Vocabulário

teológico ortodoxo

A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T V

A

Absolvição.

Ao término de uma confissão, o padre dá a absolvição, que significa o perdão (a remissão) dos pecados confessados, ele põe a estola sobre a cabeça do fiel ajoelhado e lhe diz:

Tudo o que disseste à minha humilde pessoa e tudo o que deixaste de dizer, por ignorância ou por esquecimento, ou o que quer que seja, que Deus te perdoe neste mundo e no outro, (...) Não tenha mais ansiedade, vá em paz.

No rito eslavo, a passagem essencial é a seguinte:

Tu, Senhor, tenha hoje misericórdia de teu servo N dá-lhe uma forma de arrepender-se, o perdão e a remissão dos pecados voluntários e involuntários, reconcilia-o e una-o à Tua Santa Igreja em Jesus Cristo Nosso Senhor.

A fórmula de absolvição mais freqüentemente utilizada hoje em dia na Ortodoxia eslava, bem como na portuguesa/brasileira e provavelmente em outras, é a seguinte:

Que Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo te perdoe e te absolva meu filho de todos os teus pecados e eu Padre... presbítero indigno, pelos poderes que me foram concedidos te perdôo e te absolvo de todos os teus pecados. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A segunda frase desta fórmula, apareceu na Rússia no século 16, sob a influência do Ocidente.

Assim, é o Cristo, invisivelmente presente para receber a confissão, que perdoa; e o padre é apenas a testemunha que ao invocar o Espírito Santo, perdoa em nome do Senhor Deus.

Cada uma das diversas fórmulas em uso, sublinha que se trata de uma súplica do padre para o perdão do fiel. É sempre Deus quem perdoa.

Ação de Graças (1 Tessalonicenses 5:16-18).

Agradeçamos pelos bens recebidos. A oração cristã é louvor, adoração, súplica, mas sobretudo ação de graças. São Paulo recomenda a prática constante:

Em tudo dai graças porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. (1 Tes. 5:18).

Lembramos que a palavra Eucaristia* significa "ação de graças." Ao longo da liturgia eucarística, nos é lembrado que o Senhor na hora da Ceia, "deu graças" antes de partir o pão. O padre e os fiéis cada qual em seu lugar, dão graças também a Deus e exprimem seu reconhecimento pela criação e salvação do mundo.

Advento.

A festa de Natal, a Natividade segundo a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo a 7 de Janeiro (25 de Dezembro) é precedida, como a da Páscoa de uma Quaresma de quarenta dias, que começa a 28 de Novembro (15 de Novembro). Este período é chamado de Advento (que significa "vinda"), uma vez que ela precede a vinda do Messias, o nascimento do Senhor.

Altar.

Nas religiões pagãs, o altar era o centro do culto sacrificial. Depositava-se aí as oferendas,* um fogo ali era aceso para consumir o holocausto.* O que não era totalmente consumido era dado aos fiéis, que, em comendo-o pensavam participar da vida divina.

O Antigo Testamento testemunha da edificação pelo povo de Israel de numerosos altares ao Senhor para ali oferecer sacrifícios ou comemorar os lugares onde Deus havia-se manifestado (Gên. 12, 7-8; 33:20; 35:1-7, etc.). A narração nos conta de altares pagãos demolidos e de ídolos de madeira que serviam para acender o fogo para o holocausto sobre os novos altares ao Deus verdadeiro. Certos profetas entretanto se levantaram contra sua multiplicação e seu mau uso (Amós 2:8). Mas após a construção do Templo de Jerusalém, o centro do culto e dos ritos tornou-se o altar dos holocaustos desse Templo, e passou a simbolizar daí em diante a presença de Deus nesse lugar.

Para os cristãos, o significado do altar — ou Mesa Santa — colocado dentro dos santuários da Igreja, é outro. É o lugar onde se desenrola o sacrifício eucarístico de tal forma que este torna presente e atual o sacrifício de Nosso Senhor. Representa também a Cruz onde Ele foi sacrificado e o Túmulo de onde Ele ressuscitou. O pão e o vinho do sacrifício eucarístico são oferecidos sobre o altar representando o Corpo e o Sangue de Cristo (veja Liturgia,* Eucaristia,* Epiclese,* Oferenda*).

Para lembrar o sacrifício único do Cristo, coloca-se sempre sobre o altar uma cruz, e, durante a liturgia, desdobra-se ali um linho o qual representa a entrada no túmulo do Senhor (o antimênsio). Além da Cruz, do antimênsio, dos Santos Dons e dos Santos óleos, não se coloca nada permanente no altar que não seja o Evangelho e os círios.

Diversos textos do Novo Testamento nos fazem compreender que o Cristo que se oferece em sacrifício é Ele mesmo o altar e o sumo sacerdote sacrificador (Heb. 13:10, 1 Cor. 19:16-21). O altar é portanto o lugar e o símbolo de nossa salvação.

Amén.

Palavra que deriva do hebraico e que significa: "assim é." Implica em firmeza, segurança, solidez. Dizer "Amém" significa que tomamos como verdadeiro aquilo que acabou de ser dito. Exprime uma certeza, um "sim" pleno de fé e de segurança, uma concordância e um compromisso.

Anáfora.

Deriva de duas palavras gregas: ANô = em cima e FERO = segurar. Significa "oferenda," "oblação." Toda a Liturgia Eucarística é oferenda, louvação, ação de graças, e o momento central da celebração leva o nome de anáfora.

Após a récita do símbolo de fé, o Credo, o presbítero diz: "Estejamos atentos, para oferecermos em paz a Santa Oblação." E diz: "Corações ao Alto!" (1 Reis 7:3). Todos respondem: "Nós os elevamos ao Senhor!" é pedido a todos: "De pé, com atenção, respeito e amor, para oferecermos em paz a Santa Oblação!"

O celebrante, após o Canto do "Santo, Santo, Santo..." procede à rememoração da última Ceia do Senhor com seus discípulos — A Santa Ceia — e dos grandes mistérios realizados pelo Senhor: a Cruz, o Sepulcro, a Ressurreição ao terceiro dia, o trono à direita do Pai, a segunda e gloriosa Vinda. Ele ainda acrescenta ao elevar a patena e o cálice: "Aquilo que é Teu, recebendo-o de Ti, nós Te oferecemos por todos e por tudo." Ele oferece à Deus o pão e o vinho em anamnése de reconhecimento da vinda do Filho. A seguir vem a invocação do Espírito Santo sobre nós e sobre os dons oferecidos — ou Epiclesis — pela qual os dons tornam Sangue e Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Anamnése.

De uma palavra grega que significa "ação de chamar ou trazer à memória." Durante a Liturgia Eucarística (Liturgia dos Fiéis), o presbítero traz à memória da assembléia a obra salvífica que Deus realizou por nós, particularmente a instituição da Santa Ceia:

Tomai e comei, isto é o meu corpo, partido por vós, para a remissão dos pecados, bebei todos vós, este é o meu sangue, da nova aliança, derramado por vós e por muitos, para a remissão dos pecados.

A oração da anamnése desenvolve o tema da presença do Senhor (Mat. 28:20) e relembra suas palavras. Não se trata de lembrar acontecimentos passados ao anunciar aqueles por vir, mas sim de testemunhar que eles estão vivos na memória de Deus e o eterno presente do "tempo" da Igreja, que é encontro entre tempo histórico e eternidade e que tudo recapitula. Nós nos "lembramos" da Cruz, da Ressurreição, da Ascensão, assim como lembramo-nos "da segunda e gloriosa vinda," ainda a acontecer.

A anamnése significa um relembrar mútuo: Deus lembra-se do homem e o homem lembra-se de Deus.

Anjos.

Anjo é a tradução da palavra "aggelos" (pronuncia-se ângelos) e que significa "mensageiro." A Epístola dos Hebreus (Heb. 1:14) confirma: "Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação;" Sobre o ícone da Anunciação o anjo Gabriel, por exemplo, é geralmente representado como um mensageiro viril onde toda a postura manifesta a força e o movimento de Deus em direção aos homens.

Invisíveis a nossos olhos, os anjos são incorpóreos, embora criaturas de Deus. Eles são inumeráveis e se dividem dentro de uma hierarquia misteriosa: serafins, querubins, trones, dominações, virtudes, potestades, principados, arcanjos e anjos. Eles são divididos em"milícias" ou "coros," e uma vez que se chama os arcanjos Miguel e Gabriel os chefes dos Exércitos, trata-se aqui das milícias celestes.

A noção escrituraria de que os anjos louvam perpetuamente Deus (Isa. 6:3; Luc. 2:13) se exprime na liturgia ortodoxa, sobretudo nos cânones eucarísticos que convidam os fiéis a se juntarem ao coro dos anjos (ver Santo, Santo, Santo*).

Os anjos formam ao nosso redor "uma barreira protetora de intercessão" (festa dos arcanjos: em 21 de Novembro (8 de Novembro). O fiel ortodoxo invoca a oração dos anjos, suas intercessões e particularmente de seu anjo da guarda.

Ver também Querubins e Serafins.

Ano Litúrgico.

O ano litúrgico a exemplo do ano civil, compreende um período de doze meses, contudo ele é marcado por um sentimento bastante diferente, uma vez que está ligado fundamentalmente aos fatos mais importantes da vida do Senhor. Devido à razões históricas muito longas para se explicar aqui, o ano litúrgico começa no dia 14 de Setembro (12 de Setembro). Ele comporta ciclos diferentes, como o das festas fixas (isto é, que acontecem sempre na mesma data: Anunciação, Natal, Batismo de Cristo, Dormição, etc.) e o ciclo de festas móveis (em função da festa da Páscoa cuja, data varia de ano para ano) que se interpõem, o que explica a complexidade de ofícios que são celebrados a cada dia de cada ano de graça do Senhor." …a anunciar o ano aceitável do Senhor" (Luc. 4:19).

Apócrifo.

Literalmente significa:" o que é mantido secreto." Entre o conjunto dos escritos cristãos que datam dos primeiros séculos de nossa era, distingue-se uma parte deles que constitui hoje os livros canônicos do Novo Testamento (os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as Epístolas de São Paulo, as Epístolas Católicas e o Apocalipse) e uma outra parte de textos diversos que não foram canonizados pela Igreja pelas mais diferentes razões, em particular, porque não são obras dos Apóstolos ou de seus seguidores imediatos. De fato, na época em que as palavras do Senhor, as tradições orais e os Sermões dos Apóstolos começaram a ser registrados por escrito, difundiram-se tradições verdadeiras e falsas.

Existem assim textos que se apresentam de forma análoga àqueles do Novo Testamento, alguns não devem ser rejeitados totalmente, mas outros parecem não ser autênticos e mesmo suspeitos à Igreja, que com sabedoria e prudência os rejeitou. Reserva-se a todos esses textos mais ou menos duvidosos, apresentados no mais das vezes como "secretos," o termo apócrifo, que significa então: "textos não inseridos no Cânone das Escrituras."

No que diz respeito a certos textos do Antigo Testamento, chamados por vezes "deuterocanônicos" e por vezes "apócrifos," veja a lista dos livros que compõem a Bíblia.*

Apofático.

Veja Transcendente.*

Apoftegma.

Veja Santo.*

Apósticos.

Série de estiquérios (stikeron) cantados ao fim das vésperas e das matinas (nas matinas da semana apenas). Esses estiquérios se intercalam entre os versículos dos Salmos de acordo com os dias: semana, domingo ou festas.

Arca da Aliança.

