Protopresbítero Michael Pomazansky (18881988)
Tradução: Rev. Pedro Oliveira Junior.
Conteúdo:
A. As Fontes da Doutrina Cristã.
A preocupação da Igreja com a pureza do ensinamento Cristão. Dogmas. As fontes dos dogmas. Sagrada Escritura Tradição Sagrada. A Consciência Católica da Igreja. Dogmas e Canons. Os Trabalhos dos Santos Padres. As verdades da fé nos Ofícios Divinos.
B. Exposições do Ensinamento Cristão.
1. Nosso conhecimento de Deus.
O dogma da fé. Crença ou fé como um atributo da alma. O poder da fé. A fonte da fé.
A natureza de nosso conhecimento de Deus
A essência de Deus. Os atributos de Deus. Sagrada Escritura concernente aos atributos de Deus. Deus é Espírito. Eterno. Boníssimo. Onisciente. Justíssimo. Todo Poderoso (Onipotente) Onipresente. Imutável. Auto-suficiente e todo bem-aventurado. A unidade de Deus.
2. O dogma da Santíssima Trindade.
Introdução. Indicações da Trindade no Velho Testamento. O ensinamento da Santíssima Trindade no Novo Testamento. O dogma da Santíssima Trindade na Igreja Antiga Os atributos pessoais das Pessoas Divinas. O nome da Segunda Pessoa O Verbo. Sobre a Processão do Espírito Santo. A igualdade da Divindade das Pessoas da Santíssima Trindade. A Unicidade da Essência; a Igualdade da Divindade; e a Igualdade de Honra de Deus, o Filho, com Deus o Pai. A Igualdade de honra e a Divindade do Espírito Santo. Transição para a Segunda Parte da Teologia Dogmática.
Introdução. O modo de criação do mundo. O motivo para a criação. A perfeição da criação.
Anjos na Sagrada Escritura. A criação dos Anjos. A natureza dos Anjos. O grau de perfeição angélica. O número e os graus dos Anjos. O ministério dos Anjos.
A alma como uma substância independente. A origem das almas. A imortalidade da alma. Alma e espírito. A imagem de Deus no homem. O propósito do homem.
A providência de Deus sobre o mundo. A Providência de Deus sobre o homem antes da queda.
5. A Respeito da Malignidade e do Pecado. Malignidade e pecado no mundo. A queda do mundo Angélico: os espíritos Malignos Queda do homem no pecado.
Porque a queda do homem no pecado foi possível? A história da queda no pecado. O que foi o pecado ao comer o fruto. As conseqüências morais da queda. As conseqüências físicas da queda. Infortúnios e morte como castigo pedagógico de Deus. A perda do Reino de Deus. A misericórdia de Deus para com o homem decaído.
6. Deus e a Salvação do Homem.
A preparação para receber o Salvador. A encarnação do Filho de Deus.
O Senhor Jesus Cristo: Deus verdadeiro. A natureza humana do Senhor Jesus Cristo. Os erros a respeito das duas naturezas de Jesus Cristo. As duas naturezas em Jesus Cristo. A natureza humana sem pecado de Jesus Cristo. A adoração una de Cristo. Sobre o culto latino do "Coração de Jesus."
Dogmas à respeito da Santíssima Virgem Maria.
A. A Perene Virgindade da Theokotos. B. A Santíssima Virgem Maria é Theotokos. O Dogma Católico Romano da Imaculada Conceição. O culto do "Imaculado Coração" da Santíssima Virgem.
A. A condição do mundo antes da vinda do Salvador. B. A salvação do mundo em Cristo. O renascimento pessoal e a nova vida em Cristo. A palavra "redenção" no uso dos Apóstolos. Uma nota sobre o ensinamento Católico Romano.
O triplo ministério do Senhor.
A. Cristo o Sumo Sacerdote. B. Cristo o Evangelizador (Seu ministério profético). C. Cristo o Rei do mundo (Seu ministério real). A deificação da humanidade em Cristo.
A Ressurreição de Cristo. Os frutos salvíficos da Ressurreição de Cristo.
A. A vitória sobre o inferno e a morte. B. O Reino de Cristo e a Igreja triunfante. C. O estabelecimento da Igreja.
O conceito da Igreja de Cristo na terra. O início e o propósito da Igreja. A Cabeça da Igreja. A ligação íntima entre a Igreja na terra e a Igreja no céu.
Sua unidade. Sua santidade. Sua catolicidade. A Igreja Apostólica.
Apóstolos. Bispos. Presbíteros (padres). Diáconos. Os três degraus da hierarquia. Os Concílios da Igreja. A ininterruptibilidade do episcopado. O aspecto pastoral da Igreja.
8. Os Santos Mistérios ou Sacramentos. A vida da Igreja no Espírito Santo.
A nova vida. A graça Divina. A providência de Deus e a graça.
O estabelecimento do Mistério do Batismo. O significado do Mistério. Os meios de realização do Mistério. A indispensabilidade do Batismo. Batismo: a porta para a recepção de outros dons.
Os meios originais de execução desse Mistério. Crisma e santificação.
As palavras do Salvador sobre esse Mistério. O estabelecimento do Mistério e sua execução nos tempos apostólicos. A mudança do pão e vinho no Mistério da Eucaristia. A maneira pela qual Jesus Cristo permanece nos Santos Dons. A Eucaristia e a Cruz. O significado da Eucaristia como um sacrifício. Conclusões de um caráter litúrgico. A necessidade da Comunhão.
A Instituição do mistério. Epitimia (Penitência). A visão Católica Romana.
Cheirotonia (na Igreja Antiga). "Eleição" e "Ordenação" na Igreja Antiga. A Essência e as Palavras da Efetuação do Mistério. O celibato dos Bispos.
O Propósito da Família Cristã. O Significado do Mistério. O Momento Central do Mistério. Matrimônio como Instituição Divina. A Indissolubilidade do Matrimônio.
A Essência do Mistério. A Divina Instituição do Mistério. Unção Entre os Protestantes e Católicos Romanos.
9. Oração Como Expressão da Vida na Igreja.
A Ligação Espiritual dos Membros da Igreja. Orações Para os Mortos. Comunhão com os Santos. O lado exterior da Oração. A veneração dos ícones. A veneração das santas relíquias.
O futuro do mundo e do genero humano. O destino do homem após a morte. Sobre as Questões dos "Pedágios." Aqui nos aproximamos do assunto dos pedágios.
Os sinais da Segunda Vinda do Senhor.
O erro do quiliasmo. O final do mundo. O julgamento final. O Reino da Glória.
Novas correntes no pensamento filosófico-teológico Russo.
A questão do desenvolvimento dogmático. Filosofia e Teologia. Sobre o sistema religioso-filosófico de Vladimir S. Soloviev. O ensinamento da Sabedoria de Deus na Sagrada Escritura.
Introdução. Testemunhos do Início da Igreja. Mártires e Ascetas. Prática Russa. Necessidade de Alta Autoridade. Conclusão.
As fontes da doutrina Cristã. A preocupação da Igreja com a pureza do ensinamento Cristão. Dogmas. As fontes dos Dogmas. Sagrada Escritura. Tradição sagrada. A consciência católica da Igreja. Dogmas e canons. Os trabalhos dos Santos Padres. As verdades da fé nos ofícios Divinos.
Exposições dos ensinamentos Cristãos. Os livros simbólicos. Sistemas dogmáticos. C. Teologia dogmática. Dogmáticas e fé. Teologia, Ciência e Filosofia.
A. As Fontes da Doutrina Cristã.
A preocupação da Igreja com a pureza do ensinamento Cristão.
Desde os primeiros dias de sua existência, a Santa Igreja de Cristo tem se preocupado sem cessar que seus filhos, seus membros, permaneçam firmes na pureza da fé.
"Não tenho maior gozo do que este: o de ouvir que os meus filhos andam na verdade" escreve o santo Apóstolo João, o Teólogo (3 Jo 4). "...escrevi abreviadamente, exortando e testificando que esta é a verdadeira graça de Deus, na qual estais firmes" (1 Ped 5:12) diz o santo Apóstolo Pedro concluindo sua epístola católica. ("Católica" significado "universal," é o nome aplicado para as Epístolas do Novo Testamento (as de Tiago, Pedro, Judas e João) que foram endereçadas, não para indivíduos ou Igrejas locais (como são todas as Epístolas de São Paulo), mas para toda a Igreja ou para fiéis em geral).
O Santo Apóstolo Paulo relata a respeito de si próprio que, tendo pregado por quatorze anos, ele foi para Jerusalém, por revelação, com Barnabé e Tito, e lá ele ofereceu especialmente para os cidadãos mais renomados o evangelho que ele pregava, "para ele que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão." "Conduz-nos pelos Teus caminhos, a fim de que caminhemos em Tua Verdade," é a primeira petição nas orações dos padres (orações que são lidas em silêncio pelo padre em frente às Portas Reais enquanto o Salmo 104 é cantado) durante o Primeiro Ofício do ciclo diário, Vésperas.
O verdadeiro caminho da fé que foi sempre cuidadosamente preservado na história da Igreja, é de há muito tempo chamado de direto, reto, em grego, orthos isso é, "ortodoxia." No Saltério do qual como nós sabemos da história nos divinos Ofícios Cristãos, a Igreja foi inseparável desde o primeiro momento de sua existência nós achamos frases como as seguintes "e tenho andado na Tua verdade" (Salm 26:3); "Saia a minha sentença diante do Teu rosto" (Salm 17:2); "aos retos convém o louvor" (Salm 33:1); e existem outras. O Apóstolo Paulo instrui Timóteo a apresentar-se perante Deus "como obreiro que não tem do que se envergonhar, dividindo justamente a palavra da verdade (isto é, cortando justamente com um cinzel, do grego orthotomounta; 2 Tim 2:15). Na literatura Cristã dos primeiros tempos há uma constante menção a se manter a "regra da fé," a "regra da verdade." O próprio termo "ortodoxia" foi largamente usado mesmo na época anterior aos Concílios Ecumênicos, a seguir na terminologia dos próprios Concílios Ecumênicos, e nos Padres da Igreja tanto no Oriente quanto do Ocidente.
Lado a lado com o caminho direto, ou reto da fé sempre existiram aqueles que pensaram diferentemente (heterodoxountes, ou "heterodoxos" na expressão de Santo Inácio, o Teóforo), uma palavra usada para maiores ou menores erros entre os Cristãos, é às vezes mesmo para sistemas completamente incorretos que tentaram explorar no meio dos Cristãos Ortodoxos. Como resultado da procura pela verdade, ocorreu divisões entre os Cristãos.
Tornando-nos familiarizados com a história da Igreja, e da mesma forma observando o mundo contemporâneo, vemos que os erros que guerrearam contra a Verdade Ortodoxa apareceram e aparecem a) sob a influência de outras religiões, b) sob a influência da filosofia, e c)através das fraquezas e inclinações da natureza humana decaída, que procura os direitos e justificativas dessas fraquezas e inclinações.
Os erros criam raízes e se tornam obstinados mais freqüentemente por conta do orgulho daqueles que os defendem, por causa do orgulho intelectual.
