, guiado, compreendido o monge fora de série que Prokhore Mochnine se tornara. Com a nova geração, os laços foram desfeitos. Propuseram-lhe o posto de abade — ele recusou. O administrador Nifon te foi eleito em seu lugar. Espiritualmente um estrangeiro.

"Prefira a ociosidade do silêncio à atividade de alimentar famintos" escreveu Isaac, o Sírio. Afirmação muito chocante para nosso século ativista e ocupado. Ela o será menos se nos dermos conta de que a linguagem ascética possui dois termos diferentes para designar o silêncio: um quer dizer simplesmente ausência de palavras, o outro indica o vazio absoluto que o homem faz em si para se preencher de Deus. É deste último silêncio que falava o Sírio. É deste silêncio que o eremita de Sarov desejava se preencher. "O silêncio é um mistério do mundo que há de vir; as palavras são instrumentos deste mundo" afirmava o Sírio. "O Silêncio absoluto é uma cruz sobre a qual o homem se crucifica com todas suas paixões e concupiscências, "acrescentou Serafim de Sarov.

Ninguém saberá jamais como ele viveu o mistério deste silêncio. Ele se cortara completamente do mundo. Quando lhe acontecia de encontrar alguém na floresta ele caía de joelhos, o rosto no chão, e permanecia nesta posição até que o passante se afastasse. Uma vez por semana, no domingo, um monge trazia-lhe um pouco de alimento. Antes de entrar, ele pronunciava a oração de costume. Tendo respondido interiormente: Amém, o silencioso abria a porta e parava na soleira, com os braços cruzados sobre o peito e os olhos baixos. O monge, após uma curta oração e uma metanóia, colocava o alimento que trouxera sobre um prato perto do qual, por sua vez, o eremita havia deposto um pequeno pedaço de pão, ou um pouco de chucrute para mostrar o que era preciso trazer no domingo seguinte. O monge, tendo novamente orado, se inclinava diante do Padre Serafim e deixava o retiro sem ter ouvido o som de sua voz. Ascética pantomina que durou dois anos.

 

A Paz.

Qual era, segundo o Padre Serafim, o fruto desta nova ascese? A paz. A paz de Cristo que ultrapassa todo entendimento. Paz mais preciosa do que todas as alegrias do mundo, para a aquisição da qual longos anos de trabalho não são demais. "Não há nada acima da paz do Cristo, dirá Serafim de Sarov. Eu te suplico, minha alegria, adquire o espírito de paz. O homem com este espírito não é perturbado por nada. É como que surdo e mudo, como morto quando se abatem sobre ele tristezas, calúnias e perseguições que todo cristão que quer seguir Cristo deve obrigatoriamente vivenciar e atravessar. Porque é por meio de muitos males que devemos entrar no Reino dos céus. É assim que os justos entraram neste Reino em comparação com o qual toda a glória do mundo não é nada. Todas as volúpias deste mundo não são nem mesmo uma sombra da felicidade reservada nos céus aos que amam a Deus. Lá está a alegria eterna, o triunfo e a festa." E ele acrescentava alguma coisa que, de repente, reconcilia a nós, os utilitários, com aquilo que teríamos tendência a condenar como mística ridícula, supérflua, inumana.

 

"Adquire a paz interior e milhares,

ao redor de ti, encontrarão a salvação."

 

Ah, cá estamos. Enfim. Eis algo que justifica e explica tantos anos de dura ascese, de dolorosas ascensões. "Milhares, ao redor de ti, encontrarão a salvação" encontrarão já na Terra aquela paz que nenhum escritório de beneficiência, nenhuma Clínica psiquiátrica pode dar, Paz que somente Cristo possui e que Ele transmite por meio de seus servidores; aquela Paz que milhares de infelizes, ávidos de justiças e carinho paternal, virão procurar.

O silencioso já estava no ponto de expandir esta Paz? Ainda não completamente.