É no livro do êxodo que encontramos a narração da construção da Arca da Aliança. De fato, Deus ordenara a Moisés que construísse uma arca para guardar as Tábuas da Lei (Êx. 25:10), sinal da Aliança de Deus com os homens. É a Arca da Aliança — ou do Testemunho. A Arca, um cofre chapeado de ouro puro, recoberto por uma chapa de ouro o propiciatório* — e encimada por dois querubins esculpidos, também em ouro maciço, foi a princípio colocada na Morada, ou seja na Tenda de Reunião, ou Tabernáculo (Êx. 40) que acompanhou o povo judeu de etapa em etapa pelo seu longo êxodo do Egito à Terra Prometida, a Terra de Canaã:

"Então a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do Senhor encheu o tabernáculo" (Êx. 40:34).

O santuário móvel manifestava a presença de Deus no meio do seu povo, era Sua Morada, o lugar de Sua Palavra, e testemunha de sua Aliança com Israel. Representava a Glória. e a Força de Deus dadas a Seu povo, por este motivo era cercada de veneração e acompanhada de cantos marciais.

Mais de dois séculos mais tarde, David trouxe a Arca Santa para Jerusalém, no meio de júbilo de todo o povo (2 Reis 6:12-19). Foi seu filho Salomão quem a instalou em seguida no Templo* (1 Reis 8).

* * *

A idéia da aliança entre Deus e os homens é central na Bíblia e em tempo algum foi afastada. Após a criação do mundo as alianças entre Deus e os homens se sucederam. Pode-se distinguir três grandes períodos no desenvolvimento das alianças antes da vinda de Cristo:

1. Bem antes de Moisés, Deus firmou uma aliança com Noé, ordenando-o a construir uma grande arca (Gên. 6:14) e na qual ele entraria com sua família e com casais de todos os animais para serem salvos do dilúvio. Tratava-se de qualquer forma, de uma aliança da qual participava toda a natureza, uma vez que Deus havia dito a Noé:

"E eu, eis que estabeleço o meu concerto convosco e com a vossa semente depois de vós" (Gên. 9:9).

"O meu arco tenho posto na nuvem, este será por sinal do concerto entre mim e a terra" (Gên. 9:13).

2. A aliança estabelecida em seguida com Abraão (Gên. 17:1-14) era dupla: uma herança e uma posteridade inumerável; Era portanto em um determinado povo que Deus Se escolhia.

3. Enfim, a promessa feita a Moisés (da qual falamos anteriormente a propósito da Arca da Aliança), ela dava uma Lei àquele povo; as prescrições para ajudá-lo a seguir os caminhos de Deus. E o povo ao aceitar a Lei se entregava a Deus. A fidelidade de Deus manifestava Sua Aliança com Seu povo.

Foi Cristo, que concluiu com toda a humanidade a Nova Aliança, que para nós engloba a Antiga. O Verbo de Deus, Sua palavra, "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória," como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e da verdade (Jo 1:14). Ele nos dá a conhecer Sua Lei de amor, o Cristo é nosso verdadeiro guia e nosso Salvador, o Templo eterno. N'Ele — Deus e Homem — Deus uniu-se ao homem e fez uma aliança com ele.

Ascese.

Ascese significa "exercício," "combate." Para os cristãos, trata-se do combate que deverá ser travado para fazer brilhar de novo em nós a imagem de Deus embaraçada pelo pecado. Nos aspiramos, no mais profundo de nós mesmos, reencontrar tal luz, sem ter sempre consciência disso.

No plano humano:

Todos sabem que não se pode atingir um bom nível no esporte, na música, em uma atividade por exemplo, sem se sujeitar à uma preparação por vezes dura e fatigante. Nós nos submetemos voluntariamente aos exercícios necessários uma vez que desejamos atingir um certo resultado. Pois isto é a ascese.

Como o homem é composto de uma alma e de um corpo, os dois devem participar juntos do combate para a nossa salvação. Assim os meios — as armas, pode-se dizer -que serão utilizados porão em atividade tanto a alma como o corpo. Quais serão essas armas; A oração, o arrependimento, o jejum, a esmola; em resumo, a busca da humildade e a observância dos mandamentos da Igreja e seus sacramentos. E nossos inimigos; São o que se chama "as paixões," ou seja, tudo o que nos divide, nos afasta de Deus e dos outros, como a falta de amor, a cobiça, a inveja, o ciúme, o orgulho, a preguiça, o desânimo.

No Plano Divino:

Este combate enfrentado pelo homem, esta ascese, constitui de qualquer forma nossa participação na obra salvífica de Deus. Devemos certamente utilizar as "armas" mencionadas acima, mas sem jamais esquecer que essas armas — a oração, a penitência — são dons de Deus e que sem a graça divina não somos capazes de nada. As ações humanas "se não são feitas em nome do Cristo, mesmo sendo boas, não poderão ainda assim proporcionar a recompensa pela vida do século a vir" (V. Lossky, Teologia mística da Igreja do Oriente, Paris, Aubier, 1944, p. 194). Todos os ofícios da Quaresma, entre outros, nos lembram com insistência que as ações ascéticas podem ser estéreis e mesmo nefastas, se não são o resultado de nossa vontade individual, de nosso conformismo. Lembremo-nos do fariseu (Luc. 18:9-14).

"A alma deve perceber a que ponto, só ela está sem forças. Não esperando nada de você, proste-se diante de Deus, reconheça dentro de seu coração que você não é nada. Assim a graça toda poderosa criará todas as outras desse nada (...) Assim, esperando tudo de Deus e nada de você, nos devemos entretanto nos obrigar a agir, a fim de criar em nós alguma coisa à qual Deus possa vir em socorro e que a força divina possa finalmente penetrar. (Higumeno Charitons, L'Art de Ia Priére, Abadia de Bellefontaine, Bégrolles-en-Mauges, coleçao "Spiritualité Orientale," nº 18, 1976, p. 186).

Assim não esqueçamos que a graça "é a alma do combate e que a verdadeira vida cristã é a vida da graça" (Id., p. 187).

A meta verdadeira da ascese, no fim das contas, não é outra que nos liberar do peso, esta "graxa espiritual," esta "densidade que o mal faz contrair a inteligência" (Evagro o Pôntico, citado por O. Clement em Sources, Paris, Stock, 1982, p. 118) e nos abrir para a graça de Deus.

A ascese não é pois alguma coisa reservada aos monges, não é tão pouco um conjunto de exercícios inacessíveis, estranhos e desagradáveis, como a palavra pode fazer crer. A verdadeira ascese constitui um vigoroso combate cotidiano contra o mal, ou antes contra o maligno, que nos destrói. Sem combate e sem a ajuda de Deus, não há vitória.

Astrologia.

De acordo com suas raízes, esta palavra significa "ciência dos astros." Trata-se de um método que afirma prognosticar os acontecimentos futuros e revelar aqueles do passado, segundo a posição e movimento dos astros, planetas e constelação de estrelas. Os astrólogos são aqueles que se dedicam a tal estudo.

Devemos estar muito atentos, pois deve-se saber distinguir os impostores dos estudiosos.

É inútil falar longamente daqueles que exploram a credulidade humana por meio de horóscopos, amuletos e de outros terríveis e ridículos modos. Basta abrir um jornal para percebermos o perigo que representa tal charlatanismo.

Além do que as Escrituras nos advertem de nos defender dessas falsas ciências ainda tão em moda hoje em dia (Lev. 19:23; Deu. 18:10-14; Mal. 3:5; Ato. 16:16-19; Efe. 6:12).

Desta forma como compreender o que lemos no Evangelho em relação aos Magos vindos do Oriente à Jerusalém, perguntando: "Onde está o recém-nascido Rei dos Judeus; Porque vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para adorá-lo" (Mat. 2:2). E cantamos no Natal:

Teu nascimento, o Cristo nosso Deus,

Fez resplandecer no mundo

A luz do conhecimento

Nela os servidores dos astros,

Guiados pela estrela,

Aprendem a Te adorar,

A Ti, Sol de Justiça

E a Te conhecer, Oriente das alturas

Senhor, glória à Ti!

Para Constantino Andronokoff ("O Sentido das Festas," Paris, Cerf, 1970, p 138 e seguintes) a palavra magos "significa que eles eram sábios, talvez sacerdotes, como certos membros do conselho secreto do Rei da Pérsia, de qualquer modo eram médicos e astrólogos." Eles vieram "ajudados por seu ofício, a luz que os conduziu sem desvio à pedra que os construtores haviam rejeitado. Em suma, não importa qual tenha sido o caminho, vir a reconhecer ou encontrar a verdade é uma prova de bom êxito."

Eles se inclinaram diante d'Aquele que veio "submeter a ciência das palavras e dos números, à nova ciência do AMOR." Eles compreenderam porque "ao fim de sua viagem intelectual e espiritual eles foram dignos de receber a Luz. Assim eles vêem sob os traços de um pequeno ser recém-nascido, o Messias que é a inteligência suprema." Suas oferendas — ouro, incenso e mirra — representam, nos diz o autor deste interessante texto, a sabedoria antiga, o paganismo e a ciência aos pés da Verdade. "Assim, o sol os ilumina, quando eles se voltam para ela, aqueles que estudam os enigmas do céu e da terra na busca de tal esclarecimento sobre a essência dada ao primeiro Adão e que o Novo veio restituir."

Os Magos preparados para um trabalho científico, orientados pela crença, ultrapassaram a especulação e se tornaram simples. "Assim sua vida espiritual se torna clara, longamente exercitada pela atividade de sua observação intelectual: eles sondaram a noite e encontraram as estrelas; Eles viram o Sol da verdade."

Assim, nesses "servidores dos astros," pureza de coração, fé e transparência se uniram à ciência para servir a Deus e aos homens e divulgar o Cristo às nações. Estamos bastante distante de espíritas e feiticeiros…

B

Batismo.

Esta palavra vem do verbo grego "baptizein," que significa mergulhar, imergir, lavar. Quando os antigos gregos diziam que haviam batizado um navio inimigo, eles queriam dizer que o haviam afundado. Desta forma encontra-se as designações que visam o mesmo significado em todos os Padres da Igreja, por exemplo, Nicolas CabasiIas, diz em seu capítulo sobre o batismo, no livro "Vida em Cristo": banho, purificação, regeneração, imersão "A água destrói uma forma de vida e produz uma outra, ela imergi o velho homem e faz emergir o homem novo."

Ver também Catecúmeno.

18. Bíblia.

Lista dos "Livros" que compõem a Bíblia:

1. Antigo Testamento

A ordem e a lista dos livros bíblicos se apresentam diferentemente na Bíblia hebraica, na Bíblia grega dita dos Setenta* e na Vulgata latina.

O Cânon* cristão é um cânon em três partes. Os livros são aí agrupados de forma diferente que no cânon judeu e alguns lhe foram acrescidos.

Primeira parte: a Lei

O Pentateuco (do grego penta: cinco) é atribuído à Moisés, ele corresponde ao Torah ou Lei. Esses livros possuem os seguintes títulos! Gênesis, Êxodo, Levítico, Número e Deutoronômio.

Segunda parte: os Livros Históricos

São os livros que tratam da historia após a instalação na Terra Prometida*: Josué, Juízes, Rute, Samuel (primeiro e segundo livros), os livros dos Reis, Crônicas (primeiro e segundo livros), os livros de Esdras, Neemias, Judite, Ester, Macabeus (primeiro e segundo livros).

Terceira parte:

a) os livros didáticos: Jó, os Salmos, os Provérbios, o Eclesiastes (Qohélet), o Cântico dos Cânticos, a Sabedoria de Salomão, o Eclesiástico (Sirac);

b) os livros proféticos:

os quatro grandes piruetas Isaías, Jeremias (seguido das lamentações, do livro de Baruch e da Epístola de Jeremias), Ezequiel, Daniel;

os pequenos profetas Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Mabacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

A Bíblia eslavônica comporta um terceiro livro de Esdras.

* * *

Certas passagens foram acrescidas na Bíblia Cristã a alguns livros e que não estão contidos na Bíblia hebraica. São eles:

no livro de Ester, capítulo 10, versículo 4: capítulo 16, versículo 4:

no livro de Daniel, capítulo 3, versículos 24 à 90; capítulos 13 e 14:

no livro de Jó, fim do capítulo 40, versículo 18 e seguintes.