Assim para guardar o reto caminho da fé, a Igreja teve que forjar formas restritas para a expressão das verdades da fé: ela teve que construir as fortalezas da verdade para o repúdio de influências estranhas à Igreja. As definições da verdade, declaradas pela Igreja têm sido chamadas, desde os dias dos Apóstolos, dogmas. Nos Atos dos Apóstolos nós lemos sobre os Apóstolos Paulo e Timóteo que "quando iam passando pelas cidades, lhes entregavam, para serem observados, os decretos (Dogmas) que haviam sido estabelecidos pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém" (At. 16:4; aqui a referência é para os decretos do Concílio Apostólico que é descrito no capítulo quinze dos Atos dos Apóstolos). Entre os antigos gregos e romanos a palavra dogmat era usada para se referir a a) conceitos filosóficos, e b) diretivas que deveriam ser precisamente atendidas. No entendimento Cristão, "Dogmas" são o oposto de "opiniões," que são concepções pessoais inconstantes.
Em que são baseados os dogmas? É claro que os dogmas não são baseados nas concepções racionais de indivíduos separados, ainda que esses sejam Padres e Professores da Igreja, mas sim nos ensinamento das Sagradas Escrituras e na Sagrada Tradição Apostólica. A verdades da fé que estão contidas nas Sagradas Escrituras e na Sagrada Tradição Apostólica dão a totalidade do ensinamento que foi chamada pelos antigos Padres da Igreja de "fé católica," de "ensinamento católico" da Igreja. (Em tais frases a palavra "católica" significa "universal," referindo-se à Igreja de todos os tempos, povo e lugares, "onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre, mas Cristo é tudo em todos" (Col 3:11). Uma célebre definição de "católica" na Igreja dos primeiros tempos foi dada por São Vicente de Lerins, o Padre monástico da Gália no século quinto, que em seu Communitorium disse: "Todo cuidado deve ser tomado para mantermos firmes aquilo que foi creditado em todos os lugares, sempre e por todos. Isso é verdadeiramente e propriamente "católico" como indicação pela força e etimologia da palavra em si que compreende tudo que é verdadeiramente universal" (capítulo 2, Fathers of the Church edition, p. 270). O nome de "católica" foi mantido desde os primeiros tempos na Igreja "católica romana," mas os ensinamentos da Igreja do início foram preservados na Igreja Ortodoxa, que mesmo até os dias de hoje pode ser e ainda é chamada de "católica" em muitos lugares desse livro, Padre Michael estará contrastando os ensinamentos do Catolicismo Romano com aqueles da verdadeira Igreja católica ou Ortodoxa). As verdades da Escritura e Tradição, harmoniosamente fundidas em um único todo, definem a "consciência católica" da Igreja, uma consciência que é guiada pelo Espírito Santo.
Por "Sagrada Escritura" entende-se os livros escritos pelos santos Profetas e Apóstolos sob a ação do Espírito Santo; assim eles são chamados de "divinamente inspirados." Eles são divididos em livros do Velho Testamento e livros do Novo Testamento.
A Igreja reconhece 38 livros do Velho Testamento segundo o exemplo da Igreja do Velho Testamento (Apesar da Igreja no estrito senso ter sido estabelecida somente com a vinda de Cristo (ver Mt. 16:18), existiu num certo sentido uma "Igreja" também no Velho Testamento, composta por todos aqueles que olhavam com esperança para a vinda do Messias. Depois da morte de Cristo na Cruz, quando ele desceu ao inferno e ". ..pregou aos espíritos em prisão" (1 Pe 3:19), Ele levou para cima os justos do Velho Testamento com Ele para o Paraíso, e nesse dia a Igreja Ortodoxa celebra os dias de festa dos Santos Pais do Velho Testamento, dos Patriarcas e dos profetas igual celebra os dias de festa dos santos no Novo Testamento), muitos nesses livros são reunidos para formar um só, fazendo o número cair para vinte e dois livros, de acordo com o número de letras do alfabeto hebreu. (Os 22 livros "canônicos" do Velho Testamento são: 1. Gênesis, 2. Êxodo, 3. Levítico, 4. Números, 5. Deuteronômio, 6. Josué, 7. Juizes e Ruth, considerado como um só, 8. Primeiro e Segundos Reis (chamados de primeiro e segundo Samuel na versão de King James),9. Terceiro e Quarto Reis (Primeiro e Segundo Reis na versão de King James) 10. Primeiro e Segundo Paralipômenos (Primeira e segunda Crônicas na versão de King James), 11. Primeiro Esdras e Neemias, 12. Ester, 13. Jô, 14. Salmos, 15.Provérbios, 16. Eclesiastes, 17. Cantares de Salomão, 18.Isaias, 19. Jeremias, 20. Ezequiel, 21. Daniel, 22. Os Doze Profetas (Oséias, Joel, Amos, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias). Esta é a lista dada por São João Damasceno na Exact Exposition of the Christian faith, p 375). Esses livros, que entraram em algum tempo no cânon hebreu, são chamados de "canônicos" (A palavra "canônico" aqui tem um significado específico com referencia aos livros das Escrituras e assim deve ser distinguido do uso mais usual da palavra na Igreja Ortodoxa, onde ela não se refere ao "cânon" da Escritura, mas sim aos "canons" ou leis proclamadas nos Concílios da Igreja. Nesse sentido, "canônico" significa somente "incluído no canon hebreu" e "não canônico" significa somente "não incluído no cânon hebreu" (mas ainda aceito pela Igreja como Escritura). No mundo Protestante os livros "não canônicos" do velho Testamento são normalmente chamados de "Apócrifos," freqüentemente com uma conotação pejorativa, ainda que eles tenham sido incluídos nas primeiras impressões da versão de King James, e uma lei de 1615 na Inglaterra até mesmo proibiu que as Escrituras fossem impressas sem esses livros. Na Igreja Católica Romana desde o século XVI os livros não-canônicos tem sido chamados de "Deuterocanônico" isto é pertencendo a um "segundo" ou tardio cânon da Escritura. Na maioria das traduções da Bíblia que incluem os livros "não-canônicos," eles são colocados juntos dos livros canônicos; mas em impressões antigas em países ortodoxos não há distinção entre livros canônicos e não canônicos, veja-se por exemplo a Bíblia Eslavônica impressa em São Petesburgo em 1904, e aprovada pelo Santo Sínodo). A eles são juntados um grupo de livros "não-canônicos" isto é, aqueles que não foram incluídos no cânon hebreu porque eles foram escritos após o fechamento do cânon dos Livros Sagrados do Velho Testamento. (Os livros "não-canônicos" do Velho Testamento aceitos pela Igreja Ortodoxa são aqueles do "septuaginto" a tradução grega do Velho Testamento feita pelos "setenta" eruditos que, de acordo com a tradição foram enviados de Jerusalém para o Egito atendendo a pedido do rei egípcio Ptolomeu II no terceiro século B.C. para traduzir o Velho Testamento grego. Os originais hebreus da maioria dos livros, e a maioria dos livros foram compostos somente nos últimos séculos antes de Cristo. Os livros "não-canônicos" do Velho Testamento: Tobias, Judith, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico ou a Sabedoria de Josué o filho de Sirach, Baruch, três livros dos Macabeus, a Epístola de Jeremias, Salmo 151, e as adições aos Livros de Ester, de duas Crônicas (a Oração de Manasses), e de Daniel (a Canção dos Três Meninos, Suzana e Bel e o Dragão) A Igreja aceita esses livros mais tardios como úteis e instrutivos e antigamente indicava-os para leitura instrutiva não só nos lares mas também nas Igrejas, por isso é que eles foram chamados de "Eclesiásticos." A Igreja inclui esses livros num só volume junto com os livros canônicos. Como uma fonte de ensinamento na fé, a Igreja os coloca em posição secundária e olha-os como um apêndice aos livros canônicos. Alguns deles estão tão perto em mérito dos livros devidamente inspirados que, por exemplo no 85Ί cânon apostólico (os Canons Apostólicos, dos Santos Apóstolos são uma coleção de 85 canons Eclesiásticos ou leis vindas dos Apóstolos e seus sucessores e aos quais foi dada a provação oficial pela Igreja no Concílio de Quinsexto, em Trullo em 692, e no primeiro cânon do Sétimo Concílio (787). Alguns desses canons foram citados e aprovados em Concílios Ecumênicos a começar pelo Primeiro Concílio em 325, mas a coleção completa de todos os canons juntos provavelmente não foi completada antes do 4Ί século. O nome apostólico não necessariamente significa que todos os canons ou a coleção deles foram feitas pelos próprios Apóstolos, mas somente que eles estão de acordo com a tradição legada pelos Apóstolos (assim como nem todos os "Salmos de Davi" foram na verdade escrito pelo profeta Davi). Para o texto dos 85 cânon, ver Eerdemans Seven Ecumenical Councils, p. 594-600. O cânon Apostólico nΊ 85 lista os livros canônicos do Velho e Novo Testamento). Os três livros de Macabeus e o livro de Josué o filho de Sirach são listados juntos com os livros canônicos, e, a respeito de todos eles juntos, é dito que são "veneráveis e santos." No entanto, isso só significa que eles eram respeitados na Igreja antiga; mas uma distinção entre os livros canônicos e os não-canônicos do Antigo Testamento foi sempre mantida na Igreja.
A Igreja reconhece 27 livros canônicos do Novo Testamento. (Esses livros são: os 4 Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João; os Atos dos Apóstolos; as Sete Epístolas Católicas (uma de Tiago, duas de Pedro, três de João e uma de Judas); catorze Epístolas do Apóstolo Paulo (Romanos, Primeira e Segunda aos Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossensses, Primeira e Segunda Tessalônica, Primeira e Segunda Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus); e o Apocalipse (Revelação) de São João Teólogo e Evangelista). Como os livros sagrados do Novo Testamento foram escritos em vários anos da era apostólica e foram enviados pelos Apóstolos para vários pontos da Europa e Ásia, e alguns deles não tiveram uma designação refinada para nenhum lugar específico, o ajuntamento deles em uma única coleção ou código não poderia ser um assunto fácil; foi necessário manter uma vigilância estrita entre os livros de origem apostólica pois poderia haver entre eles alguns dos assim chamados livros "apócrifos," que em sua maior parte foram compostos em ciclos heréticos. Por isso, os padres e professores da Igreja, durante os primeiros séculos do Cristianismo mantiveram uma precaução especial em distinguir esses livros ainda que eles portassem o nome dos Apóstolos. Os padres da Igreja freqüentemente introduziram certos livros em suas listas com reservas, com incertezas e dúvidas, ou ainda por essa razão deram uma lista incompleta dos Livros Sagrados. Isso foi inevitável e serve como memorial para essa precaução excepcional nesse assunto santo. Eles não confiaram em si próprios mas esperaram pela voz universal da Igreja. O Concílio de Cartago que foi local, em 318, em seu cânon 33, enumera todos os livros do Novo Testamento sem exceção.