Mas os monges se escandalizavam. Por que, perguntavam-se, o Padre Serafim não vinha mais comungar, como antes, na liturgia de domingo? Tinha ele a presunção de querer fazê-los crer que anjos, como conta-se na vida de São Pafúncio, levavam-lhe no deserto a santa comunhão? Sabia-se que feridas varicosas tinham-se aberto em suas per — nas por causa de longas jornadas em pé. O trajeto semanal até a Igreja tornava-se alem de suas forças? O novo superior reuniu os fiéis e decidiu-se enviar um ultimato ao eremita: participar da eucaristia todos os domingos e todos os dias de festa ou, se seu estado de saúde não permitisse, voltar a viver no mosteiro. A primeira vez que o monge, ao trazer o alimento, transmitiu o recado, o Padre Serafim o escutou e o deixou partir sem uma palavra. No domingo seguinte a proposta foi renovada. Após uma semana passada em oração, a decisão do eremita foi tomada; abençoou o mensageiro e, sem dizer palavra, se guiu-o. Era dia oito de maio de 1810. A floresta cantava a primavera. Ao longo do caminho, o lírio dos vales começava a florir. Apoiando-se em sua bengala, arrastando dolorosamente suas pernas doentes, o Padre Serafim ia ao encontro da mais difícil de todas as suas asceses.

 

O Recluso.

"A obediência, para o monge, é mais importante do que o jejum e a oração." O Padre Serafim o havia dito, e agia conformemente. Por obediência, este homem, com mais de cinquenta anos, experiente asceta, abandonava seu retiro florestal onde durante dezesseis anos ele se comprazerá em louvar seu Senhor e seu Deus. O período de silêncio que o Espírito lhe impunha não havia contudo terminado. Como perseverar em um mosteiro em plena atividade, ruidoso, cheio de visitantes e peregrinos? Pediu ao abade a benção para se enclausurar em sua antiga cela e receber ali os sacramentos.

Esta cela era uma pequena peça de teto baixo, mal iluminada por duas janelas estreitas dando sobre um barranco. O interior lembrava por sua pobreza o do pequeno deserto longínquo: em um canto, um ícone da Virgem com velador sempre iluminado. Um tronco à guisa de cadeira; um aquecedor — que não era usado nunca — e em frente ao aquecedor vazio, algumas achas de lenha. Na entrada que partilhava com um vizinho, o Padre Serafim guardava um caixão em carvalho bruto que ele mesmo talhara no tronco de uma arvore grossa. Seu vizinho, Frei Paulo, homem simples de coração puro, trazia-lhe, uma vez por dia, seu alimento. Como no deserto, recitava uma prece diante da porta fechada. Porém ao abri-la, o recluso não lhe mostrava nem mesmo seu rosto. Com a cabeça coberta por um pano, colocava-se de joelhos, pegava o prato e levava-o para dentro. Tendo terminado de comer, recolocava o prato defronte a porta, e seu rosto continuava invisível. Seu cardápio era sempre o mesmo: um pouco de farinha de aveia seca e um pouco de chucrute.

Cristo fizera-se obediente até a morte. Por obediência, Serafim de Sarov trocara o majestoso silêncio da floresta pelos barulhos de uma casa atarefada; o ar balsâmico das resinas, o colorido dos crepúsculos sobre a elegância dos grandes pinheiros contra a poeirenta penumbra de um cubículo de teto baixo. Dezesseis anos permaneceu trancado.

O que fazia ele? Mais do que nunca, mergulhava na leitura da Bíblia. Durante a semana, lia o Novo Testamento inteiro. Às vezes, ele comentava as leituras em voz alta. Os monges vinham escutar na porta e obtinham grande proveito espiritual. Ele tinha também visões. Uma delas levou-o, como S. Paulo, às "moradas celestes." Juntamente com seu corpo ou fora dele, ele não sabia.

Cinco anos se passaram assim. Um dia, sem sair de sua cela, o recluso abriu sua porta. Quem queria vê-lo podia entrar. Sempre mudo, ele se ocupava de suas obrigações cotidianas. Mais cinco anos e ele começou a responder perguntas, dar conselhos. No começo, somente os monges o visitavam. Foram logo seguidos por leigos. A própria Vir — gem havia dado ao recluso a ordem de recebê-los. O fluxo não parava mais. Mas ele não deixava nunca seu reduto escuro.