Para a Igreja Católica: os textos mencionados são chamados de deuterocanônicos Isto significa que eles entraram no cânone numa segunda fase. Eles possuem contudo a mesma autoridade doutrinal que os outros livros.

Para as Igrejas da Reforma: essas Igrejas os rejeitam e os qualificam de apócrifos.* As edições protestantes não contêm geralmente os seguintes livros: Tobias, Judite, Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruch.

Para a Igreja Ortodoxa: uma posição oficial não foi tomada, os textos mencionados acima não são considerados como tendo o mesmo grau de inspiração, mas são conservados. São os "não canônicos."

Houveram numerosos apócrifos em volta da Bíblia, nos séculos II e I antes de Jesus Cristo e nos séculos I e II de nossa era a respeito dos assuntos bíblicos do Antigo (e do Novo) Testamento.

Ver também Setenta.

2. Novo Testamento

a) Os quatro Evangelhos*: Mateus, Marcos, Lucas e João.

b) Os Atos dos Apóstolos*.

c) As Epístolas de São Paulo: Romanos, primeira e segunda aos Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, primeira e segunda aos Tessalonicenses, primeira e segunda a Timóteo, Tito, Filémon, Hebreus.

d) As Epístolas ditas católicas: Tiago, primeira e segunda de Pedro, primeira, segunda e terceira de João, Judas.

e) Enfim o Apocalipse (Livro da Revelação).

Bibliografia Para o Tempo de Quaresma.

"Triode": Livro Litürgico próprio para os tempos de Quaresma. Ele contém os hinos, odes e cânones* assim como as leituras bíblicas para cada dia, começando no Domingo do Fariseu e do Publicano — quatro domingos antes do início da Quaresma — para terminar nas vésperas do Sábado Santo. (Publicado pelo Colégio Grego de Roma, Via dei Babuino, 149, 00187 Roma).

"Cânone de Santo André de Creta": Este cânone penitencial, composto de nove odes, é lido nas grandes completas ao anoitecer dos quatro primeiros dias da Quaresma (uma parte de cada vez) e inteiro na noite de quinta-feira da quinta semana da Quaresma. (Publicado pela Fraternidade Ortodoxa na Europa Ocidental).

Ao longo dos ofícios cotidianos da Quaresma, lê-se nos mosteiros duas vezes o conjunto do Saltério, e em leitura contínua: o Gênesis, Isaías e os Provérbios. Os fiéis das paróquias aproveitam com freqüência o período da Quaresma para ler ou reler um dos livros do Antigo Testamento além dos Evangelhos e dos Salmos.

A "Oração de Santo Efrém" é a oração de Quaresma por excelência. Ela é dita ao final de cada ofício de Quaresma de segunda à sexta-feira, e pelos fiéis ao longo de suas orações cotidianas.

Ver também "Triode."

Livros Recomendados

A Grande Quaresma, Pe. Alexandre Schmemann, Coleção "Esprititual idade Oriental," nº 13, 1974 (Obs. já traduzido para o português em nossa Paróquia).

O Mistério Pascal, Pe. Alexandre Schmemann e 0livier Clement, coleção "Espiritualidade Oriental," nº 16, 1975. (Obs. já traduzido para o português em nossa Paróquia).

A Escada Santa de São João Clímaco (tradução do Pe. Placide Deseille), coleção "Espiritualidade Oriental," nº 24, 1978.

Essas três obras são publicadas pela Abadia de Bei Ia Fontaine, Bégrolles - en- Maugas (Maine -et - Loire).

O Canto das lágrimas, ensaio sobre a penitência de 01ivier Clément, coleção "Théophanie," Paris, Desclée de de Brouwer, 1982.

Blasfêmia.

Palavra ímpia que afronta Deus, o Espírito, a Igreja. No Antigo Testamento, a presença de um único blasfemador era o suficiente para sujar a comunidade do povo de Deus (Lev 24:16). Trata-se portanto de uma falta considerável. O próprio Jesus Cristo foi acusado de blasfemo pois Ele se proclamava "Filho de Deus" (João10:31-36) e este foi um dos principais motivos invocados para condená-lo (Mc 14:64).

Quando Jesus foi crucificado, Ele foi coberto de blasfêmias (Mc 15:29) e este foi o pecado dos homens. Entretanto, o Senhor os perdoa na Cruz, pois "eles não sabem o que fazem" (Luc. 23:34).

C

Calendário.

A data da Páscoa é determinada segundo um princípio estabelecido no Concílio Ecumênico de Nicéia (325): a festa é fixada no domingo seguinte à primeira lua cheia, após o equinócio da primavera (aqui no hemisfério sul do Outono — 21 de Março). Mas segundo os lugares e as épocas, os modos de aplicação desse princípio variaram, em particular, na maioria das Igrejas Ortodoxas, esse princípio é aplicado no contexto do calendário dito Juliano (instituído por Júlio César). Por causa de divisões diferentes dos anos bissextos, o calendário Juliano, ficou com atraso em relação ao calendário Gregoriano em vigor hoje em dia (calendário civil). Atualmente esse atraso é de treze dias; e acarretou duas conseqüências para o calendário litúrgico:

em certos anos a festa da Páscoa cai muito tarde porque o equinócio está retardado de 13 dias após o 21 de Março;

todas as festas fixas (Anunciação, Natal, etc.) são celebrados em datas retardadas de 13 dias com relação as do calendário civil em uso.

Um certo número de Igrejas Ortodoxas seguem o calendário Juliano (Rússia, Bulgária, Servia, etc.) chamadas "Velhas Calendaristas" na linguagem corrente. Este calendário está em atraso com o calendário astronômico; e possui pelo menos a vantagem de uma coerência entre o ciclo das festas fixas e móveis.

Outras Igrejas Ortodoxas (por exemplo a da Finlândia) suprimiram a diferença entre o tempo litúrgico e astronômico aplicando o princípio do Concílio de Nicéia no calendário civil, o que causa:

levar em conta a data real do equinócio (21 de Março) para fixar o dia da Páscoa;

recolocar as festas fixas em suas datas normais.

Outras Igrejas (em particular a da Grécia) reformaram o calendário das festas fixas avançando suas datas de 13 dias, mas sem modificar o cálculo da data da Páscoa, para a qual o equinócio continua atrasado 13 dias após 21 de Março, sua data astronômica. Essa prática corresponde ao que se chama correntemente "Novo Calendarista," foi adotado, por certas comunidades ortodoxas, notadamente no Ocidente.

Se se toma como exemplo o Natal, esta festa, é indicada nos livros litúrgicos a 25 de Dezembro. Nas comunidades que seguem o novo calendário, é nesta data que será celebrado o Natal. No caso do velho calendário, a festa será deslocada 13 dias após o 25 de Dezembro, ou seja 7 de Janeiro. Para elucidar melhor, as comunidades onde se usam o velho calendário indicam as duas datas, para cada festa dos livros litúrgicos e a data correspondente (13 dias mais cedo) no calendário civil. (Ex.: São Nicolau festejado a 6/19 de Dezembro).

Cânone.

Esta palavra significa originalmente regra. Os cânones, textos preparados entre outros pelos concílios e os Padres da Igreja, são em geral regras, padrões, destinados sobretudo a excluir falsas aproximações sobre tal ou tal questão. Eles constituem de qualquer forma, os parapeitos colocados pela Igreja para evitar os erros e heresias. São menos "leis," no sentido jurídico do termo do que normas, guias e diretrizes da Igreja e dos fiéis, e para proteger os mistérios e as verdades da fé das interpretações errôneas. Não se trata pois de uma superestrutura jurídica.

O termo cânone se aplica, assim a um grande leque de textos que se pode de modo geral agrupar assim:

a) regras de vida da Igreja (dogmáticas e disciplinares);

b) listas, catálogos dos livros autênticos da Bíblia;

c) coleções de odes e textos litúrgicos.

A coleção clássica dos cânones bizantinos que servirá de base para o direito canônico da Igreja Ortodoxa atual é chamado Nomocânone em XIV capítulos. Como textos de origem puramente eclesiástico, ele compreende:

os cânones apostólicos;

os cânones dos concílios ecumênicos;

os cânones dos concílios locais;

os cânones dos santos Padres.

Existe aliás um certo número de outros livros de referências e de manuais canônicos em uso na Igreja.

Cânone. (Ícones e Iconografia)

A Igreja Ortodoxa e os fiéis atribuem uma grande importância ao ícone. A vida litúrgica e sacramental é inseparável do ícone. Desta forma existem cânones concernentes aos ícones, sua veneração e sua pintura (ver Iconografia*).

Aqui muito resumidamente, a história desses cânones:

1. A arte do ícone suscitou, no seio da Igreja uma grande crise que durou cento e vinte anos, nos séculos VIII e IX. Alguns — os iconoclastas, ou destruidores de ícones se levantaram ferozmente contra os ícones, acusando seus defensores de idolatria e exigindo a destruição das imagens. Na realidade não se tratava de duas concepções de arte cristã, mas de uma outra questão extremamente grave: no fundo o que os iconoclastas negavam exigindo a interdição das imagens, era a realidade da Encarnação* do Cristo. Os defensores dos ícones insistiam de justa causa sobre o fato de que o Filho de Deus, o Verbo, tornando-se verdadeiramente homem, tornou-se visível ("O Verbo indescritível do Pai fez-se descritível em Se encarnando-se"), e podia então ser representado. Sua Carne sendo deificada, as imagens deviam refletir o caráter divino. Ou melhor, é a pessoa representada que é venerada e não a pintura e a madeira. Não existe aí idolatria alguma.

A Igreja viu-se então obrigada a definir pelos cânones a natureza dogmática da veneração dos ícones ("veneração, não se trata pois de "adoração" ou "culto"). Os Padres do VII Concílio ecumênico (Nicéia, 787) declararam nos cânones que os Santos ícones deviam ser expostos nas igrejas de Deus, nas paredes, nas casas, etc., e, que eles deviam ser honrados: "Aquele que venera a imagem venera nela a realidade que ela representa."

Um novo ataque foi lançado pelos iconoclastas em 815 e dura até 843. A vitória final das imagens (Concílio de 843) é conhecida pelo nome de "Triunfo da Ortodoxia" e é comemorado no primeiro domingo da Quaresma.

São João Damasceno (675-749) foi o mais importante defensor dos ícones durante o primeiro período e São Teodoro Estudita (759-826) durante o segundo.

 

2. No que concerne a arte iconográfica em si, os Padres do VII Concílio ecumênico sublinharam que essa arte não foi inventada pelos pintores, mas é, ao contrário, regida, por uma regra confirmada e pela tradição da Igreja.

Não é apenas o valor artístico que conta num ícone, mas seu valor de pregação. É então natural que a Igreja seja exigente quanto a seu conteúdo e a sua forma.

É no Concílio Quinisexto (692) que foi formulado pela primeira vez uma direção de princípio concernente ao caráter da arte sagrada e que foi formulado o primeiro cânone iconográfico.

O cânone, nesse sentido, é pois um ensinamento, um critério correspondente à experiência espiritual da Igreja — da qualidade litúrgica da imagem, um princípio que permite julgar se a imagem é um ícone ou não.

Catafática. (VIA).

Ver Transcendência.

Catecúmeno.

Do grego katékhoumenos: "instruído de viva voz." No início da era cristã, a maior parte dos que queriam se batizar eram adultos e recebiam o sacramento durante a noite pascal. Com bastante antecedência os candidatos ao batismo, chamados de catecúmenos, eram gradualmente introduzidos na vida da Igreja por certos ritos que incluíam exorcismos, unções, orações, explicações da Santa Escritura, etc. O Padre Alexandre Schmemann no livro consagrado ao batismo da água e do espírito (Of water and the Spirit — De L'eau et de l'Espirit) = (New York, St. Vladimir's Seminary Press (SVS Press), 1974), nota que o ofício atual do batismo relativamente curto, é tudo o que subsiste de tal preparação, que podia durar de um a três anos.