Santo Atanásio, o Grande nomeia todos os livros do Novo Testamento sem a mínima dúvida ou distinção, e em uma das suas obras ele concluiu sua lista com as seguintes palavras:" Prestem atenção no número dos livros canônicos do Novo Testamento. Eles são, como foram, o começo, as ancoras e pilares da nossa fé, porque eles foram escritos pelos próprios Apóstolos de Cristo, o Salvador que estiveram com Ele e por Ele foram instruídos (da Synopsis de Santo Atanásio). Da mesma forma São Cirilo de Jerusalém também enumera os livros do Novo Testamento sem o mais leve reparo ou qualquer tipo de distinção entre eles na Igreja. A mesma lista completa encontrada entre os escritores eclesiásticos ocidentais, por exemplo Santo Agostinho. Assim, o cânon completo dos livros do Novo Testamento da Sagrada Escritura foi confirmado pela voz católica da Igreja toda. Essa Sagrada Escritura, na expressão de São João Damasceno, é o "Paraíso Divino" (Exact Exposition of the Ortodox Faith, Livro 4, Cap 17, Eng. Tr. p. 374).
No significado original preciso da palavra, Tradição Sagrada é a tradição que vem da antiga Igreja dos tempos Apostólicos. Do segundo ao quarto século isso foi chamado de "A Tradição Apostólica."
Deve-se ter em mente que a Igreja primitiva guardava cuidadosamente a vida interior da Igreja daqueles que estavam fora delas; seus Santos Mistérios eram secretos, mantidos fora dos conhecimentos dos não-cristãos. Quando esses Santos Mistérios eram realizados Batismo ou a Eucaristia aqueles que não eram da Igreja não estavam presentes; a ordem dos ofícios não era escrita mas só transmitida oralmente; e no que era preservada em segredo estava contido o lado essencial da fé. São Cirilo de Jerusalém (4Ί século) nos apresenta isso de maneira especialmente clara. A respeito de instruções Cristãs para aqueles que ainda não tinham expressado a decisão final de se tornarem Cristãos, o hierarca precede ensinamentos com as seguintes palavras: "Quando o ensinamento catequético é pronunciado, se um catecúmeno te perguntar, O que o instrutor disse? tu não deves repetir nada para aqueles que estão sem (Igreja). Pois nós estamos te dando um mistério e esperança da era futura. Mantenha o Mistério Daquele que é o doador de recompensa, que ninguém diga a ti Qual é o mal se nós descobrimos também? Pessoas doentes também pedem por vinho, mas se lhes for dado na hora errada ele produz desordem na mente, e existem duas conseqüências malignas; o doente morre e o médico é difamado" (Prologue to the Catechetical Lectures, cap. 12).
Em uma de suas homilias seguintes São Cirilo de novo observa: "Incluímos o ensinamento completo da fé em poucas linhas, E eu desejaria que vocês lembrassem dele palavra por palavra e deveriam repeti-lo entre vocês com todo fervor, sem escreve-lo em papel, mas anotando-o por memória no coração. E vocês deveriam precaver-se pelo menos durante o tempo de vossa ocupação com esses estudos para que nenhum dos catecúmenos venha a ouvir aquilo que foi passado para vocês" (Fifth Catechetical Lecture, ch. 12). Nas palavras introdutórias que ele escreveu para aqueles que iriam ser "iluminados" isto é, aqueles que já estavam para o batismo e também para aqueles prestes que eram batizados, ele dá o seguinte aviso: "Esta instrução para aqueles que estão sendo iluminados é oferecida para ser lida por aqueles que estão vindo para o Batismo, e também pelos fiéis que já receberam o batismo; mas de modo nenhum não a dêem nem para catecúmenos nem para qualquer outro que ainda não se tornara Cristão, senão terão que responder ao Senhor. E se vocês fizerem cópia dessa leitura catequética, então, como diante do Senhor, copie isso também" (isso é, o aviso).(fim do Prologue para Catechetical Lectures). (Essas três citações são encontradas nas Catechetical Lectures, Eerdmans ed. pes. 4, 32, 5. Esse rigor com respeito a revelação dos Mistérios Cristãos (Sacramentos) para estranhos a Igreja não é mais preservada em tal nível na Igreja Ortodoxa. A exclamação "Retirai-vos catecúmenos!" antes da Liturgia dos fiéis ainda é proclamada, é verdade, mas dificilmente em qualquer lugar do mundo ortodoxo os catecúmenos ou não ortodoxos são instruídos a deixar a Igreja nesse instante. (Em algumas Igrejas eles são somente solicitados a ficar no fim da Igreja, no nartex, mais ainda porém observar o ofício). O ponto fulcral dessa ação perdeu-se no nosso tempo, quando todos os "segredos" dos Mistérios Cristão estão prontamente disponíveis para quem consegue ler, e o texto de São Cirilo Catechetical Lectures foi publicado em muitas línguas e edições. No entanto, a grande reverência que a Igreja antiga mostrava pelos Mistérios Cristãos, preservando-os cuidadosamente do olhar daqueles que eram meramente curiosos, ou daqueles que, sendo de fora da Igreja e, descompromissados com o Cristianismo, poderiam interpretar mal ou desconfiar deles é ainda mantida pelos Cristãos Ortodoxos de hoje em dia, que ainda são sérios acerca de sua fé, mesmo hoje em dia não devemos "dá pérolas aos porcos" falar muito dos Mistérios da Fé Ortodoxa para aqueles que são só curiosos sobre eles mas que não procuram juntar-se a Igreja).
Nas palavras que se seguem São Basílio, o Grande dá-nos um claro entendimento da Sagrada Tradição Apostólica: "Dos dogmas e sermões preservados na Igreja, alguns nós temos por instrução escrita, e alguns nós recebemos da Tradição Apostólica, passados em segredo. Tanto um quanto outro tem a mesma autoridade para a piedade e ninguém ainda que seja o menos informado nos decretos da Igreja contradirá isso. Pois se nós ousarmos subverter os costumes não escritos como se eles não tivessem grande importância, nós estaremos assim fazendo imperceptivelmente mal aos Evangelhos em seus pontos mais importantes. E ainda mais, nós seremos deixados como o nome vazio na pregação Apostólica sem conteúdo. Por exemplo, prestemos atenção especialmente na primeira e mais comum das coisas que aqueles que esperam no nome de Nosso Senhor Jesus Cristo devem se assinalar com o Sinal da Cruz. Quem ensinou isso nas Escrituras? Que Escrituras instrui-nos a rezar voltados para o leste? Qual dos santos nos deixou em forma escrita, as palavras da invocação durante a transformação do pão da Eucaristia e a benção do Cálice? Pois não estando satisfeitos com as palavras que são mencionadas nas Epístolas e Evangelhos, mas antes e depois delas nos pronunciamos que também tem uma grande autoridade para o Mistério, tendo-as recebido por ensinamento não escrito. Por qual Escritura, da mesma forma, abençoamos a água do Batismo e o óleo da unção? Não é isso a silenciosa e secreta tradição? E o que mais? Que palavra escrita nos ensinou essa unção com óleo? (Isso é, a unção daqueles que estão sendo batizados; a unção do Sacramento da Unção, de outro lado, é claramente indicado nas Escrituras (Tess 5:14)) Aonde é encontrada a tripla imersão e todo o resto que tem a ver com o Batismo, a renúncia a Satanás e seus anjos? De que Escrituras são tomadas? Não é desse ensinamento não publicado e não falado que nossos padres preservaram em silêncio inacessível a curiosidade e escrutínio, porque eles foram inteiramente instruídos a preservar em silêncio a santidade dos Mistérios? Que propriedade teria proclamar por escrito um ensinamento referente aquilo que não é permitido para os não batizados sequer contemplar?" (On The Holy Espirit, cap. 27).
Dessas palavras de São Basílio, o Grande devemos concluir: primeiro, que a sagrada tradição do ensinamento da fé é aquela que pode ser rasteada até o período mais antigo da Igreja, e segundo, que tenha sido cuidadosamente preservada e unanimente reconhecida entre os padres e professores durante a época dos grandes padres e o início dos Concílios Ecumênicos.
Apesar de São Basílio ter dado uma série de exemplos da "tradição oral," ele próprio nesse mesmo texto deu passos na direção de "gravar" essas palavras orais. Durante a era de liberdade e no triunfo da Igreja no quarto século, quase toda tradição em geral recebeu uma forma escrita e está agora preservada na literatura da Igreja, e que resulta num suplemento da Sagrada Escritura.
Nós encontramos essa antiga sagrada Tradição
anteriores nota sobre Canons dos Santos Apóstolos);
A Tradição Apostólica que tem sido preservada e guardada pela Igreja pelo simples fato que ela tem sido mantida pela Igreja, torna-se a própria Tradição da Igreja, "pertence" a ela, e testifica sobre ela, e, em paralelo à Sagrada Escritura é chamada pela Igreja, "Sagrada Tradição."
O testemunho da Sagrada Tradição é indispensável para nossa certeza que todos os livros da Sagrada Escritura nos foram entregues vindos dos tempos Apostólicos e são de origem apostólica. A Sagrada Tradição é necessária para o correto entendimento de passagens separadas das Sagradas Escrituras, e para refutar interpretações heréticas, e, em geral, para evitar interpretações superficiais, unilaterais, e às vezes até mesmo prejudiciais e falsas.
Finalmente, a Sagrada Tradição é também necessária porque algumas verdades da fé são expressas numa forma completa e definitiva nas Escrituras, enquanto outras não estão claras e precisas e por isso precisam confirmação pela Tradição Apostólica Romana.
O Apóstolo comanda: "Então, irmãos, estais firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa."
Além de tudo isso, a Sagrada Escritura é valiosa porque dela nos vemos como a ordem completa da organização da Igreja, os canons, os Ofícios Divinos e ritos são enraizados no modo de vida da Igreja dos tempos antigos. Assim, a preservação da "Tradição" expressa a sucessão da verdadeira essência da Igreja.
A Consciência Católica da Igreja.
A Igreja Ortodoxa de Cristo é o Corpo de Cristo, um organismo espiritual cuja cabeça é o Cristo. Ela tem um único espírito, uma única fé comum, uma única e comum consciência católica, guiada pelo Espírito Santo; e seus raciocínios são baseados nas concretas e definidas fundações da Sagrada Escritura e da Sagrada Tradição Apostólica. Essa consciência é expressada nos Concílios Ecumênicos da Igreja. Desde uma profunda antigüidade Cristã, concílios locais de Igrejas separadas reuniam-se duas vezes por ano, de acordo com o 37Ί cânon dos Santos Apóstolos. Da mesma forma, freqüentemente na história da Igreja existiram concílios de bispos regionais representando uma área mais ampla do que a de Igrejas individuais e, finalmente concílios de bispos de toda a Igreja Ortodoxa tanto do Oriente quanto do Ocidente. Tais Concílios Ecumênicos a Igreja reconhece em número de sete. Os Concílios Ecumênicos também formularam numerosas leis e regras governando a vida pública e privada da Igreja Cristã, que são os chamados canons da Igreja, e que requeriam sua observância universal e uniforme. Finalmente, os Concílios Ecumênicos confirmaram decretos dogmáticos de numerosos concílios locais e também regras dogmáticas compostas por certos padres da Igreja por exemplo a confissão de fé de São Gregório, o Taumaturgo, Bispo de Neo-Cesareia (Para o texto das "Epístolas Canônicas" de São Gregório, ver Seven Ecumenical Councils, p. 602, Eedermans), o cânon de São Basílio, o Grande (O texto dos canons de São Basílio é encontrado no mesmo livro de Eedermans nas p. 604-611), e assim por diante.