A falta de ar e de exercício lhe causava insuportáveis dores de cabeça. Ele saia à noite, às escondidas. Foi visto assim uma ou duas vezes, perto do cemitério, transportando algo pesado e murmurando a oração de Jesus. "Sou eu, sou eu, o pobre Serafim. . . Cala-te, minha alegria!" dizia. Sentindo suas forças diminuírem, pediu a Deus a permissão de terminar sua reclusão. E a permissão veio. Em 25 de novembro, dia em que se comemoravam os santos Clemente de Roma e Pedro de Alexandria, a Virgem Maria, enquanto o Padre Serafim dormia, apareceu-lhe em companhia deles e o autorizou a voltar a seu retiro. Tendo obtido a benção do Higumeno, o recluso, após dezesseis anos de aprisionamento voluntário, saiu abertamente em pleno dia e dirigiu-se à floresta.

 

 

 

Segunda Parte

— Em Plena Luz.

 

Retorno no Tempo.

"Vem tanta gente ver o Padre Serafim" dizia, não sem um certo mau humor, o higumeno Nifonte, "que não conseguimos fechar as portas do mosteiro antes da meia-noite."

A partir do momento em que, novamente livre, Serafim de Sarov dividiu seu tempo entre a floresta e sua cela monástica, ele deixou, efetivamente, de pertencer a si mesmo. Era às multidões que ele pertencia daí por diante. Tinha sessenta e seis anos. Havia passado os dezesseis primeiros anos de sua vida religiosa no mosteiro. O homem maduro — a partir dos trinta e cinco anos — escondera-se na floresta, escolhera se enclausurar durante 16 anos em sua cela monástica. Quase meio século de preparação para um ministério que devia durar oito anos. Havia ele vivido este meio século fora do tempo? Nada indica, mas poucas informações que se tem a seu respeito, a menor influência dos acontecimentos contemporâneos na formação espiritual de Serafim de Sarov. A história, entretanto, neste interim, seguia seu curso.

Ele recém havia se retirado para a floresta quando terminava, em meio à inquietude, o brilhante reinado de Catarina. Atemorizada com as primeiras medidas da Marseillaise, a Imperatriz, para obter da nobreza reacionária o perdão por sua aproximação epistolar com Voltaire e Diderot e sua leitura de "O Espírito das Leis" de Montesquieu, prendeu definitivamente os camponeses à terra, transformando a servidão de outrora em verdadeira escravidão. O reinado, felizmente curto, de seu filho Paulo, cabe-de-esquadra prussiano que via jacobinos em toda parte e semeava pânico ao seu redor, terminou em um assassinato trágico (1801). Sucedendo-lhe aos 24 anos, Alexandre I, neto adorado da grande Catarina, foi aclamado como libertador. Educado por um preceptor suíço, discípulo de Rousseau, belo, elegante, cortês, o novo monarca encheu de esperanças os corações da jovem nobreza livre-pensadora. Seus admiradores chamavam-lhe "nosso Anjo" os desconfiados — a "esfinge charmosa." Completamente envolvido na política européia, ora se desentendia, ora se reconciliava com Napoleão.

Serafim de Sarov havia entrado no silêncio quando, em 1812, Moscou ardeu e a Grande Armada foi engolida pela neve. Finalmente vencedor, o Anjo revelou-se um engodo. Sonhando com uma Europa unida antes do tempo, ecumênica antes da hora, ele próprio enganado por Metternich e a Santa Aliança, foi buscar a ortodoxia junto a um arquimandrita pouco confiável, Fotius, a mística junto a uma madame Kruedener e caiu, finalmente desiludido, na influência de um verdadeiro monstro que ele considerava fiel: o sádico e reacionário general Arakcheev.

O fim deste soberano ambíguo, deste Janus de duas caras, permanece um mistério que a história não consegue elucidar. Será que ele morreu — jovem ainda — como quer a versão oficial, na cidadezinha de Tagamog, na costa de Azov, cujo clima convinha, ao que parece, à saúde vacilante da Imperatriz? Ou, como afirmam alguns e como quer a espiritualidade russa, será que ele colocou em um caixão, no lugar do seu, o corpo de um soldado recém falecido, e foi-se, peregrino sem dinheiro e sem passaporte, pelas estradas de seu imenso império, para acabar na Sibéria onde viveu longos anos, conhecido pelo nome de "Staretz Feodor Kouzmitch"? Por mais inverossímil que isto possa parecer a um ocidental (imagine só um Louis-Philippe carregando um alforje de peregrino mendigante!), é bem possível que a segunda versão seja a verdadeira.