A Comunidade inteira era envolvida, uma vez que ela devia se preparar para receber os novos membros. É a partir desta dupla ação — a dos catecúmenos e a comunidade -que se desenvolveu o período pré-pascal, hoje chamado a Grande Quaresma, que se encerra na santa noite de Páscoa e na "iluminação" daqueles que "vêm a Cristo e procuram n'Ele a salvação e uma vida nova." A liturgia de Páscoa é essencialmente uma liturgia batismal. Páscoa, a festa das festas, é verdadeiramente o complemento do batismo e o batismo é verdadeiramente um sacramento pascal.

O fato de a maior parte dos novos batizados serem hoje bebês parece tornar anacrônicas certas partes do ritual do batismo. Deve-se contudo compreender, diz o Padre Schmemann, que a preparação é um dos aspectos permanentes e fundamentais da vida litúrgica. A Igreja é por sua vez "preparação" e complemento. Ela nos prepara para a vida eterna. Por seu ensinamento das doutrinas e suas orações ela nos revela sem cessar que os "valores" que dão sentido a nossa vida são aqueles que estão "por vir," aqueles que aguardamos, que esperamos. Complemento, pois o Cristo veio. N'Ele, o homem foi deificado e subiu aos Céus. O Espírito Santo veio e sua vinda inaugurou o Reino de Deus.

Preparação e complemento não acontecem um sem o outro. Assim se esclarece o pleno significado da palavra catecúmeno. Hoje em dia são aqueles que levam para o batismo a criança: os padrinhos, os pais — e também todos os fiéis -que devem se preparar para o sacramento.

Ao longo de cada liturgia eucarística, a Igreja reza pelos catecúmenos "a fim de que o Senhor lhes tenha misericórdia, lhes ensina a verdade, que lhes revele o Evangelho de Justiça." Antigamente, eles se retiravam pois não podiam ainda participar do "mistério," quer dizer, da comunhão do sangue, e do corpo do Cristo, reservado, como hoje ainda, somente aos batizados.

Católica (Catolicidade "Sobornost").

Nós recitamos no Credo* "Creio na Igreja Una, Santa Católica e apostólica." A palavra católica é pois um dos quatro atributos ou qualidades (notas) da Igreja, que juntas exprimem a plenitude de seu ser. Mas, enquanto os termos "una," "santa" e "apostólica" se compreendem com facilidade, a palavra católica fica às vezes mal definida e toma ao longo do tempo uns sentidos que podem levar há confusões (por exemplo pensar que "católico" se aplica unicamente à Igreja romana ou latina).

Etimologicamente "católica" vem da palavra grega katholikos (ela mesma formada de duas palavras significas "conforme o todo") que se traduz comumente por universal, mas que evoca a idéia de plenitude. Os teólogos ortodoxos traduzem com freqüência esta palavra por sobornost. Nos parece útil citar a este propósito Vladimir Lossky, que deplora o "uso abusivo da palavra sobornost por certos autores russos que não tomam cuidado de a traduzir por seu correlativo catolicidade."

Na Igreja antiga, fala-se da "Igreja Católica de tal lugar." Considerava-se a Igreja presente em sua plenitude, em cada assembléia Eucarística locais da mesma forma que o Cristo inteiro está presente no mistério eucarístico, assim a Igreja — Seu Corpo — está presente inteiro em cada Igreja local. O termo "ortodoxos" servia para designar os fiéis, os membros da Igreja Católica, em oposição aos heréticos, o termo católico sendo empregado para designar a Igreja.

A palavra "católica" evoca pois uma realidade concreta diferente da que se prende à noção de "Universal" Ela designa a verdade cristã, revelada, dada à Igreja, destinada a todos. A Igreja católica, é a Igreja na sua plenitude, em toda a profundeza da verdade. Assim, trata-se de uma tradição viva conservada sempre, em todo lugar, e por todos. Entretanto, "não se deve crer… que a verdade católica seja submetida, em sua expressão, a alguma coisa de semelhante à aprovação universal, à afirmação da maioria: toda história da Igreja testemunha o contrário. A democracia, compreendida neste sentido, é estranha à Igreja: é uma caricatura da catolicidade" (V. Lossky, Imagem e Semelhança de Deus — A I' Image et à Ia Ressemblance de Dieu, Paris, Aubier Montaigne, 1967 pg. 170-171).

O Padre Dumitru Staniloae, teólogo romeno contemporâneo, sublinha que a noção de comunhão está no coração da catolicidade. Como "a unidade de um organismo vivo, é uma unidade na qual as partes se condicionam, e se completam umas com as outras em uma mesma vida. É um dom oferecido e recebido perpetuamente, uma espécie de unidade sinfônica na qual há diversidade de dons, mas "o Espírito é o mesmo" (1 Cor. 12:4; Teologia e Igreja — Teology and Church, New York SVS Press, 1980, pg. 220).

É isto que faz que seja impossível identificar a Igreja com um grupo particular, qualquer que seja de uma nacionalidade, de uma classe, de uma localidade, de um grupo de interesse ou de uma comunidade.

A Igreja guarda fielmente sua catolicidade que realiza nela o dogma trinitário: "e uma identidade inefável da unidade e da diversidade, à imagem do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Trindade consubstancial e indivisível" (V. Lossky, op. cit. pg. 179) Oliver Clement considerava que se trata no plano humano "da livre unidade dos cristãos na fé e no amor."

Veja também Igreja.

Ceia.

Da palavra latina cena que significa "refeição." A Santa Ceia é a última refeição do Senhor com seus discípulos, durante a qual Ele partiu o pão e o lhes deu dizendo: "Isto é o meu corpo, que por vos é dado, fazei isto em memória de mim." Do mesmo modo, "tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue que é derramado por vós (Luc. 22, 19-20)."

A Comemoração da Ceia é um dos elementos da Eucaristia.* A Ceia nos é narrada nos Evangelhos Sinópticos e na Primeira Epístola aos Coríntios (1 Cor. 11). No Evangelho de João (Joã. 6:27-64), o Senhor pregando ao povo no dia seguinte da multiplicação dos pães e antes de partir para Jerusalém, onde Ele seria crucificado, lhes revela que Ele é o "pão da vida" e que "quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna (Joã. 6:54)."

Cenáculo.

Do latim Cenaculum, "câmara alta." Designa a "câmara alta" onde o Senhor celebrou a Santa Ceia, na tarde da quinta-feira Santa, ou seja, antes da sua prisão, é no cenáculo que os Apóstolos se reuniam após a Ascensão do Senhor, "Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas com as mulheres, e Maria mãe de Jesus, e com os seus irmãos" (At. 1:14). É sem dúvida neste lugar que o Espírito Santo desceu sobre os discípulos no dia de Pentecostes.

Crisma.

Ver Santos Óleos,

Cristãos.

Na igreja primitiva, chamavam-se discípulos, crentes, santos, irmãos, os que seguiam o Cristo e que "era um coração e uma alma" (At. 4:32). Parece que foi do meio dos não cristãos que veio o termo cristão, quer dizer partidário, adepto de Cristo (formado sobre Christos: "Cristo," "ungido").

Nos Atos dos Apóstolos, São Lucas escreve: "Em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez chamados cristãos (At. 11:26) ."

Cristo.

Ver Messias e Verbo.

Comunhão Dos Santos.

Nós falamos noutra parte dos santos* e da santidade. Queremos, abordar agora o que se chama, bastante misteriosamente parece, a comunhão dos santos, e para tal, tentemos compreender o que é a comunhão nesse contexto, examinando três aspectos dessa palavra:

1. Comunhão entre todos os fiéis

Lembremo-nos antes de tudo que se o único santo é Deus, somos todos chamados a participar desta santidade, pois, segundo São Paulo "amados de Deus, chamados santos" (Rom. 1,7). Na Igreja dos primeiros tempos, chamava-se "santos" todos os que seguiam o Cristo (Ver Cristão*) e muitos Padres da Igreja usam a palavra "santo" para designar os que, hoje em dia, chamamos de "fiéis."

Não existe aí nem confusão nem equívoco. Com efeito, juntos formamos um só corpo, a Igreja, onde o chefe é o Cristo, e é juntos que seremos salvos, portanto santificados pela graça do Espírito Santo. E nós — que somente somos santos por "vocação" "pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas" (Heb. 12:1) que, são os santos acabados, prontos, que venceram, vivem e viverão do princípio ao fim do mundo, e que intercedem por nós e nos mostram o caminho. Nossa aceitação, mesmo implícita e fraca das exigências concretas dos Evangelhos, nossa participação na Igreja Santa e nos seus sacramentos, significa que podemos esperar por nosso passo no rastro dos santos, mesmo muito atrasados. Esta é, nossa "vocação," e nossa comunhão uns com os outros e com os santos.

A santidade não é pois conhecida como o apanágio de alguns. Todo cristão, por seu batismo, sua crisma, os santos mistérios, participa da santidade da Igreja. O homem inteiro corpo e alma torna-se receptáculo do Espírito Santo.

2. Comunhão dos fiéis com os santos.

Entretanto, alguns dos que chamamos santos, representam "o ser humano purificado… onde a transparência restaurada deixa ver seu modelo de bondade, sem limite, de poder e de sensibilidade infinitas: o Deus Encarnado. "O santo é" aquele que conseguiu a maior semelhança com o Cristo que, mesmo estando no céu, está ao mesmo tempo conosco… Ele é uma pessoa ligada num diálogo totalmente aberto e incessante com Deus e com os homens (Dumitru Staniloae: Oração de Jesus e experiência do Espírito Santo — Prière de Jesus et expérience du Saint — Esprit, Paris, Declée de Brouwer, 1981, pg. 32-33). Comunhão constante, pois, entre os Santos e nós mesmos.

3. Comunhão dos Santos com os fiéis, entre eles e com Deus.

O domingo que segue o Pentecostes é consagrado na Igreja Ortodoxa à memória de todos os santos. Isto não é uma coincidência, pois a santidade provém da descida do Espírito Santo sobre a pessoa humana. No Santo, o milagre do Pentecostes se realiza de novo. Um texto litúrgico recapitula o sentido de tal festa:

Celebramos aqueles que se inclinaram diante de Deus desde a origem dos séculos — a honra dos Padres, os Sábios, os Patriarcas, a assembléia dos Profetas, a beleza dos Apóstolos, a comunhão dos Mártires, a glória dos Ascetas, a memória de todos os Santos. Pois eles não cessam de interceder para que seja dado ao mundo a paz e às nossas almas o grande amor.

A palavra-chave aqui é "interceder" pois é ela que nos faz compreender que se trata de comunhão. Só se pode interceder junto d'Aquele com quem se está em comunhão, e por aqueles com os quais se está em comunhão. Ou, os santos, testemunhas do Cristo ressuscitado e da presença do Espírito Santo no mundo, estão em comunhão com Deus, com os homens e entre eles. Esta comunhão santa, à imagem da que existe entre as três pessoas da Trindade Santa e que reflete a Santa Igreja, é o que podemos chamar a comunhão dos santos, é um aspecto da "catolicidade" (veja Católica) da Igreja.

São Simeão o Novo Teólogo lhe dá o nome de "corrente de ouro."

(...) os, santos, iluminados pelos anjos de Deus, ligados e reunidos pelo elo do Espírito, tornam-se pares e êmulos dos anjos, vindo atrás daqueles que os precederam, os santos, que de geração em geração vêem pela prática dos mandamentos de Deus se juntar aos precedentes, recebem como eles a lua na participação da graça de Deus; eles tornam-se como uma corrente de ouro, cada um deles sendo um elo ligado ao precedente pela fé, pela caridade e pelas obras até formar em Deus uma corrente que não se pode romper facilmente. (Capítulos teológicos, gnósticos e práticas — Chapitres théologiques, Gnostiques et pratiques, Sources chrétiennes, nº 51, pg. 81).