Quando na história da Igreja, aconteceu que concílios de bispos permitiram pontos de vistas heréticos serem expressos em seus decretos, a consciência católica da Igreja foi perturbada e não foi pacificada até que a autêntica verdade Cristã fosse restaurada e confirmada por meio de outro concílio (concílios verdadeiros aqueles que a verdade Ortodoxa são aceitos pela consciência católica da Igreja; concílios falsos aqueles que ensinam heresia ou rejeitam algum aspecto da Tradição da Igreja são rejeitados pela mesma consciência católica. A Igreja Ortodoxa é a Igreja não de concílios como tais, mas dos verdadeiros concílios, inspirados no Espírito Santo, e que se conformam com a consciência católica da Igreja). Deve-se lembrar que os concílios da Igreja fizeram seus decretos dogmáticos: a) depois de um cuidadoso, perfeito e completo exame de todas as passagens da Sagrada Escritura que tocassem em um determinado assunto, b) então verificando que a Igreja Ecumênica tivesse entendido as citadas passagens da Sagrada Escritura de modo preciso. Desse modo os decretos dos concílios concernentes à fé expressam a harmonia da Sagrada Escritura e a Tradição católica da Igreja. Por essa razão esses decretos tornaram-se, por sua vez em uma autentica, inviolável, autorizada, Ecumênica e Sagrada Tradição da Igreja, baseada em fatos da Sagrada Escritura e na Tradição Apostólica.
Certamente, muitas verdades da fé são tão imediatamente claras na Sagrada Escritura que não foram sujeitas a interpretações heréticas; por isso a respeito delas não há decretos específicos dos concílios. Outras verdades no entanto foram confirmadas por concílios.
Entre todos os decretos dogmáticos dos concílios, os próprios Concílios Ecumênicos reconhecem como primário e fundamental o Símbolo da Fé de Nicéia-Constantinopla (O "Credo" ("creio em um só Deus...) que é cantado em toda Divina Liturgia da Igreja Ortodoxa e lido em diversos outros lugares nos Divinos Ofícios diários) e eles proibiram qualquer modificação que fosse, nele, por adição ou subtração (decreto do Terceiro Concílio Ecumênico, repetido pelo Quarto, Quinto, Sexto e Sétimo Concílios).
Os decretos relativos à fé que foram feitos por inúmeros concílios locais e também certas exposições de Fé pelos Santos Padres da Igreja, são reconhecidos como guias para toda a Igreja e são enumerados no segundo cânon do Sexto Concílio Ecumênico (em Trullo; O "Quinsext" Concílio em Trullo (642) foi de fato reunido onze anos depois do Sexto Concílio Ecumênico, mas seus decretos são aceitos na Igreja Ortodoxa como a continuação dos Canons do Sexto Concílio Ecumênico. O texto desses canons pode ser lido no Seven Ecumenical Council, p. 361, e os canons dos concílios locais e exposições dos Santos Padres que foram aprovados nesse "cânon" estão impressos no mesmo volume p. 409-519, 584-645).
Na terminologia eclesiástica dogmas são as verdades do ensinamento Cristão, as verdades da fé, e canons são as prescrições: relacionadas com a Igreja, governo da Igreja, obrigações da hierarquia e do clero da Igreja e de todo o Cristão, que fluem do embasamento moral do ensinamento evangélico e Apostólico. Cânon é uma palavra grega que significa literalmente "uma vara reta, uma medida de direção precisa."
Os Trabalhos dos Santos Padres.
Para orientação em questões de fé, para o correto entendimento da Sagrada Escritura, e de maneira a distinguir a autêntica tradição da Igreja dos falsos ensinamentos, nós apelamos para os trabalhos dos Santos Padres da Igreja, reconhecendo que a concordância unânime de todos os padres e professores da Igreja ao ensinar a fé é um indubitável sinal de verdade. Os Santos Padres permaneceram na fé, não temendo nem ameaças, nem verdades da Fé: 1) dão precisão à expressão das verdades do ensinamento Cristão e criam a unidade da linguagem dogmática; 2) acrescentam testemunhos dessas verdades com a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição e também trazem argumentos baseados na razão. Em teologia, atenção é dada também para certas opiniões particulares (em grego: theologoumenaI) dos Santos Padres ou professores da Igreja em questões que não foram precisamente definitivas e aceitas por toda a Igreja. No entanto, essas opiniões não devem ser confundidas com dogmas no sentido preciso da palavra. Existem algumas opiniões particulares de certos padres e professores que não são reconhecidas como estando de acordo com a fé católica geral na Igreja, e não são aceitas como guias da fé. (Com exemplo de tais "opiniões particulares," pode-se tomar a opinião errada de São Gregório de Nissa que o inferno não é eterno e que todos inclusive os demônios serão salvos no fim. Essa opinião foi rejeitada decisivamente no Quinto Concílio Ecumênico por contradizer a "consciência católica da Igreja," mas o próprio São Gregório é ainda aceito como santo e Santo Padre na Igreja Ortodoxa e seus outros ensinamentos não são questionados. Sobre a atitude Ortodoxa para com tais "opiniões particulares" erradas dos padres, e especificadamente, a respeito dos ensinamentos de Padres como São Photius, o Grande e São Marcos de Éfeso, ver o artigo "The Plave of Blessed Augustine na Igreja Ortodoxa" em The Orthodox Word, 1978, nΊs. 79 e 80, é impresso também como um livrete separado, São Herman do Alasca Brotherhood, 1983).
As verdades da fé nos Ofícios Divinos.
A consciência Católica da Igreja, quando ela se preocupa com o ensinamento da fé, também é expressa nos Divinos Ofícios Ortodoxos que nos foram passados pela Igreja Ecumênica. Entrando-se profundamente no conteúdo dos livros dos Divinos Ofícios nós nos tornamos mais firmes no ensinamento dogmáticos da Igreja Ortodoxa. (Deve-se notar que os compositores e compiladores dos Ofícios Divinos foram freqüentemente grandes teólogos. Por exemplo, o Octoechos ou livro dos ofícios diários nos Oito Tons, é essencialmente obra de São João de Damasceno, o Santo Padre do 8Ί século que reuniu a teologia Ortodoxa da grande era patrística).
B. Exposições do Ensinamento Cristão.
As interpretações do Símbolo da Fé, ou os "Guias Simbólicos" (do grego symballo, significando "unir"; symbolom um sinal unitivo ou condicional) da Fé Ortodoxa, no significado comum desse termo, são aquelas exposições de fé Cristã que são dadas no Livro de Canons dos Santos Apóstolos, nos Santos Concílios Locais e Ecumênicos, e nos Santos Padres. A teologia da Igreja Russa também faz uso, como livros simbólicos, daquelas duas exposições de fé que em tempos mais recentes foram evocadas pela necessidade de apresentar o ensinamento Cristão Ortodoxo contra ensinamentos de confissões não-ortodoxas no segundo milênio. Esses livros são: A Confissão da Fé Ortodoxa compilada pelo Patriarca de Jerusalém, Dositeus, que foi lida e aprovada no Concílio de Jerusalém em 1672 e, cinqüenta anos depois, em resposta a uma inquirição recebida da Igreja Anglicana, foi enviada para essa Igreja em nome do todos os Patriarcas Orientais e por isso ficou mais conhecida pelo nome de "A Encíclica dos Patriarcas Orientais Sobre a Fé Ortodoxa." Também incluída nessa categoria está a Orthodox Confession de Peter Mogica, metropolita de Kiev, que foi examinada e corrigida em dois concílios locais, o de Kiev em 1640 e o de Jassy em 1643, e então aprovada por quatro Patriarcas Ecumênicos e pelos Patriarcas russos Joaquim e Adrian. O Catecismo Cristão Ortodoxo do Metropolitan Philaret de Moscou goza de importância similar na Igreja Russa, particularmente a parte que contem a exposição do símbolo da fé. Esse catecismo foi "examinado e aprovados pelo Santo Sínodo e publicado para instrução nas escolas e para o uso de todos os Cristãos Ortodoxos."
À tentativa de se ter uma exposição compreensiva de todo ensinamento cristão nós chamamos de "sistema de teologia dogmática." Um sistema dogmático completo, muito valioso para a teologia Ortodoxa, foi compilado no século oitavo por São João Damasceno sob o título de Exact Exposition of the Orthodox Faith. Nesse trabalho, pode-se dizer, São Damasceno reuniu todo o pensamento teológico dos Padres do Oriente e professores da Igreja até o século oitavo.
Entre os teólogos russos os trabalhos mais completos de teologia dogmática foram escritos no século dezenove pelo Metropolita Macário de Moscou (Orthodox Dogmatic Theology, dois volumes), por Philaret, Arcebispo de Chernigov (Orthodox Dogmatic Theology, em duas partes), pelo Bispo Silvestre, reitor da Academia Teológica de Kiev (Essay in Orthodox Dogmatic Theology, with a Historical Exposition of the Dogmas, cinco volumes), pelo Arcipreste N. Malinovsky (Orthodox Dogmatic Theology, quatro volumes e A Sketch of Orthodox Dogmatic Theology, em duas partes), e pelo Arcipreste p. Svietlov (The Chistian Teaching of Faith, na Apologetic Exposition). (Esses "sistemas" russos de teologia do século dezenove estiveram fora de moda entre os teólogos acadêmicos Ortodoxos nos anos recentes, e alguns os criticaram por supostas "influências orientais" que eles mostrariam. Essa crítica, enquanto de uma certa maneira parte justificada, em sua maior parte é unilateral e injusta, e conduziu alguns a uma confiança cega nos teólogos ortodoxos de hoje como não contaminados pela "influência ocidental." A verdade do assunto é que a divisão da teologia em "categorias," sua "sistematização" (que o próprio livro presente segue) é um dispositivo bem moderno emprestado do Ocidente, mas como somente uma organização externa do sujeito-assunto da teologia. Padre Michael, ele próprio, defendeu em outro texto esse sistema de teologia pela sua utilidade no ensino da teologia nas escolas contra acusações de "escolaticismo" que são totalmente injustas. Em intenção, esses sistemas são só uma tentativa no século dezenove de fazer o que São João Damasceno fez no século oitavo, e ninguém pode negar que o conteúdo básico desses trabalhos é Ortodoxo).