 

O Imperador.

Foi em 1825, ano em que Serafim de Sarov terminava sua reclusão. Um monge que, mais tarde, iria contar a história a um oficial da marinha iniciado em religião no Deserto de Sarov, reparou um dia que o Padre Serafim limpava e varria sua cela com um cuidado incomum. Ao cair da tarde, uma "troïka" parou em frente à escadaria. Vindo a seu encontro, o staretz curvou-se até o chão, saudando o oficial que desceu. Em seguida, ambos se retiravam para a cela do Padre e lá ficaram trancados durante cerca de três horas. Era noite quando o desconhecido saiu para retomar seu lugar na carruagem. O staretz disse, do alto da escada à guisa de adeus, estas misteriosas palavras: "Lembra-te, Senhor, do que te disse, e cumpre-o." O monge, intrigado, teria se escondido e teria ouvido.

O que dá um certo peso a este relato é a ausência do Imperador, durante três dias, da cidade de Nizhni-Novgorod, distante de 60 kilometros de Sarov, onde, na época, ele ficava. O emprego do tempo imperial não fala nada destes dois dias. Alexandre gostava de agir as ocultas. Era assim que frequentemente visitava — alma atormentada — monges reputados por sua vida de oração. Por intermédio dos nobres próximos a ele — proprietários de terra dos arredores é possível que tenha ouvido falar do eremita. O trajeto de Nizhni Novgorod ao Deserto de Sarov, devido ao estado deplorável das estra — das, exigia pelo menos dois dias. Teria o "humilde" Serafim, de posse da paz de Cristo, oferecido seus conselhos e dado sua benção ao soberano, dono da sexta parte do globo que, do alto de sua glória, teria visto o abismo de todas as vaidades? Não se pode afirmar, nem negar*. A família imperial entrou, mais tarde, em contato com Feodor Kouzmitch que viveu na Sibéria até uma idade bastante avançada, porém desencorajou todas as especulações a seu respeito.

 

* Maurice Paléologue, embaixador da França em L. Petersburgo, publicou em Paris, após a revolução de 1917, um livro cujo objetivo é de provar que o staretz Feodor Kouzmitch e o Imperador Alexandre eram a mesma pessoa.

 

O Staretz.

"Staretz" — doravante, assim era chamado o eremita de Sarov. Literalmente, "staretz" quer dizer "ancião" "yerontas" em grego. Tomado no sentido monástico, um pai espiritual. São Paulo já reclamava para si esta paternidade quando escrevia aos Coríntios: "Pois eu vos gerei pelo Cristo Jesus" (l Cor. 4:15) e aos Gálatas: "Meus filhos, por quem de novo sofro as dores do parto" (Gal. 4:19). Nos mosteiros orientais, os "anciãos" guiavam noviços. Grandes santos foram formados por "startzi." Simeão o Novo Teólogo proclamava dever tudo a seu staretz, Simeão o Piedoso. Mas na Rússia, o "starchestvo" — o ministério do Staretz — novamente posto cm vigor por Paissy Velitchkovsky no fim do séc. XVIII, tornou-se, pode-se dizer, uma verdadeira instituição que teve um papel considerável na história do país. Serafim de Sarov foi o primeiro, o maior, destes homens de Deus. Após sua morte, o carismo do "Starchestvos" sob cuja forma "a santidade dos tempos passados voltou à vida na santidade moderna de uma forma tão tradicional e ao mesmo tempo tão surpreendente por sua novidade" passou para o "Deserto" de Optino onde, tornada hereditária, manifestou-se em várias gerações de "Startzi" que se sucederam até a Revolução. Como se sabe, Tolstoi e Dostoievsky foram a Optino buscar a sabedoria. E convertido por sua mulher, o filósofo Kireyvsky escrevia: "Todos os livros, todas as obras do espírito não valem, a meu ver, o exemplo de um santo staretz."