A descida do Espírito, o dia de Pentecostes, é o nascimento da comunhão dos Santos. Ela é, para os fiéis, sentida como uma grande unidade. A Igreja celeste e a Igreja terrestre, a Igreja visível, e a Igreja invisível estão indissociavelmente ligadas.

Esta comunhão dos santos é pois uma corrente de amor mútuo e de orações, onde todos os membros da Igreja, vivos, mortos e por nascer, têm seu lugar. Cada liturgia terrestre é uma participação na Liturgia que se celebra sem cessar no céu. A liturgia e o culto dos santos formam uma unidade e o lugar onde se realiza a descida do Espírito Santo é ao mesmo tempo o lugar onde se reúne a comunhão de toda a Igreja, de todos os santos.

Não nos deixemos confundir com essa explicação um pouco árdua. Lembremo-nos somente que temos os Santos em sua comunhão — canonizados ou não — como intercessores junto a Deus, e que podemos lhes orar e lhes pedir para vir em nosso auxílio em qualquer circunstância; eles que, mesmo tendo deixado esta vida, estão mais vivos que nós.

Ver também Santos.

Confissão.

A confissão dos pecados faz parte do sacramento da penitência* (ver também Metanóia*). Os pecados são os atos e os pensamentos que nos separam de Deus e dos outros homens e nos deslocam interiormente. Um galho separado da árvore, resseca e morre. Do mesmo modo, nós também, se ficamos "separados" em nosso pecado, perdemos pouco a pouco nossa "semelhança" com Aquele que nos criou à Sua imagem e à Sua semelhança. Nos encontraríamos num estado "contra a natureza" que conduz à morte espiritual. O pecado é um prejuízo no sentido de não chegarmos a nos realizar enquanto pessoa na comunhão com os outros e com Deus. Ele pode entretanto significar o ponto de um retorno a Deus.

Pois "…o Filho do homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados" (Luc. 5:24). "Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele" (Jo. 3:17). O padre, por sua ordenação, pode nos absolver de nossos pecados em nome do Senhor. É pois ao padre que nos apresentamos para nos confessar, mas é o Cristo que sempre está lá, invisivelmente presente, que recebe nossa confissão.

Em nos confessando livre e humildemente, exprimimos nosso arrependimento (veja Penitência*) nossa concordância com a vontade de Deus e nossa confiança em Sua misericórdia infinita. Nós reconhecemos a impossibilidade de sermos salvos de nossa situação atual sem a intervenção de Deus. Entregamos nossa vida, incluindo os pecados, a Deus, por meio da Igreja.

O padre nos exorta: "Coragem, você veio atrás do médico, não parta sem estar curado." E uma vez que recebemos a Absolvição*, a via da reunificação e da reintegração nos é aberta.

Cosmos.

Palavra grega que significa "ordem." O universo considerado em seu conjunto como criação harmoniosa de Deus.

O pecado do homem introduziu a desordem no cosmos. Em Seu amor, Deus enviou Seu Filho para que Ele restaure a imagem de Deus decaída no homem (ver Deificação.) e transfigure assim todo o universo. A Igreja com a missão de fazer do mundo decaído um mundo transfigurado. É por isso que ela associa toda a criação para a glorificação de Deus pelos sacramentos* e pela ação de graças. A encarnação* é um acontecimento cósmico, pois a restauração do homem em Cristo é também a do cosmos em sua beleza primitiva (Rom. 8,19 e seguintes).

Um teólogo ortodoxo romeno contemporâneo, o padre Dumitru Staniloae, diz a esse respeito:

(O Cristo) espera que façamos do cosmos um uso responsável. O cosmos é uma linguagem de comunhão entre Deus e os homens. As fontes da natureza são dadas por Deus a todos, que ele tratasse da terra arável, da água, do ar, de todas as formas de energia. Deus quer que pelo trabalho humano, essas fontes sejam divididas por todos, afim de que todos possam aproveitar desse dom de Deus. Devemos libertar a natureza de nossa avidez, devemos respeitá-la, embelezá-la, espiritualizá-la afim de que a glória de Deus a penetre de acordo com o desígnio original da criação. (Unité des Chrétiens, n° 58).

Outros autores, sem ter escutado os ecologistas, nos prescrevem tratar a natureza como uma "noiva" com respeito e amor.

Credo.

O Credo é a formulação da fé cristã. A palavra latina credo significa "eu creio." O símbolo que recitamos a cada celebração eucarística começa pelas palavras: "Creio (em um só Deus)." Estas palavras dizem respeito aos artigos que seguem e dão a esta expressão da fé comum o valor de um engajamento pessoal de cada membro da Igreja que diz, com todos os outros: "Creio," "Confesso," "Espero."

A recitação do Credo faz parte integrante da Liturgia eucarística e deve inspirar nossa vida. "O Credo não nos pertence até que o tenhais dominado (Filareto de Moscou).

"Desde o tempo apostólico, o culto cristão comporta os elementos de uma confissão de fé. Existia, desde o início do II século, numerosos "símbolos" ou formulações breves da fé cristã, ligados sobretudo ao batismo e à preparação catequética.

O primeiro Credo dogmático formulado por um Concílio foi o de Nicéia (325). E foi completado pelos pais em Constantinopla (II° Concílio, 381) para responder à necessidade de definir o ensinamento ortodoxo face a doutrinas heréticas. Foi lido dessa forma no IV° Concílio (Calcedônia, 451) como uma fórmula dogmática oficialmente reconhecida. Por volta do fim do V° século, o Credo litúrgico de Constantinopla será considerado como a fórmula completa e definitiva do Credo de Nicéia, que ele substituíra. O VI° Concílio (Constantinopla, 680) vai confirmar o caráter de autoridade do Credo que usamos hoje em dia, o Credo dito de "Nicéia-Constantinopla."

A Igreja católica romana conservou, à parte deste Credo — modificada por ela pela interpretação do "Filioque" no começo do XI° século — um outro símbolo dito "Símbolo dos Apóstolos." Este último símbolo constitui a profissão de fé mais difundida nas Igrejas saídas da Reforma:

Creio em Deus Pai Todo Poderoso

Criador do Céu e da Terra

E em Jesus Cristo um só Seu Filho,

Nosso Senhor

Concebido de Espírito Santo,

nascido de Maria Virgem

Padeceu sob Poncio Pilatos,

foi crucificado, morto e sepultado

e desceu aos infernos,

Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos

Creio no Espírito Santo

Na Santa Igreja Católica

Na Comunhão dos Santos

Na remissão dos pecados

Na ressurreição da carne

Na vida eterna.

D

Decálogo.

Do grego deka (dez) e logos (palavra), dez palavras. Na aliança do Sinai, Moisés deu ao povo, vinda de Deus, uma Lei resumida em "dez palavras": o Decálogo (Êx. 20:1-17; Deu. 5:6-22) ou os Dez Mandamentos (ver Tábuas da Lei*).

Deus falou a Moisés, e, por ele, aos homens, e Sua palavra preparava o acontecimento central do Novo Testamento: essa Palavra — o Verbo de Deus — tornar-se-á carne pela Encarnação.*

Os Dez Mandamentos se aplicam a todos os homens e não foram anulados pelo Evangelho, mas a Nova Aliança vai além da Antiga e seus mandamentos alcançam e ultrapassam o Decálogo.

O Senhor disse:

"Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir (Mat. 5:17)."

Se o Cristo nos diz para observar os mandamentos e para amar a Deus com toda a nossa alma e com todo o nosso espírito e ao próximo como a nós mesmos, Ele nos manda também amar aos nossos inimigos. Assim, a lei de Moisés não deixa de ter validade, mas é acompanhada em sua plenitude no Verbo Encarnado.

Deificação.

Os Padres da Igreja repetiam este adágio: "Deus Se fez homem para que o homem se torne Deus" e: "o homem é uma criatura que recebe a ordem de tornar-se Deus."

De fato o homem é chamado a viver em Deus, a participar de Sua Glória,* a estar unido a Ele, e transformar-se pela graça* o que Deus é por natureza. Trata -se de uma união com Deus pelas energias divinas,* união mas não fusão ou confusão. Cristo tomou nossa natureza para nos fazer comungar a Vida divina e nos tornar "participantes da natureza divina" (2 Ped. 1:4), participantes das energias e não da essência de Deus.

A deificação é o processo pelo qual o homem crê em Deus de glória em glória. Os justos serão deificados no último Dia, mas o processo deve começar desde já, amando a Deus, observando Seus mandamentos. O cristão é ajudado nisto por sua vida na Igreja e pelos sacramentos.

A "deificação" não é apenas um dom livre do Espírito Santo, mas exige a cooperação do homem, é pois necessário um processo dinâmico que implica níveis de comunhão com Deus e uma religião de experiência pessoal (Jean Meyendorff, The Byzantine Legacy in the Orthodox Church, New York, SVS Press, 1982, pg. 150).

Veja também Eternidade, Parusia, Redenção, Salvação e Teologia.

Dogma.

Segundo o dicionário, esta palavra significa: "ponto fundamental de doutrina, em religião ou em filosofia." Os dogmas são freqüentemente compreendidos como sendo definições categóricas ou infalíveis formuladas a respeito da fé pela "igreja docente." Isto não corresponde à realidade da forma como é vivida na Igreja Ortodoxa. De fato, se as doutrinas fundamentais da fé cristã existem como a rocha sobre a qual é erigida a Igreja, e o Credo e os textos litúrgicos representam cotidianamente a expressão preservada fielmente pela Tradição da Igreja, significa que a noção de dogma no sentido comum das verdades especulativas forma um sistema filosófico coerente que não lhe convém.

É preciso lembrar que para a Igreja Ortodoxa, os textos teológicos, elaborados entre outros pelos Concílios ecumênicos, são as formulações feitas para preservar as verdades da fé ameaçadas pelas heresias. Era pela necessidade de interromper o caminho ao erro que os Padres foram levados a estabelecer tais textos. Um teólogo contemporâneo sublinha que, nesse contexto, "o dogma parece pois como o princípio de uma experiência decisiva, de uma luminosa evidência no Espírito Santo" (O. Clément, L'Eglise Orthodoxe, Paris. P.U.F., coll. "Quesais-je?" nº 949, 1965, pg. 36).

Doxologia.

A Doxologia (do grego doxa: glória) é a ação de glorificar. Para o Cristo trata-se de louvar a Deus em Três Pessoas, a Santa Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Cantar a Glória* de Deus é próprio do homem, e encontra-se textos doxológicos em numerosos livros do Velho Testamento, em particular nos Salmos. O homem ao glorificar Deus participa na louvação dos anjos.* É um tema central em Isaías, onde se encontra o seguinte texto:

Serafins... e chamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia de sua glória (Isa. 6:1-3).

Este "Três vezes Santo," ou Trisagion, esta louvação, existe com variações em todos os ofícios litúrgicos, seja diretamente (na Liturgia eucarística, por exemplo) sob esta forma, ou sob uma forma ampliada, ou como um filigrana em todas as ações de graça.

Cristo está no centro de numerosas doxologias do Novo Testamento. "Glorificando e louvando a Deus" (Luc. 2:20), suas mensagens (Atos 11:18; 21:20), seus milagres (Mac 2:12). Quanto a São Paulo, ele pontua suas Epístolas de doxologias (por exemplo, Gál. 1:3; Tit. 2:13). Enfim, as doxologias do Apocalipse recapitulam toda a obra salvífica de Nosso Senhor (Apo. 1:8 e 15:3).