O
trabalho dogmático da Igreja sempre foi dirigido para a confirmação na consciência dos fiéis das verdades da Fé, que foi confessada pela Igreja desde o começo. Esse trabalho consiste em indicar que modo de pensamento tem aquele que segue a Tradição Ecumênica. O trabalho de instrução da Igreja tem sido, batalhar contra as heresias: achar uma forma precisa de expressão das verdades da fé como recebidas da antigüidade e confirmar a correção do ensinamento da Igreja, fundamentando-o na Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição. No ensinamento da fé, é o pensamento dos Santos Apóstolos que foi e permanece sendo o padrão da totalidade e da completude da visão Cristã do mundo. Um Cristão do século vinte não pode desenvolver mais completamente ou ir mais fundo nas verdades da fé do que os Apóstolos. Por isso, qualquer tentativa que é feita seja por indivíduos ou em nome da própria teologia dogmática em revelar novas verdades Cristãs, ou novos aspectos dos dogmas que nos foram passados, ou um novo entendimento sobre eles, é completamente fora de propósito. O objetivo da teologia dogmática como um ramo do aprendizado é apresentar, com embasamento firme e provado, o ensinamento Cristão Ortodoxo que nos foi passado.Certas obras completas de teologia dogmática apresentam o pensamento dos Padres da Igreja em uma seqüência histórica. Assim, por exemplo, o acima mencionado Essay in the Orthodox Dogmatic Theology pelo Bispo Silvestre é arrumado desse modo. Deve-se compreender que tal método de exposição em teologia Ortodoxa não tem o propósito de investigar o "desenvolvimento gradual do ensinamento Cristão"; seu objetivo é inerente: é mostrar que a apresentação completa, em seqüência histórica das idéias dos Santos Padres da Igreja em todas as épocas ensinaram o mesmo acerca das verdades da fé. Mas, porque alguns deles viram o assunto de um lado, e outra do outro lado, e alguns deles trouxeram argumentos de um tipo, e outros de outro tipo, por isso a seqüência histórica dos ensinamentos dos Padres dá uma vista completa dos dogmas da fé e a completude das provas de suas verdades.
Isso não significa que a exposição teológica dos dogmas deva tomar uma forma inalterável. Cada época coloca seu modo de ver, modo de compreender, questões, heresias e protestos contra a verdade Cristã, ou ainda repete coisas antigas que haviam sido esquecidas. A teologia naturalmente leva em consideração as questões de cada época, e coloca as verdades dogmáticas de acordo com isso. Nesse sentido, pode-se falar acerca do desenvolvimento da teologia dogmática como um ramo do aprendizado. Mas não há espaço suficiente para se falar sobre o desenvolvimento Cristão da própria fé.
Teologia dogmática é para o Cristão que crê. Nem mesmo ela não inspira fé. Mas pressupõe que a fé já exista no coração. "Cri, por isso falei" diz um homem justo no Velho Testamento (Salm 116:10). E o Senhor Jesus revelou os mistérios do Reino de Deus a Seus discípulos depois que eles acreditaram Nele: "Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna, E nós temos crido e conhecido que Tu és o Cristo, o Filho de Deus (Jo 6: 68-69). Fé, e mais precisamente fé no Filho de Deus que veio ao mundo, é a pedra fundamental da teologia." "Estes porém foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seus Nome" (Jo. 20:31), escreve o Apóstolo João no fim do seu Evangelho e ele repete o mesmo pensamento muitas vezes em suas Epístolas: e essas palavras dele expressa a idéia principal de todo os escritos dos Santos Apóstolos: Eu creio. Todo Cristão teologicamente deve começar com essa confissão. Sob essa condição teologizar não é um exercício intelectual abstrato, nem uma dialética intelectual, mas uma morda dos pensamentos nas verdades divinas, um direcionamento da mente e coração para Deus, e um reconhecimento do amor de Deus. Para um descrente teologizar é algo sem efeito, pois Cristo, para descrentes é "uma pedra de tropeço e rocha de escândalo" (1 Pe 28; ver Mt 21:44).
Teologia, Ciência e Filosofia.
A diferença entre teologia e ciências naturais, que estão baseadas em observação e experiências é tornada clara pelo fato que a teologia dogmática é baseada em viva e santa fé. Aqui o ponto de início é fé, e lá, experiência. No entanto, as maneiras e métodos de estudo são um só e o mesmo em ambas as esferas; o estudo dos fatos, e dedução deles tirada. Só que, nas ciências naturais as deduções são derivadas de fatos coletados através da observação da natureza, o estudo da vida dos povos, e criatividade humana; enquanto em teologia as deduções do estudo da Sagrada Escritura e da Sagrada Tradição. As ciência naturais são empíricas e técnicas, enquanto nosso estudo é teológico.
Isso esclarece também a diferença entre teologia e filosofia. Filosofia é erigida sobre bases puramente racionais e sobre ciências experimentais, na extensão que essas últimas seja capazes de serem usadas para elevadas questões da vida; enquanto teologia é baseada na Revelação Divina. Elas não devem ser confundidas; teologia não é filosofia mesmo quando mergulha nosso pensamento em profundos ou elevados assuntos da fé Cristã que são difíceis de entender.
A teologia não nega nem as ciências experimentais nem a filosofia. São Gregório, o Teólogo considerou que o mérito de São Basílio, o Grande foi dominar a dialética à perfeição com a cuja ajuda ele derrotou as construções filosóficas dos inimigos do Cristianismo. Em geral, São Gregório não simpatizava com aqueles que mostravam falta de respeito por aprendizado exterior aos assuntos de Igreja, no entanto, em suas renomadas homilias sobre a Santíssima Trindade, ele assim se coloca: "Assim, tão brevemente quanto possível, eu vos apresentei nosso amor pela sabedoria, que é dogmática e não dialética, na maneira dos pescadores e não de Aristóteles, espiritual e não engenhosamente tramada, de acordo com as regras da Igreja e não do mercado" (Homilia 22).
O curso de teologia dogmática é dividido em duas partes básicas: no ensinamento 1) Sobre Deus em Si próprio e 2) sobre Suas manifestações de si mesmo como Criador, Providência, Salvador do mundo e Aperfeiçoador do destino do mundo.
O dogma da fé. Crença ou fé como atributo da alma. O poder da fé. A fonte da fé. A natureza de nosso conhecimento de Deus. A essência de Deus. Os atributos de Deus. Sagrada Escritura concernente aos atributos de Deus. Deus é Espírito. Eterno. Todo Bondade. Onisciente. Todo Justo. Poderoso (Onipotente). Onipresente. Imutável. Auto- Suficiente e Todo Bendito. A unidade de Deus
1. Nosso conhecimento de Deus.
A primeira palavra do Símbolo da Fé Cristã é "creio." Toda a nossa confissão Cristã é baseada na fé. Deus é o primeiro objeto da crença Cristã. Assim, nosso reconhecimento Cristão da existência de Deus é fundada não em bases racionais, nem em provas tomadas na razão ou recebido de experiências de nossos sentidos exteriores, mas em uma interna e alta convicção que tem uma fundação moral.
No entendimento Cristão, acreditar em Deus significa não só aceitar Deus com a mente, mas também empenhar-se na direção Dele com o coração.
Nós cremos naquilo que é inacessível à experiência exterior, à investigação cientifica, e não pode ser recebido pelos órgãos de sentido. São Gregório, o Teólogo distingue entre crença religiosa "eu creio em alguém, em alguma coisa" e uma simples crença pessoal "Eu acredito em alguém, em alguma coisa." Ele escreve: "Não é a mesma coisa crer e acreditar." Nós cremos na Divindade, mas simplesmente acreditamos em qualquer coisa ordinária ("On the Holy Spirit," parte III, pg 88 na edição russa de suas Complete Works; p. 319 no texto inglês do Eerdmans).
Crença ou fé como um atributo da alma.
A fé Cristã é uma revelação mística da alma humana. Ela é maior, mais poderosa, mais próxima da realidade que o pensamento. É mais complexa que sentidos separados. Ela contem em si mesma os sentimentos de amor, medo, veneração, reverência e humildade. Também não pode ser chamada de manifestação da vontade, pois apesar de mover montanhas, o Cristão renuncia à sua própria vontade quando ele crê, e dá-se inteiramente à vontade de Deus: "Seja feita a Sua vontade em mim, um pecador." O caminho da fé está no coração; é inseparável do amor puro, sacrificial, "operando por caridade" (Gal. 5:6)
Logicamente, o Cristianismo é ligado também ao conhecimento da mente, e dá uma visão do mundo, mas se permanecer só uma visão do mundo, seu poder de mover se desvanece. Sem fé não existiria o vínculo vivo entre o céu e a terra. A crença Cristã é algo muito maior que as "hipóteses persuasivas" que é o tipo de crença usualmente encontrado na vida.
A Igreja de Cristo é fundada sobre a fé como sobre uma rocha que não treme sob ela. Por fé os santos conquistaram reinos, realizaram obras justas, fecharam as bocas de leões, extinguiram o poder do fogo, escaparam do fio da espada, foram reforçados na enfermidade (Heb 11:38). Sendo inspirados pela fé, Cristãos foram torturados e morreram em júbilo. A fé é uma rocha, mas uma rocha que impalpável, livre de peso, que nos dirige para cima e não para baixo .
"Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios dágua viva correrão do seu ventre," disse o Senhor (Jo. 7:38); e a pregação dos Apóstolos, uma pregação no poder da palavra, no poder do Espírito, no poder dos sinais e milagres, foi um testemunho da verdade nas palavras do Senhor. Esse é o mistério da fé Cristã viva.
"... Se tiverdes fé e não duvidardes... se a este monte disserdes: Ergue-te e precipita-o no mar, assim será feito" (Mt. 21:21). A história da Igreja de Cristo é cheia de milagres dos santos em todas as épocas. No entanto, milagres não são realizados por fé em geral, mas pela fé Cristã. Fé é uma realidade não pelo poder da imaginação e não por auto-hipnose, mas pelo fato que ela nos liga com a fonte de toda vida e poder com Deus. Na expressão do hieromartir Irineu, Bispo de Lion, a fé é um vaso que pode ser preenchido com água; mas é necessário que se esteja perto a água e que se ponha o vaso nela : esta água é a graça de Deus. "Fé é a chave para a casa de tesouros de Deus," escreve São João de Kronstadt (My Life in Christ, Vol. I, p. 242, edição russa).
A fé é reforçada e sua verdade é confirmada pelos benefícios de seus frutos espirituais que são conhecidos pela experiência. Por isso o Apóstolo nos instrui, dizendo: "Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé, provai-vos a vós mesmo. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados" (2 Cor 13:5).
Ainda assim é difícil dar uma definição que é a de fé. Quando o Apóstolo diz "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, é a prova das coisas que se não vêem " (Heb 11:1), sem tocar aqui na natureza da fé, ele indica somente no que o olhar da fé está dirigido para o que é esperado, para o invisível; e assim ele indica precisamente que a fé é a penetração da alma no futuro ("a substância das coisas esperadas") ou no invisível ("a evidencia das coisas não vistas). Isso testemunha o caráter místico da fé Cristã.
A natureza de nosso conhecimento de Deus
D
eus em Sua essência é incompreensível. Deus habita "...na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver;..." instrui o Apóstolo Paulo (1 Tim 6:16).Em suas leituras catequéticas São Cirilo de Jerusalém nos instrui: "Nós não explicamos o que Deus é, mas candidamente confessamos que nós não temos um conhecimento exato a respeito Dele. Pois com respeito a Deus, confessar a nossa ignorância é o melhor conhecimento" (6ͺ Catechetical Lecture, Eedrmans p. 33).