O exemplo, sim. Pois é sobretudo pelo exemplo que pregavam os eleitos do Espírito. Eles próprios deviam ter feito suas provas e se mostrado dignos de seus dons. Um guia inexperiente é perigoso. É um destes cegos de quem fala o Evangelho que cai num buraco junto com aquele que pretendia levar ao bom caminho. "O Senhor não abençoa aqueles que se contentam em ensinar, mas antes aqueles que pela prática anterior dos mandamentos mereceram ver e contemplaram em si mesmos a luz resplandecente e cintilante do Espírito e que, nesta visão, neste conhecimento e influxo, conheceram pelo Espírito aquilo de que devem falar e que devem ensinar aos outros" escreveu S. Simeão o Novo Teólogo."

Com sua habitual bondade, bem russa, Serafim de Sarov confirmava as palavras do grande Bizantino: "Sei que ele é muito hábil em inventar sermões" dizia ele de um teólogo a quem ia ser apresentado. Porém, ensinar é tão fácil quanto jogar pedras do alto de nosso campanário. Quanto a executar o que ensinamos, é tão difícil quanto levar pedras para o alto do campanário. Esta é a diferença entre o ensinamento e a prática."

Uma tirada talvez discutível, mas não desprovida de verdade, conta que existe um peregrino adormecido em cada russo, e que cada russo está pronto a percorrer centenas de kilômetros para encontrar um "staretz" autêntico. A reputação do staretz Serafim crescia dia após dia; multidões — não raro vários milhares de pessoas de uma vez — invadiam o Deserto de Sarov. O que viam elas lá?

Um velhinho, "todo branco, encarquilhado, sequinho" de olhos azuis e com um sorriso "incompreensivelmente radioso." Sua acolhida, para todos, era a mesma: "Bom dia, minha alegria!" ou ainda "Cristo ressuscitou!" — saudação pascal, cara a seus compatriotas.

Decididamente otimista: "Não sigamos o caminho do desencorajamento, proclamava ele, batendo alegremente com o pé no chão. Cristo venceu tudo. Ele ressuscitou Adão. Ele restaurou Eva em sua dignidade. Ele matou a morte!"

Contudo, às vezes: "Que infortúnio vejo chegar a mim! que infortúnio!" exclamava ao distinguir alguém na assembléia. E, antes que o aflito tivesse tempo de lhe dizer qualquer coisa: "Eu sei, eu sei!" repetia. E, abraçando-o, chorava com ele.

 

O Resultado da Ascese.

A coroação das explorações ascéticas é o amor.

Amadurecido em perfeito silêncio, o recluso intercede pelo mundo inteiro em sua prece. "Porém aquele, disse Isaac o Sírio, que entra em relação com os homens e ignora suas misérias, crendo ser mais fiel assim às austeridades de sua regra, não é misericordioso, e sim cruel. . . Quem não visita um doente não verá a luz. Quem desvia sua face de um aflito, verá seu dia tornar-se em trevas. E os filhos daquele que não ouve a voz do sofrimento irão, cegos, às apalpadelas, procurar um refúgio. . . pois a cada existência sua hora, seu lugar e sua particularidade."

Houve um tempo em que o Padre Serafim obstruía com troncos de árvores o caminho do Pequeno Deserto Longínquo, recusava-se a falar com seus semelhantes e escondia sua face perante eles. Agora sua hora era chegada.

— Admitamos, dizia ele, que eu feche a porta de minha cela. Aqueles que virão, esperando uma palavra reconfortante, implorar-me-ão, em nome de Deus, de abrir. Não tendo recebido resposta, irão tristonhos para casa. Que álibi poderei apresentar a Deus no dia de Seu terrível julgamento?

Sua paciência era inesgotável. Ele escutava cada um com atenção e doçura, mas não abria indistintamente perante todos os tesouros de seus carismas.

— Não se deve, dizia ele, abrir sem necessidade, seu coração a outros. Entre mil haverá um único, talvez, capaz de entrar em seu mistério. Com um homem psíquico, deve-se falar em coisas humanas. Mas com aquele que tem a inteligência aberta ao sobrenatural, deve-se falar de coisas celestes.

 

Da Clarividência.