Ao nos aproximarmos de Deus, compreendemos de imediato a transcendência* de Sua Glória, de Seu Poder, de Sua Grandeza; o que resulta sentimentos de admiração, de surpresa e outros análogos: a doxologia é assim uma conseqüência natural. (N. CabasiIas, Explication de Ia Divine Liturgie).

Cada ofício é entremeado por doxologias: "Glória a Ti..." "Glória ao Pai…," "Glória a Deus..." A própria Liturgia eucarística começa por uma doxologia "Bendito e Glorificado seja o Reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo."

O que se chama a Grande Doxologia se situa ao fim do orthos (ofício matutino: matinas e laudes), aos domingos e aos dias de festa. Ela começa por estas palavras: "Glória a Ti que nos fizeste ver a verdadeira luz." Em seguida vem o canto "Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra..." Segue-se o Trisagion: "Santo, Santo, Santo." A pequena doxologia se situa no ofício das completas.

Se a Divina Liturgia começa por uma doxologia recitada pelo padre, ela termina por uma outra cantada pelo coro e seguida pelos fiéis: Que nossos lábios se encham de Teu louvor, para cantarmos a Tua Glória..."

E

Ecfonese.

Fórmula abreviada de doxologia trinitária pronunciada pelo bispo ou pelo presbítero. A palavra vem de um advérbio grego que significa "em voz alta."

A ecfonese conclui seja uma litania proclamada pelo diácono, seja uma oração recitada pelo bispo ou pelo presbítero, em voz alta ou baixa. Como seu nome indica, a ecfonese é sempre pronunciada em voz alta.

Éden.

"E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, da banda do oriente e pôs ali o homem que havia formado" (Gên. 2:8). Era o paraíso, com todas as espécies de árvores agradáveis de ver e produzindo frutos bons para comer. Um rio cortava esse jardim aonde Deus vinha conversar com Adão e Eva na "brisa da tarde," É deste Éden que Adão e Eva foram expulsos após a queda. Querubins com espadas fulgurantes foram postados diante do jardim "para guardar o caminho da árvore da vida (Gên. 3:24)."

Epiclese.

De uma palavra grega que significa: "invocação." Momento do cânone eucarístico onde o bispo ou o presbítero, após haver, ao longo da anamnese,* relembrado a instituição da Santa Ceia,* pede ao Pai para enviar Seu Espírito Santo "sobre nós e sobre os dons que foram aqui oferecidos," e de fazer o pão e do vinho o Corpo e Sangue de Cristo.

Todos os sacramentos, uma vez que a ação de Deus é invocada, comportam uma invocação do Espírito, uma epiclese, que lhe dá sua eficácia.

Assim a Liturgia é atravessada desde o princípio por súplicas a Deus para o envio do Espírito Santo. Deve-se sublinhar que o mistério é acompanhado pela oração de toda a Igreja que é ouvida por Deus, pois a Igreja é a Nova Aliança à qual Deus se engajou por meio de Seu Filho e pelo Espírito Santo. A epiclese é o cumprimento da ação eucarística.

Epístola.

Do grego epistole (latim epistola). No Novo Testamento, uma epístola é uma carta escrita por um Apóstolo ou um Discípulo às comunidades cristãs. Existem epístolas de Paulo, Tiago, Pedro, João e Judas, Ao longo da Liturgia eucarística, lê-se um ou vários extratos de uma epístola antes da leitura do Evangelho.

Escatologia.

Do grego eschaton: último e logos: discurso. A definição do dicionário é: "conjunto de doutrinas e de crenças sobre os fins últimos do homem e do universo." Como fins últimos entende-se: sua morte e o que advém após sua morte.

Todo homem sabe que deve morrer. Freqüentemente ele não sabe mais nada a esse respeito e tem medo. O cristão, este, tem algumas certezas concernentes a seus "fins últimos": trata-se de verdades de fé comprovadas pelas Escrituras e pela Igreja. Algumas dessas verdades nos são afirmadas de modo claro, outras permanecem ainda, ao menos parcialmente, envolvidas em mistério. A Igreja Ortodoxa jamais procurou dar uma doutrina precisa sobre o além. Lázaro após sua ressurreição por Cristo, não fez revelações sobre o que aconteceu durante os quatro dias de sua "morte" (João 11:1-44). Na prática o que existe são crenças populares. Nós nos ateremos aos ensinamentos da Escritura e da Igreja.

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O que sabemos é que todos ressuscitarão (João 5:28) no dia da Parusia, dia da segunda Vinda do Senhor. O Credo que recitamos a cada Liturgia, termina com as seguintes palavras: "Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir." Sabemos assim que haverá o julgamento antes que o reino do mundo torne-se o Reino de Deus (Apo. 11:15), mundo novo, vida nova.

E o Julgamento tem um aspecto, temível... o inferno existe. É a Igreja e seus sacramentos que nos preparam a ter "um julgamento favorável no temível tribunal de Cristo" (Litania de Súplica).

Assim o destino humano é orientado para uma finalidade, num movimento dinâmico e livre da pessoa chamada a realizar sua semelhança divina. Cremos na ressurreição dos homens, corpos e almas, no julgamento e na Vida Eterna, a vida nova, já começada aqui. "(...) o Reino de Deus está entre vós" (Luc. 17:21): isto é o eschaton.

A Ressurreição. "Se o Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé" (1 Cor. 15:17).

O cristianismo toma a sua força na vitória de Cristo sobre a morte: se Cristo não houvesse ressuscitado, toda nossa fé, nossas convicções, nossa vida interior, nossa esperança, tudo repousaria sobre uma mentira.

Cristo morreu para a vida do mundo ("Pela cruz a alegria entrou no mundo": tropário pascal da ressurreição). A morte foi vencida precisamente porque o próprio Deus a provou enquanto pessoa, na humanidade que ele assumiu. Esta é a mensagem pascal do cristianismo.

Sem dúvida, a morte permanece como um fenômeno físico, mas ela não domina mais o homem enquanto destino inevitável e final: "Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo" (1Cor. 15:22). Como se expressa Atanásio: "Estamos aqui apenas por um tempo, na natureza mortal de nosso corpo, a fim de receber uma melhor ressurreição: como os grãos jogados na terra, não pereceremos, mas, semeados na terra, cresceremos de novo, ficando a morte reduzida a nada pela graça do nosso Salvador" (J. Meyendorff, Iniciation à Ia Theologie Bizantine, Paris, Cerf, 1975, pg. 218).

A alegria da ressurreição é algo que nós também como os Apóstolos, devemos aprender a sentir. Mas só poderemos fazê-lo se percebermos primeiro o sentido da cruz. Para ressuscitar é preciso morrer: morrer a esse egoísmo que nos entrava, morrer às nossas crenças, morrer a tudo que torna o mundo tão mesquinho, tão frio, tão pobre, tão cruel. Morrer de tal modo que nossas almas possam viver, reencontrar a alegria, descobrir as fontes da vida.

A Ressurreição está presente na Cruz, e a Cruz na Ressurreição. A Cruz é a Ressurreição e não há Ressurreição sem a Cruz (Nicolas Lossky).

A Ressurreição de Cristo é um acontecimento que pertence ao mesmo tempo ao passado e ao presente. Ao passado ela é evidente. Ao presente, porque Cristo uma vez ressuscitado está para todo sempre vivo, e cada um de nós pode conhecê-lo pessoalmente.

A eternidade,* não é qualquer coisa mais qualquer um. É o próprio Deus que podemos encontrar no decorrer do curso efêmero do tempo. Ele nos oferece essa comunhão com Ele na graça e no amor, num clima de liberdade mútua.

O Julgamento. A segunda vinda será também o momento do julgamento, pois o critério de toda justiça, o Cristo em pessoa em todo Seu poder e toda Sua evidência, estará presente, aguardando a resposta livre do homem. Deus fará um novo céu e uma nova terra e não se deve esquecer que o inferno existe como o céu existe. Diante do aspecto temível da justiça de Cristo, lembremo-nos que sua prerrogativa suprema é a misericórdia, e que Ele ama os homens. A Igreja aguarda a segunda vinda como o triunfo visível de Deus sobre o mal no mundo e a transfiguração de toda a criação. O amor de Deus — esta é nossa firme convicção — é oferecido sempre ao homem.

A Vida Nova. Em Cristo, a vida nova já começou. Ele é a vida eterna, a plenitude, a ressurreição e a alegria do mundo:

"Portanto ninguém se gloria nos homens; porque tudo é vosso; (...), seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro, tudo é vosso, e vós de Cristo e Cristo de Deus (1 Cor. 3:21-23).

A vida nova em Cristo, "eternamente agora e sempre," implica um engajamento pessoal e livre. No último dia a ressurreição será universal, mas a bênção será dada apenas àqueles que tiverem um desejo ardente e que se arrependerem de seus pecados. O estado escatológico, repetindo, não é apenas uma realidade futura mas sim uma vivência presente, acessível em Cristo pelos dons do Espírito.

O cânone eucarístico da liturgia (de São João Crisóstomo e de São Basílio) comemora a segunda vinda de Cristo ao mesmo tempo que os acontecimentos do passado, a Cruz, o Túmulo, a Ressurreição, a ascensão. Na presença eucarística do Senhor, Sua vinda futura já é realizada e o "tempo" transcendido. O Espírito Santo atualiza tanto os acontecimentos salvíficos do passado como atualiza o futuro. Nos faz comungar com a eternidade de Deus. Desde já, os cristãos podem ter a experiência da visão de Deus e da realidade da deificação.

Os teólogos a isto algumas vezes chamam de "escatologia realizada."

Não esqueçamos, também, que em sua ascensão a Deus o cristão não está só, ele é um membro do Corpo de Cristo; Ele pode realizar esta comunhão desde já antes de sua morte como após, e nos dois casos terá necessidade das orações de todo o Corpo, ao menos até o final dos tempos, quando Cristo estará "Tudo em tudo," Até a "aparição" última de Cristo, Seu Corpo, mantido pelos laços do Espírito, encerrando ao mesmo tempo os vivos e os mortos; o que é simbolizado durante a liturgia sobre a patena onde os pedaços de pão relembram aqueles que repousam em Cristo e os que ainda fazem parte da comunidade cristã visível na terra, todos unidos numa só comunhão eucarística. Esta comunhão em Cristo, indestrutível pela morte, torna possível e necessária a intercessão incessante de todos os membros do Corpo uns para os outros. A oração para os "mortos," do mesmo modo que a intercessão pelos santos defuntos para os "vivos," exprime uma só e indivisível comunhão dos santos*.

* * *

Ser cristão no contexto da escatologia significa o seguinte, em resumo: saber que Cristo é vida, fonte de toda Vida, que é Ele a Vida: "Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens" (Jo. 1:4).

Apenas, esta possessão de Cristo como vida, "alegria e paz" da comunhão com Ele, a certeza de sua presença, dão um sentido à proclamação da morte de Cristo e à confissão de Sua ressurreição.

A grande alegria que os discípulos sentiram ao ver Cristo ressuscitado, esse "coração ardente" que eles experimentaram a caminho de Emaús (Luc. 24:13-35), não tinha como causa a revelação dos mistérios de um "outro mundo." Tinha como causa a visão do Senhor. E Ele os manda pregar o arrependimento e a remissão dos pecados, a vida nova, o Reino. Eles anunciaram o que sabiam: que em Cristo, a vida nova já começara, que Ele era a vida eterna, a plenitude, a ressurreição e a alegria do mundo. Em Cristo, essa grande passagem, a "Páscoa" do mundo já havia começado, a lua do "mundo futuro" nos veio na alegria e na paz do Espírito Santo, pois Cristo ressuscitou e é o reinado da vida.

A Igreja é o sinal da nova era, a antecipação escatológica da nova criação: o cosmos* criado restaurado em sua integridade inicial. E a Eucaristia é uma antecipação dessa realização. Na Eucaristia os membros da Igreja já estão nos últimos tempos e conhecem as primícias do Reino.