Eis aí porque não existe valor dogmático a ser encontrado nos vários tipos da vasta e abrangente lista de concepções e buscas racionais sobre o assunto da vida interior de Deus, e da mesma forma nos conceitos fabricados por analogia com a vida da alma humana. A respeito dos "companheiros inquiridores" de seu tempo, São Gregório de Nissa, o Irmão de São Basílio, o Grande escreve: "Homens, tenho deixado de "... deleitar-se no Senhor..." (Salm 37,4) e de rejubilar-se na paz da Igreja, entram em refinadas buscas a respeito de alguns tipos de essências e medem magnitudes, medindo Filho em comparação com o Pai, concedendo uma maior medida ao Pai. Quem dirá a eles, que aquilo que não é sujeito a números não pode ser medido; o que é invisível não pode ser avaliado; que o que é sem carne não pode ser comparado não pode ser entendido como maior ou menor, porque nós sabemos que alguma coisa é "maior," comparando-o com outras coisas, mas com alguma coisa que não tem fim, a idéia de "maior" é impensável. "Grande é o Nosso Senhor, e de grande poder; o Seu entendimento é infinito" (Sl 147:5). O que isso significa? Numere como foi dito e tu compreenderas o mistério.
O mesmo hierarca escreve adiante: "Se alguém está fazendo uma viagem no meio do dia, quando o sol com seus raios quentes queima a cabeça, e por seu valor seca toda coisa líquida do corpo, e sob seus pés está a terra dura que torna difícil o caminhar e é ressecada; e então tal viajante encontra uma fonte com jatos saindo esplendidos, transparentes, agradáveis e refrescantes e mais ainda abundantes, ele se sentará na água e começara a raciocinar sobre sua natureza, procurando de onde ela vem, como, do que, e todas as outras coisas como tais, que oradores preguiçosos estão acostumados a julgar; por exemplo: é uma certa mistura que existe nas profundezas da terra que vem à superfície sob certa pressão e torna-se água, ou são canais indo através de longos lugares desérticos e que descarregam água assim que ela acha uma abertura para si? O viajante ao invés não dirá adeus a todas deliberações racionais, inclinará sua cabeça para o jato e pressionará seus lábios contra ele, aplacará sua sede, refrescará sua língua, satisfará seu desejo, e dará agradecimentos Àquele que deu esta água? Assim, imitai vós também esse sedento" (São Gregório de Nissa, "Homily ih His Ordination," de suas obras em russo, vol IV).
No entanto, até certo ponto nós temos conhecimento de Deus, conhecimento até o ponto que ele mesmo revelou, para os homens. Deve-se distinguir entre a compreensão de Deus, o que em essência é impossível, e o conhecimento Dele, ainda que incompleto, como diz o Apóstolo Paulo, "Porque agora vemos por espelho em enigma ...e agora conheço em parte" (I Cor 13:12). O grau desse conhecimento depende da habilidade do próprio homem em conhecer (Essa distinção entre aquilo que se pode chamar de "absoluta" incognoscibilidade de Deus e a "relativa" cognoscibilidade Dele é apresentada por São João Damasceno no Livro I, capítulo I da Exatc Exposition oh the Orthodox Faith).
De onde nós derivamos o conhecimento de Deus?
a) É revelado ao homem do conhecimento da natureza, o conhecimento de si próprio, é o conhecimento de toda criação de Deus em geral. "Porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a Sua divindade, se entendem e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas ..." (Rom 1:20); isso é, o que é invisível Nele, Seu eterno poder e Sua divindade, é tornado visível pela criação do mundo através da observação das coisas criadas. Por isso, estão sem desculpa aqueles homens que tendo conhecido Deus, não O glorificam como Deus e não dão graças, mas se desvanecem em seus discursos (Rom 1:21). "O mundo é o reino do pensamento divino" (São João de Kronstadt).
b) Deus manifestou-se ainda mais em revelações sobrenaturais e através da encarnação do Filho de Deus, o Deus "havendo falado antigamente muitas vezes e de muitas maneiras, que aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho" (Heb 1:1). "Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que esta no seio do Pai, Este o fez conhecer" (Jo 1:18).
Assim, o próprio Salvador ensina a respeito do conhecimento de Deus. Tendo dito "Todas as coisas Me foram entregues por meu Pai: e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho O quiser revelar" (Mt 11:27). O Apóstolo João escreve em sua Epístola: "E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento... para que conheçamos o Deus verdadeiro ..." (1 Jo 5:20).
A Revelação Divina nos é dada em toda Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição. E a preservação, instrução e interpretação verdadeira dessa revelação divina é obrigação e preocupação da Santa Igreja de Cristo.
Mas mesmo dentro dos limites que nos são dados à luz da Divina revelação, devemos seguir a guia naqueles que purificam suas mentes por uma vida Cristã elevada e fizeram suas mentes capazes de contemplar verdades exaltadas, isto é a respeito disso, São Gregório, O Teólogo nos instrui: "Se desejas ser um teólogo e digno do divino, mantenha as leis; por meio das leis divinas vá para um objetivo elevado; pois atividade é a ascensão para a visão" ("atividade" aqui é um termo técnico freqüentemente encontrado nos textos ascéticos Ortodoxos; ele se refere aos meios (mantendo os mandamentos, disciplina ascética, etc) que conduz alguém ao fim da vida espiritual ("visão ou " contemplação" de Deus).
É isso, empenha-se e atinge a perfeição moral, pois só esse caminho dá a possibilidade de ascender às alturas de onde as verdades divinas são contempladas (homilia de São Gregório, o Teólogo).
O próprio Salvador proferiu: "Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus" (mt 5:8).
A impotência de nossa mente para compreender Deus é expressa na Igreja, nos Ofícios Divinos: "Por não termos palavras para expressar o significado de Tua incompreensível Tri-radiante divindade, como nossos corações nós Te glorificamos, ó Senhor" (do cânon do Ofício de Meia-noite do Domingo, tom 7, cânon 4).
Na antigüidade certos heréticos introduziram a idéia de que Deus é totalmente incompreensível, inacessível ao entendimento. Eles construíram suas afirmações sobre a idéia de que Deus é uma Essência simples, que não tem conteúdo interior ou qualidades. Por isso foi suficiente, dar Nomes a Deus por exemplo Theos (Deus "Aquele que vê"), ou Jeová ("aquele que é"), ou indicar Sua característica singular, Sua "não-origem," de maneira a dizer tudo que pode ser dito a respeito de Deus. (alguns dos gnósticos raciocinavam dessa maneira, por exemplo, Valentino no século segundo, e os Anomoenses no século quarto, pensaram nessa maneira). Os Santos Padres responderam a essa heresia com um protesto fervoroso, vendo nisso uma destruição da essência da religião. Respondendo aos heréticos, eles esclareceram e provaram, tanto pelas Escrituras quanto pela razão: 1) que a simplicidade da essência de Deus é unida com a completude de Seus atributos, a completude do conteúdo da vida divina, e 2) e que os próprios Nomes de deus na Divina Escritura Jeová, Eloim, Adonai e outros expressam não a verdadeira essência de deus, mas primeiramente mostra as relações de Deus com o mundo e com o homem.
Outros heréticos na antigüidade, por exemplo os Marcionitas, afirmaram que Deus é completamente desconhecido e inacessível à nossa compreensão. Por essa razão, os Padres da Igreja mostraram que existem graus do nosso conhecimento de Deus, o que é possível, útil e necessário para nós. São Cirilo de Jerusalém, em suas Leituras Catequéticas, ensina: "Se alguém diz que a essência de Deus é incompreensível, então porque nós falamos a respeito Dele? No entanto, é verdade que por que eu não posso tomar o rio inteiro eu não tomarei água dele com moderação para meu benefício? É verdade que porque meus olhos não podem enxergar tudo que o sol ilumina, eu sou então incapaz de contemplar aquilo que é possível e necessário para mim? E se vou a um grande pomar, e não consigo comer todas as frutas dali, tu queres que eu vá embora do pomar completamente faminto?" (Catechetical Lectures, VI, 5).
É bem conhecido como o abençoado Agostinho, quando andando em uma praia pensando acerca de Deus, viu um menino sentado a beira dágua tirando água do mar com uma concha e colocando-a num buraco na areia. Essa cena inspirou-o a pensar na desproporção entre nossa mente rasa e a grandeza de Deus. É tão impossível ter-se uma concepção de Deus em toda Sua grandeza, quanto esvaziar-se o mar com uma concha.
"Se tu desejas falar ou ouvir a respeito de Deus," teologiza São Basílio, o Grande, "renuncia a teu próprio corpo, renuncia a teus sentidos corporais, abandona a terra, faz com que o ar esteja abaixo de ti; passa sobre as estações do ano, seu arranho ordenado, os adornos da terra, coloca-te acima do éter, atravessa as estrelas, seu esplendor, grandeza, e os benefícios que elas provem para o mundo todo, sua boa ordem, brilho, arranjo, movimento e o vínculo ou distância entre elas. Tendo passado através de tudo isso em tua mente, vá para o céu e postando-se acima dele, só com teu pensamento, observa as belezas que lá estão, os chefes arcanjos, a glória dos Domínios, a presidência dos Tronos, os Poderes, Principados, Autoridades. Tendo passado por tudo isso e deixado para trás toda criação em teus pensamentos, elevando tua mente acima dos limites dela, apresenta tua mente a essência de Deus, imóvel, imutável, inalterável, desapaixonada, simples, complexa, indivisível, luz inaproximável, poder inexplicável, magnitude infinita, glória resplandecente, infindável bondade, beleza incomensurável que golpeia poderosamente a alma ferida, mas que não pode ser validamente descrita em palavras."
Tal exaltação de espírito é demandada de alguém que quer falar com Deus! No entanto, ainda que nessa condição os pensamentos humanos são capazes somente de permanecer nos atributos da divindade e não na verdadeira essência da divindade.
Há na Sagrada Escritura palavras concernentes a Deus que "tocam" ou "chegam perto" da idéia de Deus em Sua verdadeira essência. São expressões que são compostas de tal modo que, na sua forma, elas respondem não só a questão "que tipo" isto é, quais são os atributos de Deus mas elas parecem também responder a questão "quem" isto é, "quem é Deus?"
Tais expressões são:
"Eu sou Aquele que é" (em hebreu, Jeová; Ex 3:14)
"Eu sou o Alfa e o Omega, o principio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso" (Ap 1:8)
"Mas o Senhor Deus é a Verdade" (Jer 10:10)
"Deus é espírito" As palavras do Senhor para a mulher samaritana (Jo 4:23)
"Ora o Senhor é Espírito" (2 Cor 3:17)
"Deus é luz, e não há Nele trevas nenhuma" (1 Jo 1:5)
"Deus é amor" (1 Jo 4:8,16)
"Nosso Deus é um fogo consumidor" (Heb 12:29)
No entanto, tais expressões também não podem ser entendidas como indicações da verdadeira essência do Deus único e com relação ao nome "aquele que é" os Padres da Igreja disseram que ele "de alguma forma" (a expressão é de São Gregório, o Teólogo) ou, "como parece" (São João Damasceno) é um nome da essência. Apesar de mais raramente, esse mesmo significado foi dado aos nomes "bem" e "Deus," na língua grega Theos, significando "ele que vê." Distinto que todas as coisas "existentes" e criadas, os Padres da Igreja aplicaram para a existência de Deus o termo "Ele que é acima de todos os seres," como no kontakion, "a virgem agora dá a luz a Ele que é acima de todos os seres." A expressão do Velho Testamento "Jeová," "aquele que é," que foi revelada por Deus ao Profeta Moisés, tem justo tal significado profundo. (Isso quer dizer: quando dizemos que Deus é "aquele que é," nós dizemos que Ele "é" num sentido superlativo e não da maneira que toda sua criação" é "; isto é o mesmo que afirmar que Ele é o único" que está acima de todos os seres" (Kondakion da Natividade de Cristo)).