"Eu sei" dizia o staretz. Mas como ele sabia? Um de seus amigos, o Padre Antônio, higumeno do mosteiro de Vissokogorsk, um frequentador assíduo de Sarov, um dia foi testemunha de uma conversa entre o santo homem e um comerciante de Vladimir que via pela primeira vez, mas cuja alma era como se fosse um livro aberto. O Padre Antonio lhe perguntou em seguida como ele conseguia penetrar nas profundezas mais íntimas de cada consciência sem fazer perguntas, sem esperar confidências.

A resposta do staretz abre-nos os olhos. "Ele vinha até mim, respondia, falando do comerciante, como os outros, como você, vendo em mim um servo de Deus; e eu, indigno Serafim, me considero um pobre servo de Deus, e o que Deus ordena a seu servo, eu transmito. O primeiro pensamento que me ocorre, suponho que é Deus que o manda, e falo sem saber o que se passa na alma de meu interlocutor, mas crendo que é a vontade de Deus e que é para seu bem. Às vezes, me fiando em minha própria razão, eu respondia, achando que era fácil. Nesse caso, produziam-se erros. Como o ferro se entrega à bigorna, eu entrego minha vontade a Deus. Ajo como Ele quer. Não tenho vontade própria." Porém o Padre Antonio replicou que o staretz via a alma de um homem, como um rosto no espelho, por causa da pureza de seu espírito. O Padre Serafim pôs a mão direita sobre a boca do higumeno. "Não, minha alegria, não se deve falar assim. O coração humano é aberto unicamente a Deus. Se o homem se aproxima, vê como o coração do outro é profundo" (Sal. 64:7) O staretz não ia do homem a Deus, mas do Deus ao homem. Não fazia psicanálise, mas punha-se à escuta do Espírito.

"Ele advinha" diziam os camponeses. Um deles correu uma bela manhã pedir a ajuda do staretz em um assunto para ele vital: haviam-lhe roubado o cavalo, e sem cavalo ele não poderia trabalhar nem alimentar sua família. "O Padre Serafim, conta uma testemunha ocular, pegou em suas mãos a cabeça do camponês e aproximou-a da sua. "Envolve-se em silêncio, disse-lhe, vai a X (designou um vilarejo vizinho). Antes de entrar neste vilarejo, vira à direita. Percorre, por trás, quatro pátios de fazendas. Veras então um portão. Empurra-o, pega teu cavalo e leva-o sem dizer nada." O que foi feito.

O staretz era aquilo que chamamos, hoje em dia, "social"? Nas raras instruções espirituais deixadas por escrito, ele nos da estas linhas significativas: "Ao se aproximar dos homens, é preciso ser puro em palavras e espírito, igual para com todos (grifo nosso), nunca elogiar ninguém — senão, tornaremos nossa vida inútil." Estava inteirado das condições miseráveis da vida camponesa, o que não fazia dele um revolucionário. Tanto quanto São Paulo, ele não pregava a abolição da escravatura, mas chamava ao coração e à consciência de cada um. Ao tocar com o dedo as cruzes que ornavam o peito de certas altas dignidades, lembrava-lhes que foi sobre uma cruz que o Senhor morrera e que, conseqüentemente, as cruzes que eles ostentavam, ao invés de ser objeto de orgulho, deviam ao contrario inspirar-lhes uma conduta digna de um cristão. A um funcionário importante e rabugento que se recusava a receber durante muito tempo, tendo-lhe finalmente aberto a porta, perguntou: "vosso pessoal não age para com os que vêm vos ver como eu agi para convosco? "O Patrão não está em casa" dizem eles; ou "O Patrão não tem tempo." Entristecendo assim, vosso próximo, atraís sobre vós a cólera divina." Ouviu-se um orgulhoso general, vindo a ele por curiosidade, chorar como uma criança em sua cela. "Atravessei toda a Europa com os exércitos russos, explicou ele mais tarde, e nunca encontrei nada parecido: toda minha vida estava aberta perante ele, até os mínimos detalhes, ignorados por todos." Por outro lado, o staretz amou o grande Senhor que era o príncipe Golitzine, chegado incógnito a Sarov. Ao se separar dele, instou-lhe que prestasse uma atenção especial no último versículo do Credo: "Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir."