Esta visão escatológica não implica uma recusa à vida presente com seus engajamentos e suas responsabilidades. Não se trata de uma fuga para fora do tempo, uma negação das realidades concretas e da história. Muito ao contrário. Uma frase do Padre Basílio Gondikakis de Stavronikita (Contacts, nº 89, pg. 108) sublinha com força ao nos lembrar o que devem ser os outros homens para nós, e nossa responsabilidade a esse respeito:

O outro é o verdadeiro lugar de nossa vida, nosso meio mais caro e mais insubstituível, que nos dá o dom — por nossa própria doação a ele — do sentido e da realidade da vida eterna que já começou (...); "Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos" (1 Jo. 3:14).

* * *

Este texto foi redigido após a leitura, entre outros, dos seguintes livros:

A L'Image et à Ia Ressemblance de Dieu (V. Lossky, op.cit);

Vogage spirituel (Mgr Antoine, Paris, Seuil, 1974);

Iniciation à lá théologie byzantine (J. Meyendorff, op. cit.);

Pour Ia Vie du Monde (ò. Schmemann, Paris, Desclée de Brower, 1969);

L'Orthodoxie (K.Ware, Paris, Desclée de Brower, 1968).

Veja também: Deificação, Inferno, Eternidade, Misericórdia, Mistério, Parusia, Redenção e Salvação.

Escritura.

Veja Bíblia.

Essência e Energia Divinas.

A Igreja Ortodoxa distingue entre essência de Deus e Suas energias. Ao falar de Sua essência, afirmamos que Deus é absolutamente transcendente* além de tudo criado, incognoscível, inatingível. Aliás, afirmamos também que Deus "está presente em tudo e enche tudo" e que podemos participar n'Ele pela graça.

De fato, Deus permanece o Todo-Distinto, se manifestando a nós por Suas energias, sob a forma de graça deificante e de luz divina.

A Igreja e os Padres repetem:

Conhecemos nosso Deus por Suas energias, não podemos ousar nos aproximarmos de Sua essência, mas estas energias chegam até nós e Sua essência fica fora do alcance (São Basílio).

São Gregório Palamas (Séc. XIV) diz que Deus é luz e a experiência das energias divinas toma a forma de luz. Esta luz incriada é a mesma daquela vista pelos apóstolos no Monte Tabor na Transfiguração do Senhor e daquela percebida pelos santos como São Simeão, o Novo Teólogo e São Serafim de Sarov.

"A essência é Deus, Deus em sua integralidade, tal como ele é em si mesmo. As energias são Deus em si mesmo. As energias são Deus em sua integralidade, tal como ele é em ação. Estabelecer uma distinção entre a essência e as energias, é reconhecer que Deus, em sua integralidade, é inacessível, mas ainda que Deus, em sua integralidade, tornou-se acessível ao homem o envolvendo com seu amor (Kallistos Ware, Approches de Dieu dans Ia Tradition Orthodoxe, Paris, Desclée de Brower, 1982, pg. 39)."

As energias incriadas não são pois algo que existe fora de Deus, nem um simples dom de Deus aos homens, mas a manifestação de Deus Vivo. Elas são o próprio Deus agindo e Se revelando ao mundo. Deus existe total e plenamente em cada uma de Suas energias comuns às três Pessoas da Trindade.

Ver também Graça.

Eternidade.

Quando lemos no Evangelho estas palavras do Senhor : "Antes que Abraão existisse, eu sou" (João 8:58), esta estranha flexão feita à gramática (eu sou e não era) deveria nos ajudar a entrever o que é a eternidade divina misteriosa que ultrapassa os limites humanos de tempo e de espaço.

Ao confessar no Credo que o Filho é "nascido do Pai antes de todos os séculos," não afirmamos que Seu nascimento é simplesmente anterior à criação, mas sim que ele está fora do tempo.

De fato, a noção de tempo é ligada à da criação. O tempo é algo criado. A eternidade, transcende o criado. Lemos portanto, no evangelho de João: "No princípio era o Verbo" (Jo. 1:1), mas este princípio é fora do tempo, pois o Verbo, o Cristo, "que é, e que era e que há de vir" (Apoc. 1:8), é toda a eternidade.

Não se deve opor eternidade e tempo, como se faz, por exemplo, com "longo" e "curto." A eternidade divina não significa imobilidade, estado estático, pois ela transcende tanto o movimento como a imobilidade. Ela não é o contrário do tempo. Ela não nega a história, pois Deus Se encarnou na história em um determinado tempo e lugar. Assim como o homem e toda a criação, o tempo também será transfigurado na Parusia*: mundo novo, céus novos, tempos novos. Mas Deus, "o Deus vivo e para sempre permanente, e o seu reino não se pode destruir; o seu domínio é até ao fim (Dan. 6:26)."

São Basílio mostrou que o mistério do tempo e da eternidade se resume no significado do Domingo. O Domingo é ao mesmo tempo o primeiro e o oitavo dia: é o primeiro dia da semana consagrado a Ressurreição do Senhor, é também a imagem do mundo que há de vir, o dia que marca a recriação, a entrada no Reino, o instante em que a Igreja acolhe a eternidade, o oitavo dia, que não terá fim. Basílio acrescenta que não precisamos nos ajoelhar aos domingos, porque escapamos nesse dia único na Igreja, da condição temporária de escravo, para entrar simbolicamente, de pé, salvos, no Reino.

Eucaristia.

Vem de uma palavra grega que significa: "render graças," "ação de graças," "agradecimento." Quando Cristo instituiu a Santa Ceia,* Ele "rendeu graças" e benzeu o pão e o vinho. Por esse motivo essa ação do Senhor recebeu o nome de Eucaristia. A assembléia de fiéis ao redor do bispo ou seu representante — o presbítero — comemora, torna atual, o sacrifício único de Cristo e rende graças em nome dessa assembléia à Santíssima Trindade.

Comemorando a paixão salvífica do Senhor que venceu a morte pelo oferecimento que fez de Sua Vida, os fiéis oferecem a Deus o pão e o vinho que se tornarão Corpo e Sangue de Cristo, eles se oferecem eles mesmos e toda a criação, por todos, vivos e mortos, e por tudo. E na epiclese,* o presbítero pede ao Pai para mandar o Espírito Santo sobre os fiéis e sobre suas oferendas* a fim de serem penetrados pelo poder divino. O pão e o vinho, transformados em Corpo e Sangue de Cristo serão repartidos entre os fiéis a fim de que "eles se tornem para aqueles que dele participam, purificação de suas almas, remissão de seus pecados, comunhão com o Espírito Santo, plenitude do Reino dos Céus."

A Liturgia* eucarística não é pois apenas a invocação do Sacrifício único de Cristo, ela é também a passagem deste mundo para o mundo futuro, a vinda e a presença do Reino de Deus que apenas será dada plenamente na Parusia.* O instante da verdade que restaura a ordem do mundo depois da queda. A eternidade invade o tempo — que não será entretanto abolido, mas transcendido — e podemos dizer que nos lembramos da Cruz, do Túmulo, da Ressurreição, do Trono à direita do Pai e também da segunda e gloriosa vinda (Parusia) aqui e agora.

Na Eucaristia, a economia salvífica de Cristo torna-se presente e atual. Sendo comunhão, a Eucaristia nos introduz na vida da Santíssima Trindade. Ela é também o próprio fundamento da Igreja, o sacramento* por excelência, que é de fato o "Corpo de Cristo" (1 Cor. 10:16).

Veja também Anáfora.

Evangelho.

Ver Bíblia.

Ex Nihilo.

Ver Transcendência.

F

Fidelidade.

A fidelidade é antes de mais nada característica de Deus, associada à Sua bondade para com o povo da Aliança. Deus é "grande em beneficência e verdade" (Êx. 34:6), "a palavra de nosso Deus subsiste eternamente" (Isa. 40:8), "Suas promessas são sempre cumpridas" (Tob. 14:4). Deus pede ao homem que seja fiel a Ele também. Contudo o povo de Israel, ao longo de sua história, traiu com freqüência esta fidelidade e Deus, depois de lhes castigar, lhes perdoa diversas vezes suas infidelidades.

Os profetas anunciavam a vinda de um Servo do Senhor (Isa. 42). O Cristo, Filho e Verbo de Deus, será o Servo fiel. Ele cumpre todas as suas promessas (2 Cor. 1:20). N'Ele se manifesta plenamente a fidelidade de Deus (1 Tess. 5:24).

Os que seguem Cristo são chamados Seus fiéis. Esta fidelidade baseia-se nos dois mandamentos que o Senhor disse não existirem maiores: "Amará o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento... o teu próximo como a ti mesmo" (Mat. 22:37-40).

O segredo da fidelidade ao Senhor e da observância da Nova Aliança é pois o amor — não apenas o amor pelos que nos amam, mas o amor pelos inimigos (Mat. 5:43-44).

Filioque.

Veja Credo.

Fins Últimos.

Veja Escatologia.

G

Gênesis.

Veja Bíblia.

Gentios.

Para o povo judeu do Antigo Testamento, existia de um lado Israel, o povo de Deus e de outro lado "gentios" (ou "Nações"), quer dizer os "pagãos" que não conheciam Deus.

No Novo Testamento, a noção de povo de Deus se ampliou para tornar a Igreja. A unidade humana foi restaurada. "…não há judeu nem grego" (Gál. 3:28). Cristo veio reunir todos os homens, Israel e os gentios, chamando o homem novo e uma vida nova em Cristo.

A Epístola dos Efésios insiste: Lembrai -vos que vós noutro tempo éreis Gentios... Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade d 'Israel e estranhos aos concertos da promessa... Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derribando a parede de separação que estava no meio. Na sua carne desfez a inimizade... para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz. (Efe. 2:11-16).

São Paulo é chamado "o Apóstolo dos Gentios," ou "das Nações," porque ele pregou o Evangelho aos habitantes do Império Romano que não pertenciam ao povo judeu.

Veja também Israel.

Glória.

"Glória a Ti, Senhor, glória a Ti." A Santa Escritura é farta em expressões referentes à glória de Deus. Da mesma forma que os textos litúrgicos e toda a literatura patrística.

Encontramo-nos diante de tal riqueza que é difícil escolher exemplos para tentar "definir" o que é esta glória, esta luz de Deus que é também Sua graça.

No sentido comum, esta palavra, sabe-se significa honra, renome, poder, riqueza, brilho das vitórias, etc; todos os valores que são perecíveis. Na Bíblia, existe freqüentemente tal sentido. Jó clamou: "Da minha honra me despojou" (Jó 19:9). Fala-se da glória das vestes de Aarão (Êxo. 28), da riqueza e da glória de Salomão. Existe entretanto outros sentidos que nos deixam entrever uma realidade infinitamente mais profunda, mais misteriosa, uma verdade difícil de conceituar por palavras, pois ela pertence ao domínio do mistério divino eterno. Assim, as intervenções e o poder de Deus são associados à Sua glória. A glória do Senhor revela Sua majestade, Sua santidade, é o próprio Deus.

Entre as inúmeras manifestações da glória de Deus no Antigo Testamento, escolhemos a experiência de Moisés no Monte Sinai (Êx. 33:18) "então ele disse: "Rogo-te, que me mostres a tua glória." E Deus lhe responde: "Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá" (Êx. 33:20). Deus disse a Moisés para ficar na fenda da penha (rocha) e quando minha glória passar... e te cobrirei com minha mão." Sua face, Sua presença e Sua glória são uma mesma realidade a qual o homem é chamado à participar por meio de Cristo.