Assim, pode-se falar somente nos atributos de Deus, mas não da verdadeira essência de Deus. Os Padres se expressam só indiretamente a respeito da natureza da divindade, dizendo que a essência de Deus é "uma, simples, não complexa." No entanto, essa simplicidade não é algo sem distinguir características ou contendo; ela contem em si própria a totalidade das qualidades da existência; "Deus é um mar de ser, incomensurável e ilimitado" (São Gregório, o Teólogo); "Deus é a completude de todas as qualidades e perfeições em sua mais alta e infinita forma" (São Basílio, o Grande); "Deus é simples e não complexo; Ele é inteiramente sentimento, inteiramente espírito, inteiramente pensamento, inteiramente mente, inteiramente fonte de todas as coisas boas" (Santo Irineu de Lyon).
Falando dos atributos de Deus, os Santos Padres indicam que sua multiplicidade considerando a simplicidade da essência, é o resultado de nossa própria inabilidade de encontrar um místico e único modo de ver a divindade. Em Deus, um atributo é um aspecto de outro. Deus é justo; isso implica que Ele é também bendito é bom é Espírito. A múltipla simplicidade em Deus é como a luz do sol, que se revela em várias cores que são recebidas pelos corpos na terra, por exemplo as plantas.
Na enumeração dos atributos de Deus nos Santos Padres e nos textos dos Divinos Ofícios, há uma preponderância de expressões que estão gramaticalmente na forma negativa. No entanto deve-se observar que, esta forma negativa indica uma "negação de limites." Assim, a forma negativa é na verdade uma afirmação de atributos que são sem limite. Por exemplo, não criado indica a inexistência do limite na criação. Encontramos um modelo de tais expressões na Exact Exposition of the Ortodox Faith por São João Damasceno: "Deus é não originado, interminável, eterno, constante, não criado, imutável, inalterável, simples, não complicado, incorpóreo, invisível, intangível, indescritível, ilimitado, inacessível à mente, incontestável, incompreensível, bom, justo, o Criador de todas as criaturas, o Poderoso Pantocrator, o que olha todos de cima, cuja Providência está sobre todas as coisas, que tem domínio sobre tudo, o juiz."
Nossos pensamentos acerca de Deus em geral falam: 1) acerca de Sua distinção do mundo criado (por exemplo, Deus é não originado, enquanto que o mundo tem uma origem; Ele é sem fim, enquanto o mundo tem um fim; Ele é eterno, enquanto o mudo existe no tempo; ou 2) acerca das atividades de Deus no mundo e a relação do Criador para suas criações (Criador, Providência, Misericordioso, Juiz Justo).
Indicando os atributos de Deus, nem por isso damos uma "definição do conceito de Deus," tal definição é essencialmente impossível, porque toda definição é uma indicação de "finitude" (Em russo Padre Michael está indicando aqui a derivação da palavra opredeleniye ("definição") de predel ("limite")). No entanto, em Deus não há limites, e portanto não pode haver uma definição do conceito da divindade: "Pois um conceito é em si uma forma de limitação" (São Gregório, o Teólogo, homilia 28, de sua Segunda Oração Teológica).
Nossa razão demanda o reconhecimento em Deus de uma serie completa de atributos essenciais. A razão nos diz que Deus tem uma existência racional, livre e pessoal. Se no mundo imperfeito nós vemos seres racionais, livres e pessoais, não podemos deixar de reconhecer uma existência livre, racional e pessoal no próprio Deus, que é a Fonte, Causa e Criador de toda a vida.
A razão nos diz que Deus é o Ser mais perfeito. Toda falta e imperfeição são incompatíveis com o conceito de "Deus."
A razão nos diz que Deus é um Ser auto-suficiente, porque nada pode ser a causa ou condição da existência de Deus.
Sagrada Escritura concernente aos atributos de Deus.
Os atributos de Deus, tomados diretamente do Verbo de Deus, são apresentados no Longo Cristão Catechism of the Orthodox Church do Metropolita Philaret (Tradução inglesa (reimpressa de 1901) no The Catechism of the Orthodox Church, Eastern Orthodox Books, Willits, Califórnia, 1971, p. 19). Ali se lê: "Pergunta: Que idéia da essência e dos atributos essenciais de Deus devem ser derivadas da revelação Divina? Resposta: Que Deus é Espírito, eterno, boníssimo, onisciente, justo, poderoso, onipresente, imutável, auto-suficiente." Paremos para pensar acerca desses atributos apresentados no catecismo.
"Deus é Espírito" (Jo 4:24; as palavras do Salvador na conversa com a mulher Samaritana). "O Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, ai há liberdade" (2 Cor 3:17). Deus é alheio a todo tipo de natureza corpórea ou materialidade. Ao mesmo tempo em que a espiritualidade que pertence aos seres espirituais criados e a alma do homem, que manifesta em si somente uma "imagem" da natureza espiritual de Deus. Deus é um Espírito que é o mais elevado, mais puro, mais perfeito. É verdade que na Sagrada Escritura nós encontramos muito, vários lugares onde alguma coisa corpórea é simbolicamente atribuída a Deus, no entanto, concernente à natureza espiritual de Deus, a Escritura começa falando com as primeiras palavras do livro da Gênesis, e ao Profeta Moisés, Deus se revela como Aquele que é, como a pura, espiritual e mais elevada existência. Assim, por símbolos corpóreos a Escritura nos ensina a compreender os atributos espirituais e as ações de Deus.
Tomemos aqui as palavras de São Gregório, o Teólogo. Ele diz: "De acordo com as Escrituras Deus dorme, Ele desperta, torna-se irritado, Ele ativa, Ele tem os Querubins como seu trono mas quando Ele teve uma enfermidade? Além disso, alguma vez ouviste que Deus é um corpo? Alguma coisa é apresentada aqui, que não existe na realidade de acordo com o nosso próprio entendimento, nós demos nomes para as características de Deus, que são derivadas de nós próprios. Quando Deus, por razões que só Ele conhece, abandona seus cuidados, como estava tendo, e não se preocupa mais conosco, isso significa que Ele está "dormindo" porque nosso dormir é uma falta similar de atividade e cuidado. Quando, ao contrário, Ele subitamente começa a fazer o bem, isso significa que Ele "acordou." Ele castiga e por isso, nós imaginamos que Ele está "raivoso" pois castigo entre nós é com raiva. Ele age às vezes aqui, ás vezes Ele repousa e como se Ele morasse em santos poderes nós chamamos isso de "sentar-se" e Ele "senta-se em um trono," que é uma coisa característica nossa. Também, pois a divindade não repousa em lugar algum, nem entre os santos. Um movimento veloz nós chamamos "Vôo." Se há uma contemplação, nós falamos uma "face"; se há um dar e receber, nós falamos de uma "mão." De outra forma, e uma maneira tomada das coisas corpóreas " (homilia 31, Fifht Teological Oration "On the Holy Spirit," ch 22; Eerdmanns Nicene Fathers, Series Two, vol VII, pg 324-325).
Ligado com os relatos das ações de Deus, no segundo e terceiro capítulos do Livro da Gênesis, São João Chrisóstomo nos instrui: "Não passemos sem atenção, amados, pelo que é sito pela Divina Escritura, e não olhemos só para as palavras, mas pensemos que simples palavras são usadas por conta de nossa enfermidade, e que tudo é feito do jeito mais adequado para a nossa salvação. Depois de tudo, diga-me, se quisermos aceitar as palavras num sentido literal e não entendermos o que é comunicado de modo adequado a Deus, tudo isso então não se tornaria muito estranho? Olhemos no começo da leitura presente. Ela diz: "E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia:... e estavam com medo" (Gên 3:8). O que tu dizes: Deus anda? Tu atribuis pés a Ele? Não deveríamos entender isso num sentido mais elevado? Não, Deus não anda nem pense nisso! Como, de fato, poderia Ele que está em tudo e enche tudo, cujo trono é o céu e a terra o escabelo de seus pés como poderia Ele andar no Paraíso? Que pessoa racional diria isso! No entanto o que significa: "Eles ouviram a voz de deus andando no Paraíso na viração do dia?" "Ele quis criar neles um tal sentimento (de proximidade de deus) que deveria fazer com que eles ficassem preocupados com o que de fato havia acontecido. Eles sentiram isso e tentaram se esconder de Deus que estava se aproximando deles. O pecado havia ocorrido, e transgressão e vergonha caíram sobre eles. O juiz não hipócrita que é a consciência, tendo sido acordada, clamou com alta voz, recriminando-os, e exibindo diante de seus olhos o peso da transgressão. O Mestre criou o homem no começo e nele colocou um acusador que nunca se cala e que não pode ser seduzido ou enganado."
A respeito da imagem da criação da mulher, São João Crisóstomo ensina, "É dito,: e tomou uma de suas costela (Gên 2:21). Não entendam essas palavras de maneira humana, mas entenda que a crua expressão usada é adaptada à fraqueza humana. Pois, se a Escritura não tivesse usado essas palavras, como poderíamos entender tais mistérios inexprimíveis? Não olhemos só para as palavras mas recebamos tudo de maneira ajustada, ao que se refira a Deus. Essa expressão "tomou" e todas as expressões similares são usadas em função de nossa fraqueza." De maneira similar São João Crisostomo se expressa com respeito as palavras: "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes" (Gên 2:7; Works of St. John Chrisostom, Vol IV, parte um). (Não se deve pensar que o Padre Michael está afirmando aqui que São João Crisostomo era em geral opositor a "interpretações literais" da Escritura; quando o sentido literal era necessário, São João Crisostomo era bastante literal na sua interpretação. Seu ponto e o do Padre Michael era que toda interpretação da Escritura deve ser "ajustada a Deus" e isto as vezes requer uma interpretação literal, às vezes uma interpretação metafórica. No mesmo Comentário do livro da Gênesis, por exemplo, São João Crisostomo escreve: "Quando vós ouvis que "Deus colocou o Paraíso no Éden no leste, acrediteis precisamente que o próprio Paraíso foi criado no exato lugar que a Escritura assegurou que foi" (Homilies on Gênesis, XIII, 3). Ele também, proibiu uma interpretação alegórica de "rios" e "águas" do Paraíso, insistindo que "os rios são rios na realidade e as águas são precisamente águas" (XIII, 4). Assim, quando São João Crisostomo afirma que a palavra "tomou" na Gênesis deve ser entendida numa maneira ajustada a Deus (isto é, não deve ser entendida literalmente, porque Deus não tem "mãos"). Ele não nega que Eva foi realmente criada de uma das costelas de Adão, ainda que precisamente como isso foi jeito, permaneça um mistério para nós (Homilies on Gênesis, XV, 2-3).)