 

 

Paternidade Maternal.

Entre os visitantes que ele recebia, havia naturalmente muitos monges e clérigos. Um deles, aquele higumeno de Vissokogorsk, Antonio, que havia feito ao staretz perguntas sobre sua clarividência, acorreu um dia para contar-lhe a angústia que o sufocava. Crendo que sua morte estava próxima, ele vinha se despedindo de todos os que o cercavam, em seu mosteiro. "Você não esta entendendo bem, minha alegria" disse-lhe afetuosamente o staretz. Você deixará o mosteiro, mas não morrerá. Você será colocado à frente de um grande Mosteiro." A predição não demorou a se realizar. O Padre Antonio foi designado pelo Metropolita Filareto de Moscou para representá-lo como vigário naquela abadia, venerável entre rodas, a Trindade-São-Sérgio. As recomendações que lhe fez o staretz, prevendo esta nomeação, podem e devem ser comparadas às que outrora ele fez a um noviço, a respeito da vida religiosa (ver na la parte). Vistas em conjunto, elas formam como que um par onde o comportamento do superior e o dos inferiores se harmonizam, completando-se.

"Seja para teus monges antes uma mãe do que um pai, dizia ele a Antonio*. Todo superior deve ser — e permanecer — para suas ovelhas como uma mãe sensata. Uma mãe amorosa não vive para si, mas para suas crianças. Ela suporta com amor as enfermidades dos doentes; ela purifica os que estão sujos, lava-os suavemente, com calma; veste-os com roupas limpas e novas; calça-os, aquece-os, nutre-os; consola-os e ocupa-se em ambienta-los de forma a nunca ouvir de sua parte a menor queixa. Tais crianças são muito ligadas à mãe. Assim cada superior deve viver não para si, mas para suas ovelhas. Deve ser indulgente para com suas fraquezas; suportar com amor suas enfermidades; cobrir as feridas do pecado com emplastros de misericórdia; erguer com delicadeza aqueles que caem; purificar tranqüilamente aqueles que se sujaram por um vício qualquer, impondo-lhes uma penitência suplementar de oração e jejum; vesti-los de virtude pelo ensinamento e o exemplo; ocupar-se deles constantemente e salvaguar — dar sua paz interior de forma a nunca ouvir deles choro ou lamento. Então eles, por sua vez, farão o possível para facultar ao superior a tranquilidade e a paz."

 

* As recomendações feitas por S. Francisco de Assis aos Superiores de suas fundações são curiosamente semelhantes. Ele usa também o termo "mãe."

 

 

Ascese e Símbolos

Assim rodeado, procurado, venerado, o staretz relaxava sua ascese pessoal? "É difícil para o homem viver a glória sem prejuízos para sua alma, lia ele em seu autor preferido, Isaac o Sírio (Homilia I). Isto é difícil não somente aos apaixonados e aos que estão lutando contra suas paixões, mas igualmente aos que venceram suas paixões, santos. Ainda que lhes esteja dada a vitória sobre o pecado, a faculdade de mudar permanece. A possibilidade de retorno ao pecado não lhes é retirada. . ." A inclinação ao orgulho, observa Macário o Grande, reside nas almas mais purificadas.

Serafim de Sarov continuava a dormir sobre sacos de pedra, com uma tora como travesseiro, ou encostado na parede, com a cabeça entre os joelhos. Comia, como antes, uma vez por dia um pouco de chucrute e um bocadinho de aveia seca, vestia-se com um velho casacão branco e calçava "lapte" feitos de casca de bétula. Sua cela ainda era aquele pardieiro atravancado de garrafas de vinho de missa e de sacos de pão seco que ele distribuía em pequenos pedaços a seus visitantes. Outras garrafas continham óleo para as lamparinas.

A um discípulo que lhe perguntara por que ele acendia tantas velas e lamparinas em frente a seus ícones, o staretz respondia: "Várias pessoas me trazem óleo e velas pedindo-me para rezar por elas. Menciono seus nomes ao recitar minha regra. Mas como eles são numerosos, não poderia menciona-los cada vez que a regra exige — não teria tempo de terminar a leitura da regra, se o fizesse. Então acendo uma vela para cada um em sacrifício a Deus, às vezes uma vela grossa para muitos, e também lamparinas, e onde a regra exige que os mencione, eu digo: "Senhor, lembra-te de todas estas pessoas, teus servos, por cujas almas eu, indigno Serafim, queimo estas velas e lamparinas."