No Novo Testamento, a glória de Deus é também chamada luz (1 Jo. 1:5). Na sua Transfiguração no Monte Tabor, diz-se a respeito de Nosso Senhor: "Seu rosto resplandeceu como o sol" (Mat. 17:2)." No ícone notamos a auréola de Cristo — brilho de luz ao redor de Cristo — que transfigura os homens e a natureza. São Macário escreveu a esse respeito que o "corpo do Senhor foi glorificado quando foi para a montanha e foi transfigurado na glória de Deus, (...) da mesma forma os corpos dos santos são glorificados e resplandecem uma brancura fulgurante."

Pela Encarnação, Cristo, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, é despojado de Sua glória (veja Kenose*; Ele se fez homem, aceitou a Paixão e a Cruz. Ele ressuscitou, e foi "recebido acima na Glória" (1 Tim. 3:16) à Ascensão. "De novo há de vir cheio de Glória para julgar os vivos e os mortos" (Credo).

Devemos também acrescentar uma outra noção ao significado da glória, noção que revela o laço que existe entre a glória de Deus e o homem, como diz Santo Irineu: "A Glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus" (Contre lês hérétiaves, IV, 20,7) e: "A Glória do homem é Deus" (Ibid., III, 20:2).

Compreendemos pois porque a criação inteira aspira à revelação da Glória de Deus. São João vê a Nova Jerusalém "e a cidade não necessita de sol nem de lua para que nela resplandeçam, porque a glória de Deus a tem alumiado.." (Apoc. 21:23). No último dia, Deus virá em toda a Glória de Sua luz e os justos O verão.

Ele, Deus e Mestre do universo, brilhará nesse momento na Glória de Sua Divindade, (...) revelará a todos o que Ele é, cobrirá, todas as coisas de Sua própria luz e tornará para Seus Santos o Dia de júbilo eterno, sem declínio e sem fim. (São Simeão, o Novo Teólogo, Traités théologiques et ethiques, X, 19-35).

Nós somos a imagem dessa Glória indizível. Como contamos no ofício para os defuntos: "Eu sou a imagem de Tua Glória mesmo quando trago os estigmas do pecado."

Graça.

Perguntou-se um dia a um fiel ortodoxo pouco ligado a teologia: "O que é a Graça?" Ele respondeu após um momento de reflexão: "A Graça é o amor." O dicionário nos dá esta definição: "Ajuda, socorro, que Deus concede tendo em vista a salvação."

Voltemo-nos a São Paulo que, por meio de diversos textos, diz a mesma coisa ao afirmar que esta Graça é o dom de Deus que contém todos os outros, o de Seu Filho: (Deus quis):

"Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas de Sua graça, pela Sua benignidade para conosco em Cristo Jesus" (Efe. 2:7). "Mas segundo seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (2 Tim 1:9).

Já no Antigo Testamento é comum a questão da graça. Ela é freqüentemente associada à misericórdia,* à fidelidade* e à bênção. Deus manifesta ininterruptamente Sua graça a Seu povo de Israel. Esse Deus "misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e verdade" se dirige a Moisés que Lhe responde: "Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, vá agora o Senhor no meio de nós" (Êx. 34;9)." De fato, a graça é dupla: ela desce sobre o homem e faz que este último encontre por meio dela favor à Seus olhos, quer dizer torna-se digno dos benefícios de Deus, pois recebe a graça.

Para nós, cristãos, cremos que Deus Se revelou em Jesus Cristo com quem veio "a graça e a verdade" (Jo. 1:17). Esta graça fecunda é fonte da transformação do homem e de todas suas boas obras. Ela é dada gratuitamente e não pode ser "comprada" por esta ou aquela ação. Quer dizer que o homem deve se preparar pelo dom de toda sua vida, pelo amor de Deus e de Seus mandamentos, e sua abertura ao Senhor, é a manifestação — as energias* — de Deus Vivo.

A graça significa em geral (...) toda a riqueza da natureza divina ao se manifestar aos homens. O que é comum ao Pai e ao Filho é a divindade que o Espírito Santo comunica aos homens da Igreja, fazendo-os "participantes da natureza divina" (2 Ped. 1:4), conferindo o fogo da divindade, a Graça incriada àqueles que se tornam membros do Corpo de Cristo" (V. Lossky, Théologie mystique de l'Eglise d'0rient, op. cit. pg. 159).

Sendo manifestação de Deus aos homens, a graça é fogo e luz, portanto gloria.*

Para exprimir a relação entre a Graça de Deus e a liberdade humana, utiliza-se o termo sinergia, quer dizer cooperação. "Nós somos os cooperadores de Deus" diz São Paulo (1 Cor. 3:9). Ninguém pode ser salvo sem a ajuda de Deus, mas o homem deve contribuir para esta obra comum.

São Cirilo de Jerusalém resume claramente esse papel duplo: Deus concede a graça, nosso dever é aceitá-la e conservá-la.

Veja também Glória e Justiça.

H

Hesicasmo.

Esta palavra vem do grego hesy chia e significa "repouso," quietude," "tranqüilidade," ela significa o silêncio e a paz interior na qual procuram viver aqueles que se consagram à oração incessante e à sobriedade espiritual (nepsis).

Desde o século IV, o termo hesychia é utilizado na literatura cristã para qualificar o modo de vida escolhido pelos eremitas — os hesicastas — que se consagram à oração incessante. O hesicasmo designa essa tradição espiritual e seus métodos de oração, essencialmente monástica na origem e viva até os dias de hoje.

A princípio transmitidos por via oral, de mestre a discípulo, nos mosteiros, os métodos do hesicasmo foram a seguir pouco a pouco registrados por escrito. Seus principais centros foram, desde o século IV, os mosteiros do Sinai e depois os do Monte Athos, onde ocorreu no século XIV um grande renascimento do hesicasmo.

O grande santo Gregório Palamas, monge de Athos e mais tarde bispo de Tessalônica, defende vigorosamente o movimento por ocasião das controvérsias sobre a doutrina na natureza de Deus e os métodos da oração, estabelece seus fundamentos teológicos e suas bases dogmáticas e salienta, em particular, a unidade do homem, corpo e espírito. Ele alcança uma vitória completa: os concílios de Constantinopla de 1341, 1347 e 1351 confirmam seus ensinamentos. O padre João Meyendorff resume da seguinte forma a posição teológica de São Gregório Palamas sobre esse ponto:

O conhecimento de Deus é uma experiência dada a todos os cristãos pelo batismo e por sua participação permanente na vida do corpo de Cristo por meio da eucaristia. Ele exige também a participação do homem inteiro na oração e o sacrifício, pelo amor de Deus e do próximo; Desta forma pode-se reconhecê-lo não apenas por uma experiência "intelectual" somente do espírito mas também por um "senso espiritual" que permite uma percepção nem puramente material. Em Cristo, Deus assumiu a totalidade do homem, corpo e alma; e o homem da mesma Forma foi deificado, Pela oração, o "método" (hesicasta) por exemplo, pelos sacramentos, pela vida inteira da Igreja enquanto comunidade, o homem é chamado a participar da vida divina: esta participação (metoché) é também o verdadeiro conhecimento de Deus (Initiation à Ia théologie; byzantine, op. cit. pg. 104).

Ao final do século XVIII, o hecicasmo se expandiu para fora dos mosteiros, graças a uma obra importante saída de uma imensa enciclopédia de textos dos padres espirituais, publicada por um monge grego, Nicodemo o Agiorita e editada em seguida em Russo por Paissi Velitchkovsky e traduzida depois em várias línguas.

Esta obra, chamada "A Filiocalia dos Padres Népticos" (filocalia: amor à beleza; népticos: aqueles que praticam a sobriedade espiritual), contém numerosos textos sobre a oração incessante pelos Padres, tais como São Macário, São Isaac, São João Clímaco, São João o Hesi- casta, Diadoco de Fótico, São Simeão o novo Teólogo, São Gregório Palamas, Calixto, Inácio Xanthopoulos e etc...

A oração incessante

São Paulo (1Tess 5:16) nos prescreve: "Orai sem cessar." Um teólogo contemporâneo sublinha: "Toda a presença do homem diante de Deus é uma oração. Mas é preciso que esta oração torne-se uma atitude constante sempre consciente: a oração deve tornar-se perpétua e ininterrupta, como a respiração, como a batida do coração" (V. Lossky, Théologie mystique de l'Eglise d'Orient, op. cit. pg. 206). As palavras chaves: oração constante, consciência, a respiração, o coração — são de fato o coração do hesicasmo, a arte da oração incessante, essa disciplina tão fácil e tão difícil ao mesmo tempo.

Qual é a forma dessa oração perpétua?

Ela é toda centrada no nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Existem várias formas — todas muito curtas mas a mais utilizada é; "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador" (N.T. em nossa Igreja usamos: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tem piedade de mim, pecador"), ela une a súplica do publicano (Luc.18:13): "Ó Deus, tem misericórdia de mim pecador" e os gritos dos dois cegos (Mat. 9:27): "Tem compaixão de nós, filho de Davi," A invocação que, repetida sem cessar, em geral silenciosamente, com cada respiração, torna-se por assim dizer a segunda natureza daqueles que a ela se consagra.

Certos procedimentos relativos ao domínio da respiração e ao ritmo da oração são utilizados. Esses métodos destinados a favorecer a concentração não devem ser de forma alguma considerados como os fins por si só. Não existe nenhum meio mecânico ou técnica para obter a graça de Deus. Todo o recurso dos "exercícios" que alguns comparam talvez um pouco rápido demais a práticas orientais (Yoga hindu ou dhikr muçulmano) pode ir contra os fins procurados e apresenta graves perigos. A parte mecânica é secundária e método algum pode de qualquer forma ser praticado sem o conselho de um mestre com experiência. O que conta sobremaneira é descartar todos os pensamentos, que nos assaltam sem cessar. Os mestres dizem que se trata de fazer descer o intelecto ao coração. O coração nesse sentido não designa o lado emocional, mas o ponto central do homem, o centro espiritual da pessoa, onde o intelecto e o coração se unem. A oração pois não é mais somente dita com os lábios ou pensada com a inteligência, mas é oferecida por todo o ser, intelecto, razão, vontade e corpo físico. A oração contínua conduz a um estado tranqüilo do espírito, que pela pacificação das profundezas do ser pela graça, torna-se orientada em direção a Deus.

Entende-se porque esta oração é chamada Oração de Jesus (ou a Jesus), ou Oração do Coração.

Qual é a forca e o poder dessa oração?

Enquanto invocação do poderoso nome divino, ela tem suas raízes no Novo Testamento, mas ela tem também suas origens longínquas no Antigo Testamento. O nome divino em todo Antigo Testamento é portador de poder, exprime a pessoa, e numerosos são os textos que se referem à "Santificação do nome" e "para o nome."

No Novo Testamento, o Anjo anuncia à Maria que seu filho. "…Chamarás o seu nome Jesus porque ele salvará o seu povo dos seus pecados" (Mat. 1:21). O nome de Jesus significa: "Aquele que Salva." São Paulo usando, um hino dos primeiros cristãos, lembra o poder desse nome, sinal e portador do poder divino:

"Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;

Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra;

E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai" (Fil. 2:9-11).

O evangelho de São João descreve o que Jesus disse a seus discípulos: "Na verdade, na verdade vos digo, que tudo quanto pedirdes ao meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar" (João 16:23). As referências ao poder do nome de Jesus são inumeráveis (veja por exemplo: Mac 9:38-40) e é sempre lembrado que é impossível fazer desse nome um uso eficaz se não existir uma harmonia interior entre aquele que o invoca e o Senhor. A oração de Jesus não é um meio de fugir da realidade ou uma fórmula mágica que não se vincula com a necessidade de realizarmos uma perpétua metanóia, uma penitência e nos transformamos. A invocação do nome de Jesus tem um aspecto eclesial. Este nome é um meio de nos unir à Igreja, pois a Igreja é o Corpo de Cristo. Esta oração acompanha a vida em Igreja e