São João Damasceno devota um capítulo a esse tema em sua Exact Exposition of the Orthodox Faith. Esse capitulo é chamado "Sobre as coisas que se afirma de Deus como se Ele tivesse um corpo," e ali ele escreve: "Como encontramos na Divina Escritura muitas coisas que são ditas de Deus como se Ele tivesse um corpo, nós devemos saber que é impossível para nós que somos homens que estamos vestidos com essa crua carne, pensar ou falar sobre as imponentes e imateriais ações de divindade, a não ser que usemos similaridade, imagens e símbolos que correspondam a nossa natureza." Além disso, as expressões a respeito dos olhos, ouvidos, mãos e similares de Deus, ele conclui: "Para dizer de modo simples, tudo que é afirmado de Deus como se Ele tivesse um corpo contem um certo significado escondido" (Exact Exposition oh the Orthodox Faith, part one, Ch11; The Father of the Church Traslation, p 191-193).
Hoje em dia tornamo-nos bastante acostumados com a idéia de que Deus é puro Espírito. No entanto, a filosofia do panteísmo (que significa "Deus é tudo"), que está bem espalhado no nosso tempo, procura contradizer essa verdade. Por isso, ainda hoje no Rito da Ortodoxia cantado no Domingo da Ortodoxia o, primeiro domingo da Grande Quaresma, nós ouvimos "para aqueles que dizem que Deus não é Espírito mas carne Anathema! (o Rito da Ortodoxia é celebrado depois da Liturgia no primeiro Domingo da Grande Quaresma em Igrejas Catedrais aonde um bispo presida. Nelas, anátemas são proclamados contra heréticos dos tempos antigos e modernos que tentaram destruir as bases dogmáticas da Ortodoxia. Em muitas jurisdições Ortodoxas nas missas hoje, no entanto, sob a influência de idéias "ecumênicas," esse ofício tem sido abolido e substituído por uma celebração "Pan-ortodoxa," ou por uma celebração "ecumênica").
A existência de Deus é fora do tempo, pois tempo é somente uma forma de seres limitados, seres mutáveis. Para Deus não há nem passado, nem futuro; só há o presente. "Desde a antigüidade fundaste a terra: e os céus são obra das Tuas mãos. Eles perecerão, mas Tu permanecerás: todos como um vestido envelhecerão: como roupa os mudaras e ficarão mudados. Mas Tu és o mesmo, e os Teus anos nunca terão fim" (Salm 102:25-27).
Alguns Santos Padres indicam uma diferença entre o conceito de "eternidade" e "imortalidade." "Eternity" é uma existência viva sempre e esse conceito de "eternidade" é aplicado usualmente para a uma natureza não originada, em que tudo é sempre uno e o mesmo. O conceito de imortalidade de outro lado pode ser atribuído para alguém que foi trazido para a vida como ser e não morre, como por exemplo um anjo ou uma alma. Eterno em seu significado preciso pertence a Divina Essência por isso é que o termo é aplicado usualmente só para "Adorável e Reinante Trindade" (Santo Isidro de Pelusium). Sob esse aspecto ainda mais expressiva é a expressão "O Deus pré-eterno" (como no Kontakion na Natividade de Cristo).
"Misericordioso e piedoso é o Senhor; longânime e grande em benignidade" (Salm 103;8). "Deus é amor" (1 Jo 4:16). Bondade de Deus estende-se não a uma região limitada do mundo, o que é característico no amor entre seres limitados, mas ao mundo todo e a todos os seres que nele existem. Ele é amoroso em relação à vida e às necessidades de cada criatura, não importa quão pequena e, que possa parecer insignificante para nós, São Gregório, o Teólogo escreve: "se alguém nos perguntasse o que é que nós reverenciamos, e o que nós veneramos, nós temos uma rápida resposta: "o amor" (homilia 23).
Deus dá a suas criaturas tantas coisas boas quanto cada uma pode receber de acordo com sua natureza e condição e tanto quanto corresponda com a harmonia geral do universo, mas é para o homem que Deus revela uma bondade particular." Deus é como uma mãe-passáro que viu o seu filhote cair do ninho, e voa para baixo para traze-lo de volta, e então vê o filhote em perigo de ser devorado por uma serpente, então ela grita ansiosamente e voa ao redor desse e dos outros filhotes, não sendo capaz de ficar indiferente a perder um só deles (Clemente de Alexandria "Exhortations to the Pagans," cap 10). "Deus nos ama mais do que um pai ou uma mãe ou um amigo, ou que qualquer outro que possa amar, e ainda mais do que nós podemos amar a nós mesmo, porque Ele está preocupado mais com a nossa salvação do que com Sua própria glória. Um testemunho disso é que Ele enviou para o mundo para sofrer e morrer (na carne humana) Seu Filho Único Gerado, somente para nos revelar o caminho da salvação e da vida eterna" (São João Crisostomo, comentário sobre o Salmo 114). Se o homem freqüentemente não entende o poder completo da bondade de Deus, isso ocorre porque o homem concentra seus pensamentos e desejos demasiadamente no seu bem-estar terreno. No entanto, a Providência de Deus une dar-nos coisas terrenas e temporais junto com o chamado para adquirir para si, para sua alma, coisas boas eternas.
"...Todas as coisas estão unas e patentes aos olhos de Deus" (Heb 4:13). "Os Teus olhos viram o meu corpo ainda informe..." (Salm 139:16). O conhecimento de Deus é visão e imediato entendimento de tudo, tanto no que existe e do que é possível, o presente, o passado e o futuro. Pré conhecimento do futuro é, estrito senso, visão espiritual, porque para Deus o futuro é como o presente. O pré conhecimento de Deus não viola o livre arbítrio das criaturas, como a liberdade de nosso vizinho não é violada pelo fato de vermos o que ele faz. O pré conhecimento de Deus com respeito ao mal no mundo e os atos dos seres livres é como se ele fosse coroado pelos pré conhecimento da salvação do mundo, quando "Deus será tudo em todos" (1 Co 15:28).
Outro aspecto da onisciência de Deus é manifestado na sabedoria de Deus: "Grande é o Nosso Senhor, e de grande poder; o seu entendimento é infinito" (Salm 147:5). Os Santos Padres e professores da Igreja, seguindo a palavra de Deus, sempre indicaram com grande reverencia a grandeza da sabedoria de Deus na ordenação do mundo visível, dedicando a esse assunto obras completas, como por exemplo as Homilias sobre os seis dias (Hexaemeron), que é, a história da criação do mundo escrita por padres, tais como São Basílio, o Grande, São João Crisostomo, São Gregório de Nissa. "uma folha de grama ou um grão de poeira é suficiente para ocupar sua vossa mente inteira, contemplando a arte com que foram feitos" (Basílio, o Grande). Ainda mais, refletiram os padres sobre a sabedoria de Deus na economia de nossa salvação na encarnação do Filho de Deus. A Sagrada Escritura do Velho Testamento concentra sua atenção primariamente sobre a sabedoria de Deus no arranho ordenado do mundo: "Todas as cousas Fizeste com sabedoria" (Salm. 104:24). No Novo Testamento, de outro lado, a atenção está concentrada na economia da salvação, em conexão com a qual o Apóstolo Paulo clama: "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria quanto da ciência de Deus" (Ro 11:33). Pois é pela sabedoria de Deus que toda existência do mundo é dirigida para um único propósito a perfeição e transfiguração para a glória de Deus.
Justiça é entendida na palavra de Deus e no seu uso geral como tendo dois significados: a) santidade e, b) justiça.
Santidade consiste não só na ausência da malignidade ou pecado: santidade é a presença de valores espirituais mais elevados, juntos com a pureza em relação ao pecado. Santidade é como a luz, e santidade de Deus é como a mais pura das luzes. Deus é "um só santo" por natureza. Ele é a fonte da santidade para anjos e homens. Os homens podem atingir a santidade somente em Deus " não por natureza, mas por participação, por luta e oração" (São Cirilo de Jerusalém). A Escritura testifica que os anjos rodeiam o trono de Deus sem cessar declaram a santidade de Deus clamando um para os outros: "Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos: toda a terra está cheia de sua glória" (Is 6:3). Como mostrado na Escritura, a luz da santidade enche tudo que vem de deus ou serve a Deus: "Seu santo Nome" (Salm. 33:21; 103:1; 105:3); "Sua santa palavra" (Salm. 104:42); "A lei é santa" (Ro 7:12); "...trono da sua santidade" (Salm. 47:8); "escabelo de seus pés, porque ele é santo" (Salm. 99:5); "Justo é o Senhor em todos os Seus caminhos, e santo em todas as Suas obras" (Salm. 145:17); "...o Senhor nosso Deus é santo" (Salm. 99:9).
A justiça de Deus é outro aspecto a ser considerado: "Ele julgará os povos com retidão" (Salm. 9:8); "...recompensará cada segundo suas obras; porque para com Deus, não há acepção de pessoas" (Ro 2:6 e 11).
Como podemos harmonizar o amor divino com a justiça de Deus, que julga estritamente por pecados e pune os culpados? Sobre esta questão muitos Padres falaram. Eles assemelham a raiva de Deus à raiva de um pai que, com o objetivo de trazer um filho desobediente a seu senso, recorre aos meios paternos de punição ao mesmo tempo se afligindo, simultaneamente ficando triste com a atitude sem sentido de seu filho e simpatizando com ele pela dor que lhe está infligindo. Eis ai porque a justiça de Deus é sempre misericordiosa, e sua misericórdia é justiça, de acordo com as palavras: "A misericórdia e a verdade se encontraram: a justiça e a paz se beijaram" (Salm. 85:10).
A santidade e a justiça de Deus estão intimamente ligadas, uma a outra. Deus chama cada um para a vida eterna Nele, no Seu reino e isso significa em Sua santidade. No entanto, no Reino de Deus nada impuro pode entrar. O Senhor nos limpa por seus castigos, assim como por seus atos providenciais, que previnem e corrigem pelo seu amor para com sua criação; pois nós devemos passar pelo julgamento de justiça, um julgamento que para nós é terrível: como poderemos entrar no reino da santidade e luz, e como nos sentiremos lá, estando impuros, escuros e não tendo em nós nenhuma semente de santidade, não tendo em nós nenhum tipo de valor espiritual ou moral?
"Porque falou, e tudo se fez; mandou, e logo tudo apareceu" assim o salmista expressou o poderio de Deus (Salm. 33:9). Deus é o Criador do mundo. É Ele que cuida do mundo em Sua providência. Ele é o Pantocrator. Ele é Aquele "Que só Ele faz maravilhas" (Salm 72:18). No entanto, se Deus tolera a maldade e pessoas maldosas no mundo, isso não é porque Ele não pode aniquilar a maldade, mas porque Ele nos deu liberdade aos seres espirituais e dirige-os para que eles possam livremente, com seu livre arbítrio, rejeitar a maldade e voltar-se para o bem.
Com respeito a questões casuísticas a respeito de deus "não pode" fazer, deve se responder que a onipotência de Deus é entendida que é agradável ao Seu pensamento, à Sua bondade.
"Para onde me irei do Teu Espírito, ou para onde fugirei de Tua face? Se subir ao céu, Tu ai estás, se fizer no sol a minha cama, eis que Tu ali estás também. Se eu tomar as asa