O Padre Serafim dava grande importância a este procedimento que remontava a Moisés segundo ele. Não havia Deus falado com Moisés nestes termos: "Moisés, Moisés, diz a teu irmão Arão que acenda perante Mim lamparinas de dia e à noite: isto me é agradável e um sacrifício que me agrada." Em vão procurar-se-ia na Bíblia um texto exato correspondente! É um exemplo de uma destas paráfrases bíblicas que o Padre Serafim usava frequentemente, inspiradas, no caso, do Êxodo, 40:25 e do Levítico 24:2-4.

Ele gostava de comparar a vida humana a uma vela. "Ao fitarmos uma vela acesa — sobretudo na igreja — pensemos sempre no começo, no desenrolar e no fim de nossa vida, assim como se derrete uma vela acesa perante a face de Deus, nossa vida diminui a cada instante, aproximando-se de seu termo. Este pensamento nos ajudará a não nos dispersar na igreja, a rezar com mais fervor, e a fazer o possível para que nossa vida seja semelhante a uma vela fabricada com cera pura, queimando e se apagando sem fedor."

O símbolo tem a propriedade de se infiltrar incógnito na consciência humana. Dando o exemplo, apesar de um incontestável dom da palavra, uma bela memória e uma erudição patrística alimentada por constantes leituras, o staretz frequentemente se servia de símbolos para fazer as verdades cristãs penetrarem nas almas de seus visitantes. O fogo. . . Deus é um fogo devorador. A luz. . . Deus é luz. A cera — ela não é virginal? O óleo simboliza o Espírito Santo, unção batismal e real, força do atleta, medicamento, fonte de calor que expulsa a frieza dos corações endurecidos.

 

As Mulheres.

Nesta cela tão frequentemente descrita, cujo ar, apesar do atravancamento, permanecia curiosamente puro, ele recebia todo mundo, inclusive muitas mulheres. Não havia ele um dia dito que era preciso desconfiar, como da peste, "destas gralhas pintadas"? Ao envelhecer, cheio de força espiritual como estava, sua atitude para com elas havia mudado. Foi o primeiro dentre os santos russos a se ocupar de sua sorte, prever o papel que, no futuro, lhes estava destinado.

"Nunca esquecerei, conta uma delas, como, tendo orado comigo perante o ícone da Mãe de Deus, ele pousou suas mãos quentes em minha cabeça e eu senti de repente uma força vivificante se espalhar pelo meu corpo inteiro. Levantei meus olhos para o Padre e vi que ele chorava. Uma de suas lágrimas caiu sobre minha testa. Chorava ele por mim? Não ousei lhe perguntar. . .

Chorava ele pela sorte de tantas mulheres escravas de senhores desumanos, de maridos cuja brutalidade mortificava suas almas e corpos, órfãs sem dote e sem apoio de quem outrora se ocupava sua mãe, Ágata Mochnine de memória eterna? E mais que provável.

Ao falar com casais, o staretz não entrava em detalhes de sua vida conjugal. Contentava-se em recomendar aos cônjuges a fidelidade recíproca e o amor que asseguram à família a estabilidade e a paz. Insistia na hospitalidade e na esmola. "Não negligencieis a hospitalidade pois alguns, praticando-a, sem o saber acolheram anjos," disse S. Paulo (Ite. 13:2-3). Quanto à esmola, é alegremente que deve ser dada: "Deus ama a quem dá com um coração alegre." Assim o staretz parafraseava as palavras do Apóstolo (2 Cor. 9:7).

Era grande o respeito deste monge pela família. Se um homem vinha se queixar de sua mãe alcoólatra, imediatamente tapava sua boca com a mão, para impedi-lo de falar e para mostrar que os vícios dos pais não desobrigam as crianças de honrá-los, como manda a Bíblia.

Podia-se aprender muito com os gestos simbólicos e as breves pal